Estranhas senhoritas trespassavam aleivosamente o Aréopago encantado em frente ao Templo dos progressistas – o Centenário Café – quando lhes arrebatei com a violência e autoridade inconteste de um profeta sertanejo, o documento que reproduzo abaixo, neste espaço devidamente comprado, já que os seus editores integram o magote de desenvolvimentistas mal-intencionados. Constitui-se em prova cabal da genial hipótese, levantada há poucos dias por Anísio Valeiro no hebdomadário Polócios e Negolíticas, argumentando uma causa metafísica para a absurda naturalidade com que as pessoas, e em especial as pessoas governantes, tratam a sistemática transformação das cidades sertanejas em bolhas anômalas de urbanidade americanizada no meio da caatinga brava do semiárido da Paraíba. Segundo a tese, não é maldade ou interesse escuso a motivação desse tipo de comportamento estranho, mas uma intervenção de poderes maléficos organizados em âmbito mundial sob a coordenação de uma entidade dos infernos autodenominada “O Homem de Plasma”. O documento comprova. Ei-lo:
MÉTODO PROPEDÊUTICO DE RETRO-DESENVOLVIMENTO URBÂNICO
A/C Leviatã. A ser aplicado integralmente e com presteza no Médio Sertão da Paraíba.
1. Os governantes, eleitos ou não, devem diariamente repetir a seguinte oração matinal, senão em voz alta, ao menos com a voz interior: “Ó Energia Universal, Não-Renovável, Não-Fóssil, mas de Altíssimo Desempenho, insuflai em nossas mentes a constante disposição de trazer o desenvolvimento à nossa cidade de [dizer o nome], a fim de transformá-la numa cidade tipicamente contemporânea, com todas as bênçãos da produção cada vez maior para um consumo cada vez maior, do tamanho cada vez maior e da fluidez cada vez maior do Progresso que tanto caracterizam aquelas que são por ti agraciadas. Que haja em nossas ruas muitos carros e caminhões, em nossas casas muitas TV’s, em nosso comércio muitos quitutes importados, em nossas festas muitos paredões de som e em nossas igrejas muitos dízimos.” Terminar a oração com o propósito de inovar com Progresso em pelo menos uma decisão do dia (por exemplo, permitir e se for o caso incentivar a eliminação de entidades antiquadas tais como cinematógrafos em ruas-do-prado).
2. Promova-se com afinco missionário em todos os meios de comunicação possíveis o já latente desejo da população de que a cidade cresça e se modernize, dando-lhes a satisfação de participar da construção de um lugar desenvolvido, semelhante aos grandes e benditos centros urbanos mundiais e em nada parecido com aquelas miseráveis identificações regionalescas. Não se deve permitir divergências aos comportamentos-padrão. Esse povo só dará sinais de desenvolvimento quando for unânime em louvar o modelo novaiorquino ou londrino e ridicularizar qualquer manifestação de identidade com a pobreza nordestina. É urgente que as meninas imitem Paris Hilton ou qualquer integrante do BBB.
3. Elimine urgentemente as árvores que, por si mesmas e pela quantidade indecente de pássaros que abrigam, sujam as ruas e impedem o livre trânsito de carros, caminhões e carretas, além de produzirem as inúteis sombras que bloqueiam a ação benéfica sobre a pele e o cérebro daquele manso sol sertanejo do meio-dia. Uma rua só será realmente símbolo de desenvolvimento se estiver completamente livre de árvores e arbustos, cuja presença causa vômitos ao Progresso. No entanto, para valorizar a memória dessas espécies e a globalização ecológica, plante em canteiros, em quantidade moderada, árvores que não sejam nativas e que produzam pouca sombra. Melhor ainda se elas forem produzidas em laboratório, para incentivar o progresso da ciência. Implante muitas árvores de plástico: são verdes, não necessitam de monitoramento e nem gastam muitos recursos.
4. Retire imediatamente todos os moradores da zona rural e encha sua cidade de alegres periferias. Os sítios devem ficar absolutamente vazios.
