quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Reviravoltas no grande sertão



Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar
Riobaldo. Grande Sertão: Veredas

Mudança de paradigma é um termo vistoso para uma idéia de, pelo menos, dois mil anos: segundo o esquecido Jesus de Nazaré, não adianta querer melhorar um pano velho com um retalho novo porque o cerzido rói o novo e, portanto, é melhor trocar logo por um pano inteiro novo.

Não é de outra coisa que se trata, na última década, no sertão da caatinga senão da confecção sorrateira e festiva de uma roupagem inteira nova para os homens e mulheres que desejam viver onde moram.

Há dez anos a alvissareira 3ª Conferência das Partes da Convenção de Combate à Desertificação - COP3 da ONU, em Recife, não provocou tanto efeito quanto o encontro paralelo da nascente Articulação do Semiárido Brasileiro – logo batizada com o gracioso apelido de ASA-Brasil – que congregava grupos interessados em subverter a postura de exílio miserável imposta aos povos do semiárido para beneficiar meia dúzia de coronéis barrigudos. No dia 26 de novembro de 1999, contrariando as expectativas do mundo piedoso com os pobres coitados sem água, gente aliada aos supostos pobres-coitados-sem-água anunciava a festiva e profética Declaração do Semiárido Brasileiro, sinal convincente de que a roupa velha já não nos servia. Os povos do semiárido e aqueles que se apaixonaram pela caatinga proclamaram a firme disposição de não só morar aqui, como quem está prestes a ir embora, mas de viver aqui; a verdade de que o nosso sonho não é se escafeder para terras alheias, que nosso destino não é migrar ou morrer de sede, que é possível viver na caatinga, resgatando e melhorando tecnologias adequadas para o calor intenso, assim como vivem os esquimós no gelo seco do Ártico, assim como vivem os indígenas nas alturas de ar rarefeito dos Andes, assim como vivem os cosmopolitas em meio ao barulho e à multidão da Grande Cidade – não se com-bate o mundo onde nos foi dado existir, se con-vive!



Silenciosamente, mas obstinadamente, abandonamos o delírio televisivo de que aqui chovesse como chove no sudeste: a gente da terra árida foi despertando para o fato de que não é exatamente água que falta, mesmo sendo inegável que a chuva não é abundante – é a ela que devemos recorrer e com ela que nos é dado viver; fomos descobrindo que a melhor forma de agradecer pela chuva é guardando o presente que ela nos dá; fomos inventando formas adequadas e eficientes de segurar a rápida água, aprendendo a utilizá-la da melhor maneira e tratando de não profaná-la – como se fosse mercadoria – mas de cuidar dela como se fosse sagrada. Pela organização e acúmulo de forças, os povos do semiárido conseguiram até o impensável projeto de fazer o governo – naturalmente a serviço de projetos poderosos, para os quais a autonomia é o pior dos princípios – destinar parte do seu dinheiro para esse projeto tão grande quanto modesto: grande pelo valor ético de possibilitar que homens e mulheres assumam em plenitude e liberdade a vida em seu lugar, e modesto porque não quer se imiscuir ao modo de vida capeta-lista (como dizia o profeta Gentileza), cujos projetos vitoriosos são feios como a competição selvagem, a destruição da natureza, a alienação e o empobrecimento de milhões de pessoas.

Em dez anos, esparramou-se pelo sertão uma linda teia de pontos brancos brilhantes, portadores de vida nova, transparente e gostosa, água doce de beber, doada pela chuva: milhares de cisternas de placas reluzentes pipocando no inverno e na seca, construídas com o suor de famílias inteiras que agora têm mais tempo para viver junto, observadas da janela por muitos caboclos trabalhadores que agora têm mais tempo de ouvir seu rádio, de cuidar do seu rebanho, de sentar contemplando o sertãozão; cercada pela molecada alegre, que agora tem tempo de brincar; cuidadas por muitas jovenzinhas tímidas que agora têm mais tempo de estudar e namorar; amadas por muitas mães chefes de família, que agora têm mais tempo de educar seus filhos e de se enfeitar para um novo amor que aponta na casa vizinha.



