Hoje, 22 de dezembro, fomos levados à força à praça de armas do regimento Semeónovski. Ali foi lida para todos nós a sentença de morte, deram-nos a cruz para beijar... e prepararam nossos trajes para a morte (camisões brancos). Em seguida, prenderam três aos postes para a execução da sentença. Chamavam de três em três, portanto eu estava ma segunda fila e não me restava mais de um minuto de vida. Eu me lembrei de ti, meu irmão, de todos nós três; no último minuto tu, só tu estavas em minha mente, e só então fiquei sabendo como te amo, meu irmão querido! Tive tempo de abraçar também Pleschêiev, Dúrov, que estavam ao lado, e despedir-me deles. Por fim bateu o sinal, fizeram voltar os que estavam presos aos postes, e leram para nós que sua majestade imperial nos dava a vida. Depois as verdadeiras sentenças tiveram prosseguimento...
Irmão! Não me abati e nem caí em desânimo. A vida é vida em qualquer lugar, a vida em nós mesmos e não fora. Ao meu lado haverá pessoas, e ser homem entre elas e assim permanecer para sempre, quaisquer que sejam os infortúnios, sem perder a coragem nem cair em desânimo - eis em que consiste a vida, em que consiste o seu objetivo. Eu estava consciente disso. Essa idéia arraigou-se em mim. Sim! É verdade! Aquela cabeça que criava, que vivia a vida suprema da arte, que era consciente e habituara-se às demandas superiores do espírito, aquela cabeça já havia sido cortada do meu pescoço. Restaram a memória e as imagens criadas e ainda não concretizadas por mim. Elas haverão de me ulcerar, é verdade! Mas em mim restaram o coração e aqueles sangue e carne que podem amar, e sofrer, e compadecer-se, e lembrar-se, e isso é vida apesar de tudo. On voit le soleil [Há sol, em francês). Bem, irmão, adeus! Não te aflijas por mim!... Nunca na vida reservas tão abundantes e sadias de vida espiritual haviam fervido em miom como neste momento. Mas se o corpo vai agüentar eu não sei...
Meu Deus! Quantas imagens, sobreviventes, criadas por mim irão morrer, irão apagar-se em minha cabeça ou derramar-se em meu sangue como veneno! É, se não puder escrever eu vou morrer... Em minha alma não há fel nem raiva, gostaria de amar muito e abraçar ao menos alguma das pessoas de antes neste momento. Isso é um deleite, eu o experimentei hoje ao me despedir dos meus entes queridos perante a morte... Quando olho para o passado e compreendo quanto tempo perdi com equívocos, com erros, na ociosidade, na inabilidade para viver, como deixei de apreciá-lo, quantas vezes pequei contra meu coração e minha alma, meu coração se põe a sangrar. A vida é uma dádiva, a vida é uma felicidade, cada minuto poderia ser uma eternidade de felicidade.
Dostoiévski, Fiódor. O Idiota. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2002 (p. 12-14).
Dostoiévski foi condenado à morte acusado de conspiração contra o tsar. Esta carta foi escrita ao irmão Mikhail ainda no mesmo dia da execução. Como se soube depois, era tudo uma armação para que se tivesse a impressão da bondade do imperador. Dostoiévski terminou cumprindo uma pena de quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria (donde resultou no seu romance A casa dos mortos - ou em traduções mais antigas, Recordações da casa dos mortos). Quando escreveu O Idiota, já sabia do tal embuste. E este tom delirante da carta ao irmão está nas falas do próprio príncipe Míchkin quando palestra sobre a condenação, ele, que disse ter assistido a uma execução na França e conta à generala Lisavieta Prokófievna e suas filhas como um homem, que tendo vivido toda a agonia de uma sentença de morte, prometeu no momento final que se tivesse mais alguns instantes de vida, se tivesse outra vida, se a vida não acabasse depois daquilo, se a vida recomeçasse, viveria tudo de novo e com mais intensidade; e no entanto, teve a pena comutada, ficou livre e não cumpriu com sua promessa. Vários de seus personagens falam nesse minuto supremo que justificaria toda uma existência. A verdade é que depois daquele dia na praça, diante do pelotão de fuzilamento, Dostoiévski realmente nunca mais foi o mesmo.
