terça-feira, 21 de abril de 2009

O jogador

No poker, aquele que mais arrisca geralmente é o que mais ganha. É o que mais pode perder também. Mas esse sujeito, depois de muitas rodadas, alcança uma quantidade de fichas e é exatamente ele quem dita o nível e o preço das apostas, se ele for destemido sempre. Prestem atenção que é assim mesmo. Sua missão no jogo é forçar todos a seguir o seu ritmo. Se ele ganha no fim, foi por boa sorte, talvez. Caso a sorte fosse má, perderia do mesmo jeito. Mas o que dá a ele a vantagem de quase sempre ganhar é que nem todos podem apostar com o mesmo nível de desprendimento que ele tem, pois possui mais fichas que os outros. Ele ganha antes mesmo de terem sido viradas todas as cartas na mesa. Ganha em cima do receio dos outros, pois quando são mostradas as últimas cartas, sempre haverá alguém que diz "eu deveria ter apostado". Mas eu torno a dizer: ele precisa ser destemido até o fim. Se alguém segue sua aposta, ele, mesmo vendo que sua mão é muito ruim, precisa elevar a aposta outra vez. A confiança que a mesa tem nele não pode ser abalada. Esse jogador, no fim das contas, quer ser superado, quer encontrar um apostador como ele. A missão é desafiar os outros para que o alcancem. Se ele ganha tudo, ela foi inglória.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

É MAIOR FELICIDADE NÃO ENCONTRAR

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João Sebastião Ribeiro, vulgo Bach. Oester Oratorio (Oratório de Páscoa). I. Sinfonia.

"Notou Santo Agostinho uma coisa digna do seu entendimento, que hoje sucedeu a S. Pedro: quando a Madalena esta manhã não achou o corpo do Senhor, que buscava na sepultura, veio a toda a diligência dar conta a S. Pedro, o qual, não andando, senão correndo, foi logo a certificar-se e ver por seus olhos se era assim o que ouvia. E qual vos parece que seria o desejo que S. Pedro levava no coração? Santo Agostinho o diz: Ad sepuchrum celeri cursu festinat, laetior rediturus, si non inveniret quem quaerebat: Corria S. Pedro ao sepulcro, não com desejo de achar, senão de não achar, e para tornar da jornada muito mais alegre, se não achasse o que buscava. – Assim se alegra quem olha para as coisas com são juízo e quem entende – como S. Pedro entendia – que há casos em que a felicidade consiste, não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar. "


Pe. Antônio Vieira. Sermão da Primeira Oitava da Páscoa (1656).

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A ACUSAÇÃO ( I )

As liturgias da Paixão do Senhor se tornaram o que há de mais degradante para o humano. Tudo o que é mais vil e baixo, toda a mesquinhez de espírito do cristão contemporâneo são ali encenadas. Uma mudez estúpida, diferente do nobre silêncio místico, e uma expectativa de pieguice, diferente da compaixão dolorida de quem sente em si a dor da vida, transbordam nos sentidos de quem se depara com essa afronta à bravura dos grandes. Muitos têm olhos e ouvidos ávidos por relatos de sofrimentos e crueldades por ali poderem também se ver a si próprios vítimas das cruezas da vida, por ali poderem eles também ser chorados por toda gente. Por não conseguirem se impor, com a devida e misteriosa combinação de humildade e altivez, ao acaso da tragédia ininterrupta que é a vida, querem que haja pena e dó por toda parte. As dores que lamentam não são as dores do Cristo, mas as que desejam ter, ou melhor, as que desejam que todos vejam que têm, para que todos tenham dó e para que todos chorem. À narração das torturas dos açoites, da maldade dos algozes e do desespero da Mater Dolorosa, todos vertem lágrimas penosas, como se todos os dias não vissem ou ouvissem falar das chagas de todos os torturados silenciosamente pelas injustiças deste mundo pauperizado e destruído, como se aquelas, que são suas, fossem as únicas dores dignas de serem choradas.
Se bem que, bem pode ser que chorem os que choram por causa diversa, a de não conseguirem viver, durante o ano em que esqueceram, como deve ser, o caso agora lamentado, conforme a boa novidade daquele que foi, por isso mesmo, tragicamente despedaçado. Pode ser que obedeçam o "não chorem por mim, mas por vocês e pelo seu próprio futuro".
Deve ser que meus olhos estejam ansiosos por acusar alguma alheia vileza (que também sou vil, mas admitindo-o, sou diferente), mas procuro alguém dos que ali freqüentam – e espero que haja – que manifeste a altivez de quem rejeita a piedade e a coragem de quem suporta a dor sem pieguice; alguém que admita sua própria cruz e dela não tenha vergonha. E, o mais agudo, alguém que assuma que a morte de Jesus foi conseqüência de uma vida – pequena – toda de vôos livres por sobre a escravidão do seu tempo, uma vida toda dedicada a desafiar a pequenez e a rudeza dos que se diziam grandes e a possibilitar e dar visibilidade à grandeza e à nobreza dos que eram considerados rudes e pequenos. Uma vida rasgada, como sua carne na cruz, abundante e transbordada até para os que a destruíram. Procurando alguém assim, quem sabe eu me safe do fato sabido de que o Crucificado me atormenta, a mim e a muitos, ordenando-me a viver como ele viveu...