A água da cisterna desencadeou um processo irrefreável de transformação, e hoje outras técnicas de captação e armazenamento de água da chuva, como tanques em lajedos e barragens debaixo da terra servem para a produção. Em torno da cisterna e através da questão da água, estamos em franca destruição de um mundo e reconstrução de outro. De dez anos para cá e com o acúmulo dos anos anteriores, desafiados pela visão turvada que se torna a fabricação de um mundo novo, homens e mulheres da caatinga reacenderam de todas as formas o mundo místico e profundo do sertão, contando de novo suas estórias e tecendo com essas estórias uma história diferente, mais própria, mais livre. Reaprenderam em conjunto a valorizar sua vocação sensual de afagar e saciar a terra em seu cio de vida; de esperar ansiosamente a chuva visitante; de escapulir, com artimanhas cada vez mais ousadas, ao sol que bebe de um gole as águas inocentes.

São muitos os jovens que abandonam o desejo alienado de migrar para a cidade grande e se apaixonaram pela vida plena no sertão; são muitas as agricultoras e agricultores camponeses que resgatam e melhoram métodos de cultivo menos agressivos e mais sustentáveis, de mais cuidado e carinho com a natureza; são muitos apicultores e apicultoras, pescadores e pescadoras artesanais, artesãos e artesãs, pastores e pastoras de bodes, cabras, carneiros e ovelhas, guardiães e guardiãs das sementes dos antigos, gente que descobre e dissemina modos eficazes e responsáveis de produzir, consumir e comercializar; são outras tantas as educadoras e educadores que ensinam a geografia do lugar onde seus aprendizes vivem, e muitas as crianças que aprendem que animais silvestres são o preá, o calango e a raposa; que floresta nativa é a catingueira, o marmeleiro e a craibeira; que uma cordilheira é a cadeia da serra dos Cavalos onde subiu mês passado; que um rio é o riacho de Várzea Alegre que passa atrás da sua casa; que existe proteína na carne de bode; que jerimum, tomate e feijão sem veneno é mais saudável pra todo mundo e pra o ecossistema; que ecossistema é tudo o que está no cercado, no roçado, na lagoa, no quintal e no terreiro de casa; que cuidar do Planeta é não arrancar jurema, não brocar, plantar um pé-de-angico e selecionar o lixo.

Em dez anos, nosso novo paradigma, nosso pano novo colorido já é como uma roupa de festa, um sinal de abundância e vida no mesmo sertão que há algum tempo muitos amaldiçoavam e renegavam como lugar de miséria e morte. Ainda que seja no paradoxo da onipresença e do anonimato, estamos criando um novo semiárido assumindo o mesmo semiárido que nos foi dado, tão naturalmente como de repente assumimos um grande amor reprimido há muito tempo. As dificuldades não amenizam e às vezes o diabo mete o rabo no meio dos nossos grupos, nos nossos diálogos e nas nossas iniciativas; ainda há muitos pedaços do pano velho que insistem em tentar rasgar nossa roupa nova: desde o desânimo que assombra, passando pela concentração de terra, pela arbitrariedade das oligarquias nas pequenas cidades, pela cooptação de lideranças comunitárias, até a óbvia insuficiência de políticas públicas abrangentes.

Não importa, entretanto, o tamanho da besta-fera, nesses dez anos que se juntaram aos combates dos tempos anteriores ela foi ferida na testa e não resistirá. Estamos dispostos a vestir a roupa nova e a sermos nós mesmos como as plantas da terra sagrada do semiárido, que parecem adormecidas de mortas, mas explodem em verde na primeira chuvazinha – a força pulsante correndo solta e desembestada sertão adentro: a resistência, a invenção, gente existindo, a vida, travessia.