Afinal, escrever ou ler um
romance são ações insólitas. Construir uma história através de um novo arranjo
de fatos verdadeiros não tem nada de inevitável nem de necessário. Se até mesmo
a explicação banal – pelo prazer do criador e do leitor – fosse verdadeira,
deveríamos nos perguntar qual necessidade faz a maior parte dos homens sentir
prazer e se interessar por histórias inventadas. A crítica revolucionária condena
o romance puro como a evasão de uma mente ociosa. Por sua vez, a linguagem
comum chama de “romanescas” o relato mentiroso do jornalista inábil. Há alguns
lustros era comum dizer, inaceitavelmente, que as moças eram “romances”.
Entendia-se com isso que essas criaturas ideais não levavam em conta a
realidade da existência. De modo geral, sempre se considerou que o romanesco se
separava da vida, e que a embelezava ao mesmo tempo que a traía. A maneira mais
simples e banal de encarar a expressão romanesca consiste portanto em ver nisso
um exercício de evasão. O senso-comum une-se à crítica revolucionária.
Mas do que se procura fugir pelo
romance? De uma realidade julgada por demais esmagadora? As pessoas felizes
também lêem romances, e é um fato constatado que o extremo sofrimento tira o
gosto pela leitura. Por outro lado, o universo romanesco tem certamente menos
peso e presença do que este outro universo, onde seres de carne e osso nos
assediam sem parar. Por que mistério, entretanto, Adolphe nos parece um
personagem bem mais familiar que Benjamin Constant, e o conde Mosca que nossos
moralistas profissionais? Balzac concluiu um dia uma longa conversa sobre a
política e o destino do mundo, dizendo: “E, agora, falemos de coisas sérias”,
referindo-se a seus romances. O gosto pela evasão não basta para explicar a
gravidade indiscutível do mundo romanesco, nossa obstinação em levar realmente
a sério os incontáveis mitos que o gênio romanesco nos propõe há dois séculos.
A atividade romanesca supõe certamente uma espécie de recusa do real, mas esta
recusa não é uma simples fuga. Deve-se ver nisso o movimento de retirada da
bela alma que, segundo Hegel, cria para si própria, em sua ilusão, um mundo
fictício em que só a moral reina? O romance edificante, contudo, acha-se
bastante longe da grande literatura; e o melhor dos romances água-com-açúcar, Paulo e Virgínia, obra na verdade
angustiante, nada oferece a título de consolo.
A contradição é a seguinte: o
homem recusa o mundo como ele é, sem desejar fugir dele. Na verdade, os homens
agarram-se ao mundo e, em sua imensa maioria, não querem deixá-lo. Longe de
desejar realmente esquecê-lo, eles sofrem, ao contrário, por não possuí-lo
suficientemente, estranhos cidadãos do mundo, exilados em sua própria pátria. A
não ser nos instantes fulgurantes da plenitude, toda realidade é para eles
incompleta. Seus atos lhes escapam sob a forma de outros atos, voltam para
julgá-los sob aspectos inesperados e correm, como a água de Tântalo, para uma
embocadura ainda desconhecida. Conhecer a embocadura, dominar o curso do rio,
entender enfim a vida como destino, eis sua verdadeira nostalgia, no mais
profundo de sua pátria. Mas essa visão que, pelo menos no conhecimento, os
reconciliaria enfim consigo mesmos, só pode aparecer, se é que aparece, no
momento fugaz da morte, em que tudo se consuma. Para existir no mundo, por uma
vez, é preciso nunca mais existir.
Nasce aqui essa desgraçada inveja
que tantos homens sentem da vida dos outros. Olhadas de fora, emprestam-se a
essas existências uma coerência e uma unidade que elas estão longe de ter, mas
que parecem evidentes ao observador. Ele só vê o contorno dessas vidas, sem
tomar consciência dos detalhes que as corroem. Então, dotamos de arte tais
existências. De maneira elementar, nós as romanceamos. Neste sentido, cada qual
procura fazer de sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor dure e sabemos
que ele não dura; se até mesmo, por milagre, ele tivesse que durar toda uma
vida, estaria ainda incompleto. Talvez, nesta insaciável necessidade de durar,
compreenderíamos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece
que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que
com o fato de ele não durar. Na falta de uma felicidade inesgotável, um longo
sofrimento constituiria ao menos um destino. Mas não é assim, e nossas piores
torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma
irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o
sofrimento não tem mais sentido que a felicidade.