5. Não permita o crescimento de elementos estranhos ao progresso do comércio, como feiras livres ou pequenos comerciantes. O Progresso precisa de lugares arejados, impessoais e organizados para sobreviver. Comportamentos de crédito por amizade, troca de produtos ou qualquer forma de tratamento pessoal no comércio devem ser urgentemente abolidos ou tratados com a indignidade das anormalidades. Priorize grandes redes de supermercados, shoppings, lojas grandiosas e agências de publicidade comercial, se possível dando-lhes incentivo fiscal e oportunidade de ganhar licitações. A fim de não causar celeuma, não elimine de imediato os pequenos comerciantes, deixe essa tarefa para o Progresso naturalmente realizar. Sua tarefa é isolá-los em lugares pouco confortáveis para o consumidor ou bani-los para localidades cada vez mais distantes do centro comercial desenvolvido. Compense a necessária ajuda de infra-estrutura para essas anomalias funcionarem com a absoluta ausência de auxílio de outra forma, seja em compras, seja em propaganda.
6. A palavra “sertanejo” passa a designar a partir de agora a música e o ambiente country. Por isso deve vir sempre acompanhada de referências auditivas e/ou imagéticas a duplas de cantores de sotaque do interior paulista, vestidos à moda Arizona anos ‘30. Em nenhuma hipótese pode-se referir a mediocridades como música armorial ou elomariana, são malignas e devem permanecer desconhecidas. Cantadores, repentistas e cordelistas devem ser negligenciados e tratados como o que são: seres cafonas e ridículos. O sertão, a caatinga e toda manifestação cultural que os tenha como referência devem ser lembrados como algo estrangeiro, feio e longínquo.
7. As escolas devem dirigir seu ensino exclusivamente para o conteúdo do Vestibular, que é cuidadosamente preparado para garantir que o Progresso ganhe força e adeptos. Caso não seja possível impedir eventos escolares que fujam a isso, promova-os de forma a parecer mais uma festa do que uma ocasião educativa, assim as pessoas não cometerão o pecado de duvidar da ordem escolar e da bênção do Vestibular.
8. Gaste os recursos necessários promovendo eventos de massa que alimentam o Progresso: movimentam o comércio, imunizam as pessoas contra essa maldição de criticar tudo – o que só traz desordem e infelicidade; louvam os méritos dos abençoados, desenvolvidos e ricos que conseguiram chegar lá e ainda promovem a verdadeira música popular, com expressões sempre cômicas e ritmos cada vez mais livres daquela parafernalha de instrumentos acústicos e de melodias. Atente-se para as bandas modernas que são as únicas propícias para ocasiões como essas. O Progresso precisa que as pessoas bebam e dancem e gritem, que os meninos não tenham medo do ridículo e que as meninas não saibam o que é isso. Um evento musical só será símbolo de desenvolvimento quando forem ouvidos vários paredões-de-som na rua e forem vistos pelo menos sessenta grupos de jovens bêbados, se possível derramando uísque na rua, como prova de abundância de recursos. Evite a todo custo financiar eventos, artistas ou iniciativas de cultura ridiculamente chamada de “local”, que só gastam recursos e podem voltar a atenção das pessoas para coisas antigas como música acústica, artesanato e outras velharias. Caso não seja possível, divulgue pouco e deixe claro que eles são a exceção pitoresca.
9. Por fim, para evitar a desordem pública mantenha-se sempre alerta contra o veneno dos recalcados que não aceitarão as mudanças. Use a linguagem que eles usarem, mesmo que pareça antiquada: diga que o meio-ambiente tem que ser protegido, que os pequenos comerciantes têm que ser valorizados e que a cultura local tem que ser promovida, mas cuide de fazer sistematicamente o contrário. Por outro lado, mantenha sempre um serviço de atendimento para essas denúncias de reacionários infelizes, orientando os atendentes a usarem as fortes expressões: “É inacreditável que isso esteja acontecendo” e “Estamos tomando as devidas providências, com urgência”. Ao desligar o telefone, os atendentes devem concluir a sua partida de Paciência.
10. Encarregue alguma primeira-dama em todas essas coisas, são fiéis ao Progresso e não costumam gastar forças pensando em muita coisa.