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Gilberto Freyre e o tapa na pantera

Essa é uma nota, a nota 73 do capítulo IV, de Casa Grande & Senzala, 50ª Edição (São Paulo: Global Editora, 2005, p. 479), do sociólogo/antropólogo/historiador pernambucano Gilberto Freyre. No corpo do texto no qual a nota é inserida (página 395), o autor trata da incorporação de objetos de culto e de prática religiosos pelos escravos no Brasil, a exemplo de ervas sagradas. Olhem bem como é um Antropólogo, mesmo dos mais (dito) conservadores, na sua pesquisa de campo:


"Entre outras, a erva conhecida no Rio de Janeiro - segundo Manuel Querino - por pungo e por macumba na Bahia; e em Alagoas por maconha. Em Pernambuco é conhecida por maconha; e também, segundo temos ouvido entre seus aficionados, por diamba ou liamba. Diz Querino que o uso de macumba foi proibido pela Câmara do Rio de Janeiro em 1830, o vendedor pagaria 20$000 de multa; o escravo que usasse seria condenado a 3 dias de cadeia. Já fumamos a macumba ou diamba. Produz realmente visões e um como cansaço suave; a impressão de quem volta cansado de um baile, mas com a música ainda nos ouvidos. Parece, entretanto, que seus efeitos variam consideravelmente de indivíduo para indivíduo. Como o seu uso se tem generalizado em Pernambuco, a polícia vem perseguindo com rigor os seus vendedores e consumidores - os quais fumam-na em cigarros, cachimbos e alguns até a ingerem em chás.

Alguns consumidores da planta, hoje cultivada em várias partes do Brasil, atribuem-lhe virtudes místicas; fuma-se ou "queima-se a planta" com certas intenções, boas ou más. Segundo Querino, o Dr. J. R. da Costa Dória atribui-lhe também qualidade afrodisíaca. Entre barcaceiros e pescadores de Alagoas e Pernambuco verificamos que é grande ainda o uso da maconha."

terça-feira, 17 de novembro de 2009

EM TRECHO ALHEI'

ATO I – O estrangeiro

Concordo, em primeiro lugar, com Karl Jaspers, afirmando aos que o indagaram por que não viajava, que podia conhecer dentro de casa tudo o que deveria ser sabido.

Não se aplica, entretanto, ao caso da minha saga na bela Curitiba, durante quatro dias.

Devido às minhas parcas experiências em capitais e à literatura nada edificante do noticiário, não nutro preferências por metrópoles, cujo único benefício – o de ter bem próximos serviços considerados essenciais para a manutenção da saúde e do bem estar – anula-se por corresponder justamente às necessidades forjadas pela própria forma de vida cosmopolita.

Na minha opinião – tola como qualquer opinião – uma cidade deve ser banal, enquanto o sertão deve ser trágico. Enquanto o sertão aprofunda a experiência mística de estar no mundo, nas relações citadinas, os homens devem se equilibrar entre a praticidade e a superficialidade, se autoapresentando como ponto de descanso e não de moradia. Curitiba modificou de forma contundente a minha hostilidade, pela sua despretensiosa banalidade. Por primeiro, subverteu as minhas expectativas mais primárias em relação a cidades grandes: ao que parece, a cidade é extremamente limpa e funciona bem; o clima, ao menos nessa primavera, não é tão gélido quanto esperava e nem são tão frias as pessoas, que quando abordadas, demonstram muita amabilidade, até com gente transparentemente beradêra e abestalhada como eu.

Na verdade, a fronteira do que se chama Paraná não diz nada além de uma localização política que, se por um lado facilita as classificações e as referências – em se poder dizer, por exemplo, curitibanos, paranaenses, nordestinos, paraibanos, franceses, etc. – por outro pode impedir de se reconhecer as singularidades fulgurantes a se destacar na paisagem humana tão espontaneamente quanto uma craibeira no mato seco da caatinga. Até porque a autonomia não está em localizar-se por fronteiras, não apenas em morar em um lugar tracejado por divisas; a singularidade, como a que encontrei, está em brotar como gente do seu canto de mundo, em viver encravado no seu território, que é, por definição, sem fronteiras, indo até onde a vista alcança. Encontrei homens e mulheres que vivem onde moram, e acreditei em Riobaldo: “o sertão está em toda parte”.

ATO II – O estado da graça

O Sul da América, território fugidio, guarda peripécias para almas que se previnem muito. A alma que eu sou se previne demais, e suas armas foram depostas.

Achar lá o meu amigo Paulo Brabo, ou melhor, ser por ele achado, foi uma experiência de saborosa subversão espiritual. Mesmo sem esperar grandes diferenças, digamos, espaço-físicas – exceto a altura do cara, um gigante perto de mim, pelo que não pude deixar de chamá-lo com respeito de Paulão – fui tragado imediatamente pela espontaneidade e pela grandiosidade que ele entrega no primeiro abraço.