O desejo de posse não é mais que
uma outra forma do desejo de durar; é ele que constitui o delírio impotente do
amor. Nenhum ser, nem mesmo o mais amado, e que nos ama com maior paixão,
jamais fica em nosso poder. Na terra cruel em que os amantes às vezes morrem
separados e nascem sempre divididos, a posse total de um ser, a comunhão
absoluta por toda uma vida é uma exigência impossível. O desejo de posse é a
tal ponto insaciável que ele pode sobreviver ao próprio amor. Amar, então, é
esterilizar a pessoa amada. O vergonhoso sofrimento do amante, a partir de
agora solitário, não é tanto de não ser mais amado, mas de saber que o outro
pode e deve amar ainda. Em última instância, todo homem devorado pelo desejo
alucinado de durar e de possuir deseja aos seres que amou a esterilidade ou a
morte. Esta é a verdadeira revolta. Aqueles que não exigiram, pelo menos uma
vez, a virgindade absoluta dos seres e do mundo, que não tremeram de nostalgia
e de impotência diante de sua impossibilidade, aqueles que, então,
perpetuamente remetidos a sua nostalgia pelo absoluto, não se destruíram ao
tentar amar pela metade, não podem compreender a realidade da revolta e seu
furor de destruição. Mas os seres escapam sempre e nós lhes escapamos também;
eles não têm contornos bem-delineados. A vida, deste ponto de vista, é sem
estilo. Ela não é senão um movimento em busca de sua forma sem nunca
encontrá-la. O homem, assim dilacerado, persegue em vão essa forma que lhe
daria os limites entre os quais ele seria soberano. Que uma única coisa viva
tenha sua forma neste mundo, ele estará reconciliado!
Não há, enfim, quem quer que, a
partir de um nível elementar de consciência, não se esgote buscando as fórmulas
ou as atitudes que dariam à sua existência a unidade que lhes falta. Parecer ou
fazer, o dândi ou o revolucionário exigem a unidade, para existir, e para
existir neste mundo. Como nesses patéticos e miseráveis relacionamentos que
sobrevivem às vezes por muito tempo, porque um dos parceiros espera encontrar a
palavra, o gesto ou a situação que farão de sua aventura uma história
terminada, e formulada, no tom certo, cada um cria para si e se propõe a última
palavra. Não basta viver; é preciso um destino, e sem esperar pela morte. É
justo portanto dizer que o homem tem a idéia de um mundo melhor do que este.
Mas melhor não quer dizer diferente, melhor quer dizer unificado. Esta paixão
que ergue o coração acima do mundo disperso, do qual no entanto não pode se
desprender, é a paixão pela unidade. Ela não desemboca numa evasão medíocre,
mas na reivindicação mais obstinada. Religião ou crime, todo esforço humano
obedece, finalmente, a esse desejo irracional e pretende dar à vida a forma que
ela não tem. O mesmo movimento, que pode levar à adoração do céu ou à
destruição do homem, conduz da mesma forma à criação romanesca, que dele
recebe, então, sua seriedade.
Que é o romance, com efeito,
senão esse universo em que a ação encontra sua forma, em que as palavras finais
são pronunciadas, os seres entregues aos seres, em que a vida passa a ter a
cara do destino?[1] O
mundo romanesco não é mais que a correção deste nosso mundo, segundo o destino
profundo do homem. Pois trata-se efetivamente do mesmo mundo. O sofrimento é o
mesmo, a mentira e o amor, os mesmos. Os heróis falam a nossa linguagem, têm as
nossas fraquezas e as nossas forças. Seu universo não é mais belo nem mais
edificante que o nosso. Mas eles, pelo menos, perseguem até o fim o seu
destino, e nunca houve heróis tão perturbadores quanto os que chegaram aos
extremos de sua paixão, Kirilov e Stavroguin, Mme Graslin, Julien Sorel ou o
príncipe de Clèves. É aqui que perdemos sua medida, pois eles terminam aquilo
que nós nunca consumamos.
