segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Documento

Estranhas senhoritas trespassavam aleivosamente o Aréopago encantado em frente ao Templo dos progressistas – o Centenário Café – quando lhes arrebatei com a violência e autoridade inconteste de um profeta sertanejo, o documento que reproduzo abaixo, neste espaço devidamente comprado, já que os seus editores integram o magote de desenvolvimentistas mal-intencionados. Constitui-se em prova cabal da genial hipótese, levantada há poucos dias por Anísio Valeiro no hebdomadário Polócios e Negolíticas, argumentando uma causa metafísica para a absurda naturalidade com que as pessoas, e em especial as pessoas governantes, tratam a sistemática transformação das cidades sertanejas em bolhas anômalas de urbanidade americanizada no meio da caatinga brava do semiárido da Paraíba. Segundo a tese, não é maldade ou interesse escuso a motivação desse tipo de comportamento estranho, mas uma intervenção de poderes maléficos organizados em âmbito mundial sob a coordenação de uma entidade dos infernos autodenominada “O Homem de Plasma”. O documento comprova. Ei-lo:

MÉTODO PROPEDÊUTICO DE RETRO-DESENVOLVIMENTO URBÂNICO
A/C Leviatã. A ser aplicado integralmente e com presteza no Médio Sertão da Paraíba.

1. Os governantes, eleitos ou não, devem diariamente repetir a seguinte oração matinal, senão em voz alta, ao menos com a voz interior: “Ó Energia Universal, Não-Renovável, Não-Fóssil, mas de Altíssimo Desempenho, insuflai em nossas mentes a constante disposição de trazer o desenvolvimento à nossa cidade de [dizer o nome], a fim de transformá-la numa cidade tipicamente contemporânea, com todas as bênçãos da produção cada vez maior para um consumo cada vez maior, do tamanho cada vez maior e da fluidez cada vez maior do Progresso que tanto caracterizam aquelas que são por ti agraciadas. Que haja em nossas ruas muitos carros e caminhões, em nossas casas muitas TV’s, em nosso comércio muitos quitutes importados, em nossas festas muitos paredões de som e em nossas igrejas muitos dízimos.” Terminar a oração com o propósito de inovar com Progresso em pelo menos uma decisão do dia (por exemplo, permitir e se for o caso incentivar a eliminação de entidades antiquadas tais como cinematógrafos em ruas-do-prado).

2. Promova-se com afinco missionário em todos os meios de comunicação possíveis o já latente desejo da população de que a cidade cresça e se modernize, dando-lhes a satisfação de participar da construção de um lugar desenvolvido, semelhante aos grandes e benditos centros urbanos mundiais e em nada parecido com aquelas miseráveis identificações regionalescas. Não se deve permitir divergências aos comportamentos-padrão. Esse povo só dará sinais de desenvolvimento quando for unânime em louvar o modelo novaiorquino ou londrino e ridicularizar qualquer manifestação de identidade com a pobreza nordestina. É urgente que as meninas imitem Paris Hilton ou qualquer integrante do BBB.

3. Elimine urgentemente as árvores que, por si mesmas e pela quantidade indecente de pássaros que abrigam, sujam as ruas e impedem o livre trânsito de carros, caminhões e carretas, além de produzirem as inúteis sombras que bloqueiam a ação benéfica sobre a pele e o cérebro daquele manso sol sertanejo do meio-dia. Uma rua só será realmente símbolo de desenvolvimento se estiver completamente livre de árvores e arbustos, cuja presença causa vômitos ao Progresso. No entanto, para valorizar a memória dessas espécies e a globalização ecológica, plante em canteiros, em quantidade moderada, árvores que não sejam nativas e que produzam pouca sombra. Melhor ainda se elas forem produzidas em laboratório, para incentivar o progresso da ciência. Implante muitas árvores de plástico: são verdes, não necessitam de monitoramento e nem gastam muitos recursos.

4. Retire imediatamente todos os moradores da zona rural e encha sua cidade de alegres periferias. Os sítios devem ficar absolutamente vazios.