Já nos encontrávamos periodicamente pelas praças e becos da internet, esse lugar inexistente. De antes da criação dos tempos, já havíamos sido destinados a uma amizade tão estreita quanto estranha, pela estranheza da distância e pela estreiteza do cinismo. No entanto – e pobre do Karl Jaspers – o aperitivo de humanidade autêntica que aprendia em casa, pelas letras do seu sáite e em nossas cartas arremessadas de vez em quando, foi sobrepujada pela sua assombrosa generosidade descalça.

O personagem que escreve brilhantemente e tem uma argúcia terna e pontiaguda, que surrupiou uma minha idéia bruta, lapidando-a até que ficasse realmente interessante, e através de quem fui me tornando amigo, se apresentou a mim como um homem simples de riso e natural, me tratando como se tivesse sido um ancestral da sua aldeia. O seu monastério luxuoso e exuberante é cercado por muitas plantas e dois anjos, Seo Purim – gente que sabe deixar um à vontade – e Dona Edite, que sabe acolher como a sombra da castanheira do seu jardim. Reaprendi com Paulão e seus anjos as vantagens de ser gente, de estar exilado, de necessitar de auxílio, de não ter o que oferecer a não ser um “muito agradecido”.

Desde a indecência de me apresentar um mar que não dava pra ver da serra esfumaçada de nuvens até a heresia de partilhar seu sanduíche com sua Coca-Cola depois da bateria do carro arriar, Paulão não deixou brecha para que eu fosse sensato e são, como devem ser os espíritos armados: andamos em Curitiba e redondezas até ele se perder, sem objetivos definidos senão o de estar conversando; falamos sobre Lost, cordel, amigos, lugares e viagens, entre outra narrativas tragicômicas, ao sabor do seu café italiano; discutimos sobre igrejas, governos, partidos e outras potestades deste mundo caduco; lamentamos poucas coisas, me alegrei com muitas. Rimos. Não precisei esconder meus defeitos. Fui gente.

Àqueles que, em casa ou no exílio, não tiverem amigos de amabilidade descarada e de gentileza desavergonhada, a estes seria melhor que amarrassem uma pedra no pescoço e se arremessassem ao mar.

sábado, 14 de novembro de 2009

Nova entrevista com o Prof. João Carlos Cabrío

Semana passada, o emérito Professor João Carlos Cabrío esteve na Unicamp para participar de um evento e aproveitou o ensejo para nos brindar com o lançamento do seu novo trabalho, um compêndio de ensaios sobre as novas produções literárias brasileiras do chamado "mercado editorial independente", intitulado Poesia, pra que te quero? (Editora da Unicamp, 2009, 458 p.)

Da última vez que estivemos em contato, ano passado, o professor Cabrío demonstrou enorme gentileza e concedeu entrevista exlusiva ao Soda Cáustica quando de sua passagem pelo Vale das Espinharas, sertão da Paraíba, cidade de Patos, por onde peregrinava colhendo material para a pesquisa que ora está disponível neste belíssimo livro recém-saído do prelo. O leitor que quiser saber como foi essa entrevista, não espere muito e leia aqui.

Estava, pois, minha pessoa dando sopa em São Paulo quando soube desse evento e decidi dar uma olhada. A curiosidade foi grande em descobrir se o nosso desbravador da literatura das brenhas teria alguma recordação da experiência em Patos. Qual! Bem-humorado, sorridente pela cerimônia de celebração de seu livro, o professor não só se lembrou como me deu a honra de entrevistá-lo outra vez! E as surpresas não param por aí. Acompanhem...

Lau Cariri: Professor, deixe-lhe dizer com que gosto converso novamente consigo.

João Carlos Cabrío: Eu me sinto muito feliz em vê-lo e surpreso também. Vocês andam me seguindo? (Risos)

LC: (Risos) Foi uma coincidência estranha, professor.

JCC: Não vejo seu amigo, ele estava na conversa da outra vez...

LC: Sim, ele está em Patos. Esperava que não se lembrasse, honestamente. Mas me diga, sr. Cabrío, este livro é resultado daquelas pesquisas?