(…)
Camus, Albert. O homem revoltado. Trad. Valerie
Rumjanek. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. P. 298-302.
[1]
Ainda quando o romance só exprima a nostalgia, o desespero, o inacabado, não
deixa de criar, a forma e a salvação. Dar nome ao desespero é superá-lo. A
literatura desesperada é uma contradição em termos.
- Eles tocaram a Sonata a Kreutzer, de Beethoven. O
senhor conhece o primeiro presto? Conhece?! – exclamou ele. – Uh! Como é
terrível esta sonata! Precisamente essa parte. E a música em geral é uma coisa
terrível. O que é ela? Não compreendo. O que é a música? O que ela faz? E por
que ela faz aquilo que faz? Dizem que a música atua de maneira a elevar a alma:
é absurdo, é mentira! Ela atua, e terrivelmente, digo-o por experiência
própria, mas não de maneira a elevar a alma. Ela não eleva nem rebaixa a alma,
ela a excita. Como dizer-lhe? A música obriga-me a esquecer de mim mesmo, da
minha verdadeira condição, ela me transporta a uma outra, que não é a minha:
sob o influxo da música, tenho a impressão de sentir o que, na realidade não
sinto, de compreender o que, a bem dizer, não compreendo, de poder, o que de
fato, não posso. Explico-o pelo fato de que a música atua como o bocejo, como o
riso: não tenho sono, mas bocejo vendo alguém bocejar, não há motivo para que
eu ria, mas rio, depois de ouvir um outro rir.
A música transporta-me
diretamente àquele estado de alma em que se encontrava quem a escreveu. O meu
espírito funde-se com o dele, e com ele me transporto de um estado a outro, mas
não sei porque o faço. Quem escreveu a música, por exemplo, Beethoven com a sua
Sonata a Kreutzer, sabia porque se
encontrava em semelhante estado; este levou-o a praticar determinados atos, e
por isso tal condição tinha para ele um sentido, mas para mim ela não tem
nenhum. E por isso a música apenas excita, ela não conclui. Bem, quando se toca
marcha belicosa, os soldados marcham aos seus sons, a música atingiu-os;
tocaram uma dança, eu dancei – a música também me atingiu; bem, cantaram missa,
eu comunguei, esta música também me atingiu, mas de outro modo, tem-se apenas
excitação, e não existe aquilo que se deve fazer nesse estado de excitação. E é
por isso que, às vezes, a música atua de modo tão terrível, tão assustador. Na
China, a música é um assunto de Estado. E assim deve ser. Pode-se acaso
permitir que todo aquele que o queira hipnotize outra pessoa, ou muitas outras,
e depois faça com elas o que quiser? E sobretudo, que esse hipnotizador seja o
primeiro homem que apareça, um imoral?
E esse poder terrível está nas
mãos de qualquer um. Por exemplo, esta Sonata
a Kreutzer, o primeiro presto. Pode-se porventura tocá-lo numa sala de
visitas, em meio a senhoras decotadas? Tocá-lo, depois bater palmas, em seguida
tomar sorvete e falar do último mexerico? Essas peças só podem ser tocadas em
determinadas circunstâncias importantes, significativas, nas ocasiões em que se
requer a execução de certas ações importantes, correspondentes a essa música.
Tocá-la e executar aquilo para o que essa música dispôs. Pois um despertar de
energia, de um sentimento que não se manifesta em nada, e que não corresponde
ao lugar nem ao tempo, não pode deixar de ter uma ação demolidora. Sobre mim,
pelo menos, essa peça atuou terrivelmente; abriram-se para mim como que
sentimentos novos, parecia-me, novas possibilidades, que eu até então não
conhecera. Algo no íntimo parecia dizer-me: tudo tem que ser absolutamente
diverso da maneira pela qual eu antes pensava e vivia, tem que ser como isto
aqui. Não podia dar conta a mim mesmo do que era o novo que eu conhecera, mas a
consciência dessa nova condição dava-me grande alegria. As mesmas pessoas,
inclusive minha mulher e ele, já apareciam sob uma luz completamente diversa.