Com essas medidas, a cidade e seu povo serão abençoados, o Progresso os porá no rumo ao País das Maravilhas, lá onde todos descansarão dessas tarefas cansativas da vida como o pensamento, a interação, o trabalho e a arte; onde haverá autômatos fidedignos substituindo a todos, poupando todos os destinos de decisões, suores, sentimentos e relações pessoais que atrapalham o descanso eterno, vosso, nosso e dos deuses.
O Homem de Plasma
Centro Centrífugo Mundial de Retro-Desenvolvimento
MÉTODO PROPEDÊUTICO DE RETRO-DESENVOLVIMENTO URBÂNICO
A/C Leviatã. A ser aplicado integralmente e com presteza no Médio Sertão da Paraíba.
1. Os governantes, eleitos ou não, devem diariamente repetir a seguinte oração matinal, senão em voz alta, ao menos com a voz interior: “Ó Energia Universal, Não-Renovável, Não-Fóssil, mas de Altíssimo Desempenho, insuflai em nossas mentes a constante disposição de trazer o desenvolvimento à nossa cidade de [dizer o nome], a fim de transformá-la numa cidade tipicamente contemporânea, com todas as bênçãos da produção cada vez maior para um consumo cada vez maior, do tamanho cada vez maior e da fluidez cada vez maior do Progresso que tanto caracterizam aquelas que são por ti agraciadas. Que haja em nossas ruas muitos carros e caminhões, em nossas casas muitas TV’s, em nosso comércio muitos quitutes importados, em nossas festas muitos paredões de som e em nossas igrejas muitos dízimos.” Terminar a oração com o propósito de inovar com Progresso em pelo menos uma decisão do dia (por exemplo, permitir e se for o caso incentivar a eliminação de entidades antiquadas tais como cinematógrafos em ruas-do-prado).
2. Promova-se com afinco missionário em todos os meios de comunicação possíveis o já latente desejo da população de que a cidade cresça e se modernize, dando-lhes a satisfação de participar da construção de um lugar desenvolvido, semelhante aos grandes e benditos centros urbanos mundiais e em nada parecido com aquelas miseráveis identificações regionalescas. Não se deve permitir divergências aos comportamentos-padrão. Esse povo só dará sinais de desenvolvimento quando for unânime em louvar o modelo novaiorquino ou londrino e ridicularizar qualquer manifestação de identidade com a pobreza nordestina. É urgente que as meninas imitem Paris Hilton ou qualquer integrante do BBB.
3. Elimine urgentemente as árvores que, por si mesmas e pela quantidade indecente de pássaros que abrigam, sujam as ruas e impedem o livre trânsito de carros, caminhões e carretas, além de produzirem as inúteis sombras que bloqueiam a ação benéfica sobre a pele e o cérebro daquele manso sol sertanejo do meio-dia. Uma rua só será realmente símbolo de desenvolvimento se estiver completamente livre de árvores e arbustos, cuja presença causa vômitos ao Progresso. No entanto, para valorizar a memória dessas espécies e a globalização ecológica, plante em canteiros, em quantidade moderada, árvores que não sejam nativas e que produzam pouca sombra. Melhor ainda se elas forem produzidas em laboratório, para incentivar o progresso da ciência. Implante muitas árvores de plástico: são verdes, não necessitam de monitoramento e nem gastam muitos recursos.
4. Retire imediatamente todos os moradores da zona rural e encha sua cidade de alegres periferias. Os sítios devem ficar absolutamente vazios.
5. Não permita o crescimento de elementos estranhos ao progresso do comércio, como feiras livres ou pequenos comerciantes. O Progresso precisa de lugares arejados, impessoais e organizados para sobreviver. Comportamentos de crédito por amizade, troca de produtos ou qualquer forma de tratamento pessoal no comércio devem ser urgentemente abolidos ou tratados com a indignidade das anormalidades. Priorize grandes redes de supermercados, shoppings, lojas grandiosas e agências de publicidade comercial, se possível dando-lhes incentivo fiscal e oportunidade de ganhar licitações. A fim de não causar celeuma, não elimine de imediato os pequenos comerciantes, deixe essa tarefa para o Progresso naturalmente realizar. Sua tarefa é isolá-los em lugares pouco confortáveis para o consumidor ou bani-los para localidades cada vez mais distantes do centro comercial desenvolvido. Compense a necessária ajuda de infra-estrutura para essas anomalias funcionarem com a absoluta ausência de auxílio de outra forma, seja em compras, seja em propaganda.