JCC: De fato, é. Foi penoso, mas veio a lume. Mas perceba, não me esqueci jamais. Inclusive, deixe lhe mostrar que coloquei na página dos Agradecimentos o nome de vocês. Não haveria como esquecer... Patos foi extremamente importante para a consolidação das minhas teorias.

LC: (O professor me mostra a página) Obrigado, sr. Cabrío! Em nome de todos que fazemos o Soda Cáustica, eu agradeço! Quanta lisonja! Mas diga, por favor, estou ávido por entender: como foi isso da contribuição de Patos? Foi tão decisiva assim? O que o sr. encontrou lá?

JCC: Foi sim. Por duas grandes razões. A princípio eu poderia dizer que Patos me ensinou que o empenho em analisar a adoção de políticas descentralizadoras facilita a criação do retorno esperado a longo prazo. Isso é salutar para compreender que o cuidado em identificar pontos críticos no acompanhamento das preferências de consumo faz parte de um processo de gerenciamento das posturas dos órgãos dirigentes com relação às suas atribuições. Do lado oposto, mas contribuindo também para a compreensão do problema, é que a consolidação das estruturas estimula a padronização das diretrizes de desenvolvimento para o futuro. Esses fatores foram cabais, modificaram meu modo de lidar na minha pesquisa com a literatura menor como um todo. E eles se encontram lá mesmo, em Patos.

LC: Pelo que entendi, professor, houve um avanço entre as produções no mercado editorial patoense que marca definitivamente essa padronização. Foi isso?

JCC: Perfeitamente, mas não apenas. Eu descobri que, evidentemente, a determinação clara de objetivos promove a alavancagem dos níveis de motivação departamental neste setor.

LC: Ano passado, conversamos detidamente sobre os escritores Wandecy Medeiros, Misael Nóbrega e José Mota Victor. Hoje, tendo o trabalho completo, como ficou sua visão do papel destas obras no contexto da sua pesquisa?

JCC: Acredito que muito desde então se modificou... da outra vez, fui muito severo com o sr. Misael Nóbrega. Lendo melhor seus textos, compreendi que podemos já vislumbrar o modo pelo qual a crescente influência da mídia talvez venha a ressaltar a relatividade do levantamento das variáveis envolvidas. Veja que eu disse talvez, porque afinal, não adianta que a valorização de fatores e subjetivos estimule a padronização das diversas correntes de pensamento se não houver, como contrapartida, o aumento do diálogo entre os diferentes setores produtivos que sempre promove a alavancagem do fluxo de informações. Mas acredito que sua poesia e sua prosa caminhem para importantes posições no estabelecimento das condições inegavelmente apropriadas.

LC: O senhor continua adepto da metodologia bakhtiniana de observação desses fenômenos?

JCC: Boa pergunta. Eu diria que sim e que não. Por exemplo, percebi que, no caso da obra de Wandecy Medeiros, Bakhtin possui limitações claras no auxílio às minhas análises. Wandecy, por apresentar todas as questões poéticas devidamente ponderadas, ele me levanta dúvidas sobre se a crescente influência da mídia representa uma abertura para a melhoria dos relacionamentos verticais entre as hierarquias. Eis o limite de Bakhtin que muitos estudiosos ignoram! Aqui, suas teorias são inválidas para ler as categorias wandecynianas. Nunca é demais lembrar o peso e o significado destes problemas, uma vez que o novo modelo estrutural aqui preconizado pode nos levar a considerar a reestruturação dos modos de operação convencionais. E por isso mesmo eu sigo afirmando o caráter revolucionário da poesia de Wandecy.

LC: Professor, isso é uma guinada significativa em relação à nossa última conversa, não posso deixar de observar. O senhor teve contato com o livro mais novo de Wandecy Medeiros, Mascando Arame Farpado? Se sim, como o enxerga dentro do plano geral da obra do poeta?