Depois deste presto, eles
acabaram de tocar o andante, belo, mas comum e nada novo, com variações
vulgares e um final completamente fraco. E tocaram ainda, a pedido dos
convidados, a Elegia de Ernst e
diferentes pecinhas. Tudo isto era bom, mas não causou sequer 1% da impressão
provocada pelo presto. E tudo isso tinha como fundo a impressão por ele
causada. No decorrer de todo o serão, eu sentia leveza, alegria. Nunca vira
minha mulher do jeito como ela parecia essa noite. Esses olhos brilhantes, essa
severidade, o olhar significativo enquanto tocava, e essa completa diluição, e
certo sorriso débil, de lástima, feliz, depois que eles acabaram de tocar. Eu
via tudo isso, mas não lhe atribuía nenhum outro sentido, além de que ela
experimentava o mesmo que eu, que também a ela pareciam ter-se revelado
sentimentos novos, ainda desconhecidos. O serão terminou com êxito, e todos se
foram.
Tolstói, Lev.A Sonata a Kreutzer. Trad. Boris
Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2007. P. 82-84. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Ou seja, segundo o personagem Pózdnichev, sua esposa e o amante, ele ao violino e ela ao piano, fizeram sexo diante de todos os presentes. Assim como esses dois abaixo farão diante dos seus olhos...
"As coisas assim a gente não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas."
- João Guimarães Rosa
Depois de três anos desde que foi gravado, finalmente sai esse podcast (podiqueste?) sobre o músico, poeta e escritor baiano Elomar Figueira de Mello. Não se sabe precisamente que forças interferiram para que demorasse tanto a vir à tona. Parece mesmo que já nasceu póstumo, mas espera-se que não esteja caduco. Ei-los: Allyson Gabriel, Zé Márcio, Mário e Rondinelly. Quatro amigos diletantes, mas que se achavam no seu elemento - como diriam os Românticos -, conversaram sobre os espaços míticos ou reais, regionalidade, o ser-tanejo e uma ruma de outras coisas representadas no cancioneiro deste que é um dos maiores cavaleiros das caatingas. Na tentativa de encontrar a ponta do novelo de Ariadne eles se enredaram no labirinto trançado da ficção do Sertão Profundo.
PS: agradecimento especial ao nosso amigo Raiff Filho pela ajuda na edição.
"Recordo-me [Max Brod] de uma conversa com Kafka, cujo ponto de partida foi a Europa contemporânea e a decadência da humanidade. Somos, disse ele, pensamentos niilistas, pensamentos suicidas que surgem na cabeça de Deus. Essa frase evocou em mim a princípio a visão gnóstica de mundo: Deus como um demiurgo perverso, e o mundo como seu pecado original. Oh não, disse ele, nosso mundo é apenas um mau humor de Deus, um dos seus maus dias. Existiria então esperanças, fora desse mundo de aparências que conhecemos? Ele riu: há esperança suficiente, esperança infinita - mas não para nós."
Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.
Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegurança do seu passo, mas, se ele oscilar, faça-se conhecer e como um deus da montanha, atire-o à terra firme.
Ele veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim, depois levantou com ela as abas do meu casaco e as pôs em ordem em cima de mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois - eu estava justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale - ele saltou com os dois pés sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz sem compreender nada. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um salteador de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para vê-lo. - Uma ponte que dá voltas! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo, desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida.
In: Narrativas do Espólio. Trad. de Modesto Carone, São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 64.
Hoje, exatamente sete dias após ter iniciado sua viagem na Quinta-feira Santa, Dante encerrava a visita aos mundos eternos. Pelas contas, é isso: dois dias no Inferno, quatro no Purgatório, em ambos guiado por Virgílio, e um no Paraíso, guiado por Beatriz (ou Beatrice para os puristas).