5. Não permita o crescimento de elementos estranhos ao progresso do comércio, como feiras livres ou pequenos comerciantes. O Progresso precisa de lugares arejados, impessoais e organizados para sobreviver. Comportamentos de crédito por amizade, troca de produtos ou qualquer forma de tratamento pessoal no comércio devem ser urgentemente abolidos ou tratados com a indignidade das anormalidades. Priorize grandes redes de supermercados, shoppings, lojas grandiosas e agências de publicidade comercial, se possível dando-lhes incentivo fiscal e oportunidade de ganhar licitações. A fim de não causar celeuma, não elimine de imediato os pequenos comerciantes, deixe essa tarefa para o Progresso naturalmente realizar. Sua tarefa é isolá-los em lugares pouco confortáveis para o consumidor ou bani-los para localidades cada vez mais distantes do centro comercial desenvolvido. Compense a necessária ajuda de infra-estrutura para essas anomalias funcionarem com a absoluta ausência de auxílio de outra forma, seja em compras, seja em propaganda.

6. A palavra “sertanejo” passa a designar a partir de agora a música e o ambiente country. Por isso deve vir sempre acompanhada de referências auditivas e/ou imagéticas a duplas de cantores de sotaque do interior paulista, vestidos à moda Arizona anos ‘30. Em nenhuma hipótese pode-se referir a mediocridades como música armorial ou elomariana, são malignas e devem permanecer desconhecidas. Cantadores, repentistas e cordelistas devem ser negligenciados e tratados como o que são: seres cafonas e ridículos. O sertão, a caatinga e toda manifestação cultural que os tenha como referência devem ser lembrados como algo estrangeiro, feio e longínquo.

7. As escolas devem dirigir seu ensino exclusivamente para o conteúdo do Vestibular, que é cuidadosamente preparado para garantir que o Progresso ganhe força e adeptos. Caso não seja possível impedir eventos escolares que fujam a isso, promova-os de forma a parecer mais uma festa do que uma ocasião educativa, assim as pessoas não cometerão o pecado de duvidar da ordem escolar e da bênção do Vestibular.

8. Gaste os recursos necessários promovendo eventos de massa que alimentam o Progresso: movimentam o comércio, imunizam as pessoas contra essa maldição de criticar tudo – o que só traz desordem e infelicidade; louvam os méritos dos abençoados, desenvolvidos e ricos que conseguiram chegar lá e ainda promovem a verdadeira música popular, com expressões sempre cômicas e ritmos cada vez mais livres daquela parafernalha de instrumentos acústicos e de melodias. Atente-se para as bandas modernas que são as únicas propícias para ocasiões como essas. O Progresso precisa que as pessoas bebam e dancem e gritem, que os meninos não tenham medo do ridículo e que as meninas não saibam o que é isso. Um evento musical só será símbolo de desenvolvimento quando forem ouvidos vários paredões-de-som na rua e forem vistos pelo menos sessenta grupos de jovens bêbados, se possível derramando uísque na rua, como prova de abundância de recursos. Evite a todo custo financiar eventos, artistas ou iniciativas de cultura ridiculamente chamada de “local”, que só gastam recursos e podem voltar a atenção das pessoas para coisas antigas como música acústica, artesanato e outras velharias. Caso não seja possível, divulgue pouco e deixe claro que eles são a exceção pitoresca.

9. Por fim, para evitar a desordem pública mantenha-se sempre alerta contra o veneno dos recalcados que não aceitarão as mudanças. Use a linguagem que eles usarem, mesmo que pareça antiquada: diga que o meio-ambiente tem que ser protegido, que os pequenos comerciantes têm que ser valorizados e que a cultura local tem que ser promovida, mas cuide de fazer sistematicamente o contrário. Por outro lado, mantenha sempre um serviço de atendimento para essas denúncias de reacionários infelizes, orientando os atendentes a usarem as fortes expressões: “É inacreditável que isso esteja acontecendo” e “Estamos tomando as devidas providências, com urgência”. Ao desligar o telefone, os atendentes devem concluir a sua partida de Paciência.

10. Encarregue alguma primeira-dama em todas essas coisas, são fiéis ao Progresso e não costumam gastar forças pensando em muita coisa.

Com essas medidas, a cidade e seu povo serão abençoados, o Progresso os porá no rumo ao País das Maravilhas, lá onde todos descansarão dessas tarefas cansativas da vida como o pensamento, a interação, o trabalho e a arte; onde haverá autômatos fidedignos substituindo a todos, poupando todos os destinos de decisões, suores, sentimentos e relações pessoais que atrapalham o descanso eterno, vosso, nosso e dos deuses.

O Homem de Plasma
Centro Centrífugo Mundial de Retro-Desenvolvimento

2 comentários:

Alysson Amorim disse...

Que os céus tenham piedade de nós. Os profetas existem!

Lau Cariri disse...

Fiquei sabendo que esse pessoal dessa seita ganhou um camarote vip no São Turismo João desse ano.