JCC: Sim, foi uma guinada, embora eu não abandonei o fato de achá-lo revolucionário. A diferença é que antes a certificação de metodologias que nos auxiliaram a lidar com o aumento do diálogo entre os diferentes setores artísticos era uma das consequências dos procedimentos normalmente adotados. E isto estava errado... ou melhor, incompleto! E, de fato, o contato com o seu novo livro, como você bem lembrou, foi decisivo para entender que minhas teorias engessavam a complexidade da poesia de Wandecy Medeiros. Desta maneira, vi que a determinação clara de objetivos exige a precisão e a definição das condições inegavelmente apropriadas. Foi partindo desse princípio que li o Mascando Arame Farpado, que, para mim, demarca um novo locus nas obras dele, já que o entendimento das metas propostas ressalta a relatividade do sistema de formação de quadros que corresponde às necessidades da expressão poética. Isso foi extremamente novo para mim, devo confessar.

LC: Mas me tire essa curiosidade, professor: onde, então, o sr. permanece fiel a Bakhtin?

JCC: Ora, justamente onde ele aponta que a certificação de metodologias que nos auxiliam a lidar com o aumento do diálogo entre os diferentes setores produtivos é uma das consequências dos procedimentos normalmente adotados pelos escritores. Não resta dúvida. O que eu vejo é que, ainda assim, existem dúvidas a respeito de como a adoção de políticas descentralizadoras causa impacto indireto na reavaliação dos paradigmas corporativos. Mas acredito que isso seja uma questão de tempo de resolver esse impasse teórico.

LC: Professor, faça justiça e comente também sobre sua crítia a José Mota Victor. Não o esqueça, por favor.

JCC: Mas se justamente era aí que eu daria um exemplo de minha fidelidade a Bakhtin... (risos). Percebo que José Mota fornece ainda elementos capazes de fixar a certificação de metodologias que nos auxiliam a lidar com o julgamento imparcial das eventualidades para agregar valor ao estabelecimento das direções preferenciais no sentido do progresso. Aprendi a dar importância a esse aspecto através do pensamento do linguista russo, de quem sou devedor. Mas não deixo de acrescentar o perigo que o teatro de José Mota Víctor corre pois a constante divulgação das informações deve passar por modificações independentemente das regras de conduta normativas, e o texto dramático passou por enormes modificações que precisam ser constantemente revistas pelos autores, inclusive José Mota. Dos três sobre os quais conversamos, ele é o mais volátil. Lembro que sustentei a tese da diferença entre José Mota e Misael Nóbrega naquela época do início da pesquisa. E hoje vejo que estava certo desde sempre. Mas eu confesso que em matéria de teatro, onde José Mota se caracteriza, sou ignorante no assunto. A revolução dos costumes acarreta um processo de reformulação e modernização do processo de comunicação como um todo no teatro e felizmente a poesia ou a prosa não se limitam apenas a isso.

LC: Professor, mais uma vez agradecemos pelas suas esclarecedoras palavras. Esperamos que, como da outra vez, elas forneçam cada vez mais ajuda aos estudiosos da Literatura em Patos. Para fechar, pode nos dizer palavras gerais sobre o seu livro, já que ele estuda inúmeros outros escritores em diversas localidades?

JCC: Sim, é verdade. A pesquisa é abrangente. Olha, acima de tudo, o que busquei dizer foi que é fundamental ressaltar que a mobilidade dos capitais internacionais obstaculiza a apreciação da importância das posturas dos órgãos dirigentes com relação às suas atribuições. Mas que todavia os escritores resistem e continuam a criar. Tentei mostrar isso em diversos níveis. Penso que minha modesta contribuição aos estudos de Literatura reside aí.

LC: Obrigado, professor João Carlos Cabrío. Boa sorte com seu livro.

JCC: Fico feliz em colaborar pela segunda vez com vocês.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Divulgando

Amigos,


Em matéria de preocupação com os gastos públicos, as oposições no Estado de São Paulo estão muito bem aparelhadas. O saite do economista (achei legal ele mesmo escever com "e" minúsculo) Eduardo Marques, que é ligado à Liderança do PT na Assembléia Legislativa, traz uma contribuição àqueles que desejam entender o funcionamento dos gastos públicos do Estado, através de textos bem acessíveis. Eu recomendo (que já foi recomendação da minha adorada amiga Sueli) a todos, mesmo. Acrescento ainda, já que estamos a falar de dinheiro, que não custa nada observar como andam investindo o dinheiro do contribuinte. A Paraíba tem meios que disponibilizam online seus gastos, o uso dos seus e dos meus impostos. Seja pelo sistema do Sagres online, do Tribunal de Contas do Estado, seja pela publicação do Diário Oficial da Paraíba. Eu garanto que, depois de uma certa insistência, o negócio se torna divertido. Já acessei muitas vezes o Sagres. Dá pra saber um monte coisa.