A "topografia" do Inferno descrita por Dante e ilustrada por Botticelli
O fato ocorreu no mês de fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi imediatamente, porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo para não perder a razão. Agora, em 1972, penso que, se o escrevo, os outros o lerão como um conto e, com os anos, o será talvez para mim.
Sei que foi quase atroz enquanto durou e mais ainda durante as noites desveladas que o seguiram. Isto não significa que seu relato possa comover a um terceiro.
Seriam dez da manhã. Eu estava recostado em um banco, defronte ao rio Charles. A uns quinhentos metros à minha direita havia um alto edifício cujo nome nunca soube. A água cinzenta carregava grandes pedaços de gelo. Inevitavelmente, o rio fez com que eu pensasse no tempo. A milenar imagem de Heráclito. Eu havia dormido bem; minha aula da tarde anterior havia conseguido, creio, interessar aos alunos. Não havia ninguém à vista.
Senti, de repente, a impressão (que, segundo os psicólogos, corresponde aos estados de fadiga) de já ter vivido aquele momento. Na outra ponta de meu banco, alguém se havia sentado.
Teria preferido estar só, mas não quis levantar em seguida, para não me mostrar descortês. O outro se havia posto a assobiar. Foi então que ocorreu a primeira das muitas inquietações dessa manhã. O que assobiava, o que tentava assobiar (nunca fui muito entoado), era o estilo crioulo de La Tapera de Elias Regules. O estilo me reconduziu a um pátio lá desaparecido e à memória de Álvaro Mellián Lafinur, morto há muitos anos. Logo vieram as palavras. Eram as da décima do princípio. A voz não era a de Álvaro, mas queria parecer-se com a de Álvaro. Reconheci-a com horror.
Aproximei-me e disse-lhe:
- O senhor é oriental ou argentino?
- Argentino, mas desde o ano de 1914 vivo em Genebra - foi a resposta.
Houve um silêncio longo. Perguntei-lhe:
- No número dezessete da Malagnou, em frente à igreja russa?
Respondeu-me que sim.
- Neste caso - disse-lhe resolutamente - o senhor se chama Jorge Luis Borges. Eu também sou Jorge Luis Borges. Estamos em 1969, na cidade de Cambridge.
- Não - respondeu-me com a minha própria voz um pouco distante.
Ao fim de um tempo insistiu:
- Eu estou aqui em Genebra, em um banco, a alguns passos do Ródano. O estranho é que nos parecemos, mas o senhor é muito mais velho, com a cabeça grisalha.
Respondi:
- Posso te provar que não minto. Vou te dizer coisas que um desconhecido não pode saber. Lá em casa há uma cuia de prata com um pé de serpentes, que nosso bisavô trouxe do Peru. Há também uma bacia de prata que pendia do arção. No armário do teu quarto, há duas filas de livros. Os três volumes das Mil e Uma Noites de Lane, com gravações em aço e notas em corpo menor entre os capítulos, o dicionário latino de Quicherat, a Germania de Tácito em latim e na versão de Gordon, um Dom Quixote da casa Garnier, as Tábuas de Sangue de Rivera Indarte, o Sartor Resartus de Carlyle, uma biografia de Amiel e, escondido atrás dos demais, um livro em brochura sobre os costumes sexuais dos povos balcânicos. Não esqueci tampouco um entardecer em um primeiro andar da praça Dubourg.
- Dufour - corrigiu.
- Está bem. Dufour. Te basta, tudo isto?
- Não - respondeu. - Essas provas não provam nada. Se eu estou sonhando, é natural que eu saiba o que sei. Seu catálogo prolixo é totalmente vão.
A objeção era justa. Respondi:
- Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um de nós dois tem que pensar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. Nossa evidente obrigação, enquanto isto, é aceitar o sonho, como aceitamos o universo e termos sido engendrados e olharmos com os olhos e respirarmos. - E se o sonho durasse? - disse com ansiedade.
Para tranqüilizá-lo e me tranqüilizar, fingi uma serenidade que certamente eu não sentia. Disse-lhe:
- Meu sonho já durou setenta anos. Afinal de contas, ao rememorar, não há pessoa que não se encontre consigo mesma. É o que nos está acontecendo agora, só que somos dois. Não queres saber alguma coisa de meu passado, que é o futuro que te espera?
