terça-feira, 2 de agosto de 2011

Conta-se que

pela terceira vez em menos de um mês aquela senhorinha negra, de olhar profissionalmente triste, narrava, meticulosa e dramaticamente, a mesma história de luto e desamparo. Pela terceira vez ela pedia ao Dom - como era afetuosamente chamado pelas gentes de Casa Amarela e arredores - algum dinheiro que fosse, para cumprir o destino da sua pobre mãezinha a ser enterrada.

Só que dessa vez a secretária não conteve seu ímpeto de cuidado com o erário da Igreja e do bispo e muito menos conteve seu senso implacável de justiça e verdade, e declamou irritada:

- Dom Hélder, o senhor não se lembra dessa mulher, não? Não tá vendo que ela tá mentindo?! É bem a terceira ou quarta vez que ela pede dinheiro pra enterrar a mãe? Aí é demais, né não?

O Dom sorriu encabulado e generoso lhe ofereceu as costas em direção à porta com o dinheiro na mão, não sem permitir que ela escutasse:

- É demais, sim! Esse povo já não tem direito a quase nada e você ainda quer lhe tirar o direito de mentir?!

3 comentários:

Rubinho Osório disse...

O direito de mentir... sem ele, não sobrevivemos...
Terá sido D. Helder tão sábio assim? Ou sua vida-e-morte possibilitou a criação de um mito quase helênico, em sua grandiosidade???
Eu o ouvi, uma única vez, ao vivo, discursando para formandos de um curso de engenharia, em SP, nos anos de chumbo. Fiquei assombrado. Não me lembro de uma só palavra dele. Mas lembro-me bem de meu assombro...

Turuna Tântalo disse...

O bom é a gente poder passar da história para as estórias. =D E outra, a criação de um mito já é um?

Jefferson disse...

D. Helder era um mito já em vida. Como o Rubinho, estive com ele apenas uma vez, há mais de vinte anos. Nunca vi nada igual. Surpreendente, intrinsecamente bom e justo, entusiasmado como um garoto de 20 anos. Para mim, é um exemplo a nos inspirar, verdadeiro profeta.