Vocês não tão interessados em ver, não?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Ninguém volta ao que acabou...

Um fulgor rápido de mórbida lucidez me lembrou hoje um samba dos antigos.

Preparando-me para sair ao trabalho ouvia desinteressadamente o noticiário de uma famigerada rádio, minha penitência diária. Fazendo jus à qualidade nada graciosa dos comentários e seus comentaristas, um jovem repórter informava sobre as condições do tráfego na Cidade do Caos quando pincelou de leve, especialmente para os ouvintes desatentos, alguma filosofia absurda da condição humana nesta terra. Dizia ele (algo bem próximo disso):

“Alguém tentou suicídio hoje pela manhã bem cedo na Rodovia Fulano-de-Tal, provocando congestionamento e atrapalhando o trânsito em todo o trecho...”

Vi, repentinamente, em todas as casas que tinham o rádio ligado, as pessoas que tomavam café, os maridos penteando o pouco cabelo, a jovenzinha que calçava o tênis, a empregada raspando uma sujeirinha no balcão, o senhor que limpava os óculos ao pé da janela, todos inertes pela revelação que nos colocou no mesmo átrio, da mesma igreja, ao pé do mesmo púlpito decadente com um velho maltrapilho e sua mochila esfarrapada. O jovem jornalista, talvez sem se dar conta, ou quem sabe despretensiosamente preparado para fingir isso, apregoou a nossos ouvidos ensurdecidos a profecia impiedosa que nunca se apresenta em seu rosto terrível.

Havia aquela mulher encharcada, com detritos do rio ainda presos à roupa, com olhar de vira-lata abandonado, rejeitando o consolo obrigatório do policial generoso, amaldiçoando a proteção e o carinho dos bombeiros que a humilhavam diante da multidão piedosa e curiosa que se agigantava e não se acabava mais da sua vista.

Meia hora antes, na barranceira asfaltada do rio sujo, estava de cabelos mal arrumados, com as mãos trêmulas e uma resolução dolorida a lhe ribombar o peito. Lembrara-se de um filho jovem no trabalho, e pedia aos deuses que mais do que um emprego digno ou uma namorada decente, lhe fosse dada uma razão plausível de aceitar viver, um motivo sóbrio e anônimo como ela mesma não pôde sustentar em si. Ela, que havia amado um rapaz em sua juventude e se acostumara com os prazeres pequenos de um casamento morno, cuja única traição lembrada foi a de ter permitido que ele pedisse o divórcio antes dela; ela, que cedo havia decidido manter alguma fonte de renda autônoma paralela a um emprego público, porque com dois salários não dava pra manter as boas notícias para a família; ela, somente ela havia vislumbrado por um instante, naquela noite de sábado, sem dormir, a luz de um vazio no fim de tudo, a impossibilidade de achar a plenitude, nem que fosse a plenitude de não mais precisar do cartão de crédito, nem do telefone celular, nem do ônibus lotado de ninguéns. Lembrou-se da amiga de infância, da escola e da mesma rua, que nunca mais havia visto, e se deu conta de que mesmo que tivesse visto não seria um encontro de amigas de infância, da escola e da mesma rua, porque seriam estórias desencontradas e lembranças fabricadas com sorrisos mal oferecidos e breves. A história é um amontoado desarrumado de estórias cuja verdade não está tanto em haver realmente ocorrido – o que não se pode saber, enfim – mas em sentirmos delas saudades e em termos sido nós a tê-las vivido.

Aquela mulher desencontrara-se do que nela via, amava ou chamava qualquer coisa, quando foi apresentada à indefinição da razão pela qual permanecemos vivos e falando. Aquela mulher encontrara mesmo o fundo vazio e luminoso da existência, aonde ela não poderia chegar, amarrada que estava no emaranhado confuso que havia tecido: a vida que se borda com Alheia linha e desconhecida Agulha. Olhando de perto o desenho claro de cores nítidas que chamamos de “eu”, dá pra ver que a única solidez que há é a da Linha alheia, com a qual aquele desenho claro nada mais é do que o rastro da agulha Desconhecida que amou em nós o desenho que sabemos ser. Olhando de perto, não se vê o desenho da vida. Olhando de perto, minha vida é outra. E só é minha quando dela mantenho distância.