6. A palavra “sertanejo” passa a designar a partir de agora a música e o ambiente country. Por isso deve vir sempre acompanhada de referências auditivas e/ou imagéticas a duplas de cantores de sotaque do interior paulista, vestidos à moda Arizona anos ‘30. Em nenhuma hipótese pode-se referir a mediocridades como música armorial ou elomariana, são malignas e devem permanecer desconhecidas. Cantadores, repentistas e cordelistas devem ser negligenciados e tratados como o que são: seres cafonas e ridículos. O sertão, a caatinga e toda manifestação cultural que os tenha como referência devem ser lembrados como algo estrangeiro, feio e longínquo.
7. As escolas devem dirigir seu ensino exclusivamente para o conteúdo do Vestibular, que é cuidadosamente preparado para garantir que o Progresso ganhe força e adeptos. Caso não seja possível impedir eventos escolares que fujam a isso, promova-os de forma a parecer mais uma festa do que uma ocasião educativa, assim as pessoas não cometerão o pecado de duvidar da ordem escolar e da bênção do Vestibular.
8. Gaste os recursos necessários promovendo eventos de massa que alimentam o Progresso: movimentam o comércio, imunizam as pessoas contra essa maldição de criticar tudo – o que só traz desordem e infelicidade; louvam os méritos dos abençoados, desenvolvidos e ricos que conseguiram chegar lá e ainda promovem a verdadeira música popular, com expressões sempre cômicas e ritmos cada vez mais livres daquela parafernalha de instrumentos acústicos e de melodias. Atente-se para as bandas modernas que são as únicas propícias para ocasiões como essas. O Progresso precisa que as pessoas bebam e dancem e gritem, que os meninos não tenham medo do ridículo e que as meninas não saibam o que é isso. Um evento musical só será símbolo de desenvolvimento quando forem ouvidos vários paredões-de-som na rua e forem vistos pelo menos sessenta grupos de jovens bêbados, se possível derramando uísque na rua, como prova de abundância de recursos. Evite a todo custo financiar eventos, artistas ou iniciativas de cultura ridiculamente chamada de “local”, que só gastam recursos e podem voltar a atenção das pessoas para coisas antigas como música acústica, artesanato e outras velharias. Caso não seja possível, divulgue pouco e deixe claro que eles são a exceção pitoresca.
9. Por fim, para evitar a desordem pública mantenha-se sempre alerta contra o veneno dos recalcados que não aceitarão as mudanças. Use a linguagem que eles usarem, mesmo que pareça antiquada: diga que o meio-ambiente tem que ser protegido, que os pequenos comerciantes têm que ser valorizados e que a cultura local tem que ser promovida, mas cuide de fazer sistematicamente o contrário. Por outro lado, mantenha sempre um serviço de atendimento para essas denúncias de reacionários infelizes, orientando os atendentes a usarem as fortes expressões: “É inacreditável que isso esteja acontecendo” e “Estamos tomando as devidas providências, com urgência”. Ao desligar o telefone, os atendentes devem concluir a sua partida de Paciência.
10. Encarregue alguma primeira-dama em todas essas coisas, são fiéis ao Progresso e não costumam gastar forças pensando em muita coisa.
Com essas medidas, a cidade e seu povo serão abençoados, o Progresso os porá no rumo ao País das Maravilhas, lá onde todos descansarão dessas tarefas cansativas da vida como o pensamento, a interação, o trabalho e a arte; onde haverá autômatos fidedignos substituindo a todos, poupando todos os destinos de decisões, suores, sentimentos e relações pessoais que atrapalham o descanso eterno, vosso, nosso e dos deuses.
O Homem de Plasma
Centro Centrífugo Mundial de Retro-Desenvolvimento
2 comentários:
Que os céus tenham piedade de nós. Os profetas existem!
Fiquei sabendo que esse pessoal dessa seita ganhou um camarote vip no São Turismo João desse ano.
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