quinta-feira, 19 de março de 2009

Primeiras impressões

Caros amigos,


Acho que foi vendo uma foto que Turuna Tântalo publicou de uma chuva lá no sertão que me senti motivado a começar estas minhas quase "Notas de inverno sobre impressões de verão". Não quis anteriormente assumir junto ao blogue o compromisso de fazer um relato de minha passagem por estas terras estanhas porque sou relaxado, eu confesso. Mas vendo a foto da chuva, isso só me encheu de saudade e me motivou a pelo menos começar. Eu ouvi a "zuada" da chuva nas telhas. Senti aquelas gotas de chuva misturadas com um pouco de barro que caem de cima. Engraçado como você se molha um pouco com elas mesmo dentro de casa.. Aqui, em terras estranhas, a chuva é o prenúncio de desgraça. Mas isso é porque aqui há mais cidade que sertão. Lembro-me que muitas vezes, lá em Patos, esperava que a chuva caísse na cidade porque queria tomar banho nas bicas da rua e queria que o calor aliviasse. E era comum que a chuva arrodeasse lá por detrás e não chegasse nem perto da cidade. Isso me deixava inconformado, muito mais do que triste. Mas eu entendo hoje que a chuva não foi feita pra se cair nas cidades. Qual o benefício imediato da chuva? Com quem ela casa perfeitamente senão com a terra, com o solo? O solo que bebe a água toda? A cidade é um ambiente impermeável (em todos os sentidos). E isso vai criando uma cultura doida, só vocês vendo.
A simples anunciação de chuva causa pavor. As pessoas se preparam naturalmente para catástrofes cotidianas relacionadas ao dilúvio. A mãe arruma a mochila, ajeita a lancheira, dá um beijo na testa do filho de nove anos e diz quando este está saindo para escola: olhe, se o ônibus parar e a água começar a subir, saia e procure um lugar alto e onde possa se agarrar. Isso na maior normalidade do mundo! Conselhos naturais assim aconteciam durante a Guerra Fria onde os pais e os professores davam treinamentos às crianças de como se portarem em caso de detonação de uma bomba atômica nas redondezas da escola. Entendem? A catásfrofe aqui é do dia-a-dia. Você sai de casa, liga logo o rádio e procura saber a previsão do tempo. "Vou evitar tais e tais ruas pra não ser ARRASTADO PELA CORRENTEZA". E simplesmente pega outro caminho e pronto! Pode ser inocência demais da minha parte (e até seja), mas como dizia uma vez meu amigo Magister Ludi, quando discutíamos esse assunto, no máximo o que nossas mães mandavam tomar cuidado era com os "cheira-cola" na rua. Ocorre que, tão logo esses eventos se tornam corriqueiros e sem saída, o que resta é uma espécie de indiferença às forças da natureza. E existe, então, uma tendência a estetizar a chuva como parte da paisagem de grandes centros urbanos, ou mesmo torná-la funcional. Todos lembram em Beijing o tanto de coisa que fizeram pra fazer chover na cidade por ocasião dos Jogos Olímpicos. Uma tentativa de cooptação da chuva para fazê-la aliviar a insuportável vida numa cidade tomada de fumaça pra todo canto. É fazer a chuva compor uma parte do aparato da urbs mesmo! Não me espanta se, daqui alguns milênios, quando uma cidade como São Paulo estiver toda drenada, sem riscos de alagamentos e coisas tais e a chuva não causar mais estragos, se não vão provocar um temporal e uma catástrofe controlada apenas como motivo estético na paisagem do ambiente.
Chuva não é pra cidade. Ela causa uma sensação boa, digamos, ainda em Patos. Mas lá já tá criando problema. Numa cidade como São Mamede, onde a chuva ignora se há realmente uma cidade ali (não é tom pejorativo, caro Turuna, de jeito nenhum!), a água cai como na foto: linda! E de noite é que é bonito mesmo! Você vai dormir num "friinho" bom enrolado num lençol branco e amanhece no outro dia com ele levemente sujo daqueles bolinhos de baro que caem das telhas. É de dizer que estou idealizando? Talvez. Ainda que a chuva traga estragos quando chove demais. Mas quando chove demais! Aqui, quinze minutos de água e a cidade vira a desgraça pior do mundo! Outra coisa que notei é que o povo daqui não toma banho na chuva. Mas também, a chuva vista dessa forma miserável, ninguém sente nem vontade! No sertão, chover é a coisa mais linda do mundo. Até expliquei pra gente daqui que lá, quando alguém olha pro céu e nele vê nuvens carregadas, a primeira coisa que se diz é que "tá bonito pra chover". Que largue o sotaque, os costumes e venha morar aqui de vez nestas terras estranhas o primeiro sujeito lá do sertão que disser que nunca olhou pro horizonte e se espantou com as imensas "torres" de nuvens que se formavam. Por isso tomar banho na chuva é um imenso prazer. Talvez se eu um dia sair pra tomar banho numa aqui, é capaz de acharem que eu fiquei doido. E sinceramente, acho que nem bica eu vou encontrar. Aqui é tudo canalizado, tudo embutido, ligado direto nas galerias - que pelo visto não dão conta. Acho que se aqui não fosse tudo desse jeito e houvesse bicas teria gente debaixo delas que dava pra absorver toda essa água (em seus espíritos) e aí sim, a chuva não causaria mais tanta perturbação... mas só espiritual.

3 comentários:

Turuna Tântalo disse...

Lau, que bom o retorno, ainda melhor, com um texto tão banhado de reverências à nossa companhia menos freqüente e mais benfazeja, a chuva. Pelo sertão ainda se diz que o sol é morador e a chuva é visita, por isso, quem sabe?, a acolhemos de forma tão alegremente efusiva: como quando a chuva ignora se há um aglomerado de casas e asfaltos, numa aldeia aconchegante, pequenina e escondida, e se derrama toda, como se as nuvens estivesse bêbadas. Quando você avistar uma torre alta, de um chumbo-amarelado profundo, por entre a fuligem da poluição, lembre-se sempre da graça que é vê-la no sertão. Abraço das saudades dos amigos de cá.

De Partes Idas disse...

"Mas isso é porque aqui há mais cidade que sertão."
Linda imagem. Adorei a sensibilidade com que suas impressões foram trabalhadas. Após esse texto,dormirei com a saudade da chuva acolhedora que marcou minha infância ( e que faz falta agora).
Abraço!

Danielly disse...

Lendo o texto faz-me relembrar os bons tempos em que morava no ceará...