Aquela mulher de pernas bambas, de garganta seca, de faces pálidas era uma esponja encharcada que fora espremida violentamente esvaindo-se com a água que não era: sentiu do centro de seu peito se desprender um jato de qualquer substância muito interior e se espalhar em volta das costelas apertando a espinha, subindo pelos altos ombros e pelas pernas e escorrendo pelas pontas dos pés e até os dedos das mãos, fugindo sem escapar através dos pêlos eriçados a humanidade com a qual se reconhecia gente. Como uma esponja outrora encharcada, agora espremida num aperto de gentes e carros e motos, foi atirada por si mesma, seus braços eram asas...

E os ouvintes e os caminhantes e os condutores de veículos, todos imersos ignorantes no oceano escuro da cidade gigante, por um instante souberam que somente eram parafusos, pregos, porcas e roldanas no aparelho monstruoso que é uma sociedade civilizada. A civilização avançada não conhece outra sensibilidade senão a de reproduzir-se. A nossa crença comum se baseia na suposição de que por mais que imaginemos e ansiemos é mesmo impossível proceder de outras maneiras, tomar outras atitudes, cessar a obsessiva escravidão. A nossa condição globalizada têm sido existirmos onde não vivemos, deslocar o valor da nossa vida para um lugar adiante, invisível, que a todos solicita procedimentos diários típicos de quem não enxerga, não cheira nem sente o que se nos passa bem próximo e a todos dá a reconfortante ilusão de serem indivíduos singulares, e de poderem dessa maneira atender da maneira como bem entendenderem à demanda universal de sucesso. Viver hoje tem exigido sacrificar todas as sensações com a qual nossa alma é também espírito e tudo o que em nós nos conecta ao nosso redor, a fim de atender às solicitações de algo tão poderoso quanto impessoal, ao qual emprestamos nossa fala, nossa opinião e nossos desejos superficiais e ao que temos atribuído uma vida mais vívida do que a nossa. A civilização globalizada e sua multidão de microfones, câmeras e radares, desconhecem o que se passa por entre as veias e os nervos de quem ficou de fora do sucesso, de quem não pôde se adaptar às suas demandas histéricas e nem pôde abandonar esse mundo. Essa é a verdade que está na relação entre o olhar ressabiado de uma senhora de meia idade, oprimida tanto pela própria vida quanto pelo fracasso em tentar pôr termo na sua tortura auto-infligida, e a confissão coletiva do desatento locutor jovem encantado com a profissão de noticiar o Brasil sobre o êxito de milhares de carros, ameaçado pela infelicidade de uma pessoa.

A condição humana nesta terra, que o profeta ingênuo do rádio elucidou, não é tanto a fragilidade do motivo de viver quando confiamos no que nos oferece somente a nossa visão perturbada por pensamentos ensinados e por desejos permitidos; a verdade daquele sermão despretensioso é que temos vivido em completa atopia, alugando nossos corpos para a reprodução de relações que não sentimos como inteiramente nossas, que existem talvez num lugar que não imaginamos e que não nos temos engajado em descobrir.

Acostumados a assobiar ou cantarolar distraídos “morreu na contramão atrapalhando o tráfego...”, de repente somos atacados por algo que, antes de demonstrar friamente a nossa impotência diante das forças temíveis da civilização, nos elucida a indiferença soberba ao fato de sermos realmente impotentes.

Todos adoecemos, suicidas ou esperançosos, dementes ou lúcidos, em todos dói-nos uma dor indefinida, como uma antiga, linda e triste música que dentro da mente ainda toca embora não se defina sua melodia. E “a dor da gente não sai no jornal”...

sábado, 17 de outubro de 2009

De um banheiro do IEL

Alguém escreveu:

"A vida é uma gambiarra..."

Ao que eu completo aqui:

"...com um bico de luz aceso perdido em algum lugar".