Assentiu sem uma palavra. Prossegui, um pouco perdido:
- A mãe está saudável e bem, em sua casa de Charcas y Maipú, em Buenos Aires, mas o pai morreu há uns trinta anos. Morreu do coração. Uma hemiplegia o liquidou; a mão esquerda posta sobre a mão direita era como a mão de uma criança posta sobre a mão de um gigante. Morreu com impaciência de morrer, mas sem uma queixa. Nossa avó havia morrido na mesma casa. Alguns dias antes do fim chamou-nos a todos e disse-nos: '"Sou uma mulher muito velha que está morrendo muito devagar. Que ninguém se perturbe por uma coisa tão comum e corrente". Norah, tua irmã, se casou e tem dois filhos. A propósito, em casa como estão?
- Bem. O pai sempre com seus gracejos contra a fé. Ontem à noite disse que Jesus era como os gaúchos que não querem se comprometer e que, por isto, pregava através de parábolas.
Vacilou e disse:
- E o senhor?
- Não sei o número de livros que escreverás, mas sei que são demasiados. Escreverás poesias que te darão uma satisfação não partilhada e contos de índole fantástica. Darás aulas como teu pai e como tantos outros de nosso sangue.
Agradou-me que nada perguntasse sobre o fracasso ou êxito dos livros. Mudei de tom e prossegui:
- No que se refere à História... Houve outra guerra, quase entre os mesmos antagonistas. A França não tardou a capitular; a Inglaterra e a América travaram contra um ditador alemão, que se chamava Hitler, a cíclica batalha de Waterloo. Buenos Aires, ao redor de mil novecentos e quarenta e seis, engendrou outro Rosas, bastante parecido com nosso parente. Em cinqüenta e cinco, a província de Córdoba nos salvou, como antes Entre Rios. Agora, as coisas andam mal. A Rússia está se apoderando do planeta; a América, travada pela superstição da democracia, não se resolve a ser um império. Cada dia que passa nosso país está mais provinciano, Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia se o ensino do latim fosse substituído pelo do guarani.
Notei que mal me prestava atenção. O medo elementar do impossível, e no entanto certo, o aterrorizava. Eu, que não fui pai, senti por esse pobre moço, mais íntimo que um filho da minha carne, uma onda de amor. Vi que apertava entre as mãos um livro. Perguntei-lhe o que era.
- Os possessos ou, segundo creio, Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski - me replicou não sem vaidade.
- Já o esqueci. Que tal é?
Nem bem o disse, senti que a pergunta era uma blasfêmia.
- O mestre russo - sentenciou - penetrou mais que ninguém nos labirintos da alma eslava.
Essa tentativa retórica me pareceu uma prova de que se havia acalmado.
Perguntei-lhe que outros volumes do mestre havia percorrido. Enumerou dois ou três, entre eles O Duplo.
Perguntei-lhe se, ao lê-los, distinguia bem as personagens, como no caso de Joseph Conrad, e se pensava prosseguir o exame da obra completa.
- A verdade é que não - respondeu-me com uma certa surpresa.
Perguntei-lhe o que estava escrevendo e disse que preparava um livro de versos que se chamaria Os hinos vermelhos. Também havia pensado em Os ritmos vermelhos.
- Por que não? - disse-lhe. - Podes alegar bons antecedentes. O verso azul de Rubén Darío e a canção gris de Verlaine.
Sem me fazer caso, esclareceu que seu livro contaria a fraternidade entre todos os homens. O poeta de nosso tempo não pode voltar as costas à sua época.
Fiquei pensando e perguntei-lhe se verdadeiramente se sentia irmão de todos. Por exemplo, de todos os empresários de pompas fúnebres, de todos os carteiros, de todos os escafandristas, de todos os que vivem nas casas de números pares, de todos os afônicos, etc. Disse-me que seu livro se referia à grande massa dos oprimidos e dos párias.
- Tua massa de oprimidos e párias - respondi - não é mais que uma abstração. Só os indivíduos existem, se é que existe alguém. O homem de ontem não é o homem de hoje, sentenciou algum grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou Cambridge, somos talvez a prova.
Salvo nas severas páginas da História, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis. Um homem a ponto de morrer quer se lembrar de uma gravura entrevista na infância; os soldados que estão por entrar na batalha falam do barro ou do sargento. Nossa situação era única e, francamente, não estávamos preparados. Falamos, fatalmente, de literatura; temo não haver dito outras coisas que as que costumo dizer aos jornalistas. Meu alter ego acreditava na invenção ou descobrimento de metáforas novas; eu, nas que correspondem a afinidades íntimas e notórias e que nossa imaginação já aceitou. A velhice dos homens e o acaso, os sonhos e a vida, o correr do tempo e da água. Expus-lhe esta opinião que haveria de expor em um livro anos depois.
Quase não me escutava. De repente, disse:
- Se o senhor foi eu, como explicar que tenha esquecido seu encontro com um senhor de idade que, em 1918, lhe disse que ele também era Borges?
Não havia pensado nessa dificuldade. Respondi, sem convicção:
- Talvez o fato tenha sido tão estranho que eu tenha tratado de esquecê-lo.
Aventurou uma tímida pergunta:
- Como anda sua memória?
Compreendi que, para um moço que não havia feito vinte anos, um homem de mais de setenta era quase um morto. Respondi:
- Costuma parecer-se com o esquecimento, mas ainda encontra o que lhe pedem. Estou estudando anglo-saxão e não sou o último da classe.
Nossa conversação já havia durado demais para ser a de um sonho. Uma súbita idéia me ocorreu.
- Eu posso te provar imediatamente - disse-lhe - que não estás sonhando comigo. Ouve bem este verso, que nunca leste, que eu me lembre.
Lentamente entoei o famoso verso:
L'hydre - univers tordant son corps ecaillé d'astres.
Senti seu quase temeroso estupor. Repetiu-o em voz baixa saboreando cada resplandescente palavra.
- É verdade - balbuciou - Eu não poderei nunca escrever um verso como este.
Antes, ele havia repetido com fervor, agora recordo, aquela breve peça em que Walt Whitman rememora uma noite compartilhada diante do mar em que foi realmente feliz.
- Se Whitman a cantou - observei - é porque a desejava e não aconteceu. O poema ganha se não adivinhamos que é a manifestação de um anelo. Não a história de um fato.
Ficou a me olhar.
- O senhor não o conhece - exclamou.- Whitman é incapaz de mentir.
Meio século não passa em vão. Sob nossa conversação de pessoas de leitura miscelânea e de gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos nos enganar, o que torna o diálogo difícil. Cada um de nós dois era o arremedo caricaturesco do outro. A situação era anormal demais para durar muito mais tempo. Aconselhar ou discutir era inútil, porque seu inevitável destino era ser o que sou.
De repente, lembrei uma fantasia de Coleridge. Alguém sonha que atravessa o paraíso e lhe dão como prova uma flor. Ao despertar, ali está a flor.
Ocorreu-me artifício semelhante
- Ouve - disse-lhe -, tens algum dinheiro?
- Sim me replicou. - Tenho uns vinte francos. Esta noite convidei Simón Jichlinski ao Crocodile.
- Diz a Simón que exercerá a medicina em Carouge e que fará muito bem... agora, me dá uma de tua moedas.
Tirou três escudos de poeta e umas peças menores. Sem compreender, me ofereceu um dos primeiros.
Eu lhe estendi uma dessas imprudentes notas americanas que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho. Examinou-a com avidez.
- Não pode ser - gritou. - Leva a data de mil novecentos e sessenta e quatro.
(Meses depois, alguém me disse que as notas de banco não levam data.)
- Tudo isto é um milagre - conseguiu dizer - e o milagroso dá medo. Os que foram testemunhas da ressurreição de Lázaro terão ficado horrorizados.
Não mudamos nada, pensei.
Sempre as referências livrescas.
Fez a nota em pedaços e guardou a moeda. Eu resolvi lançá-la ao rio. O arco do escudo de praia perdendo-se no rio de prata teria conferido à minha história uma imagem vívida, mas a sorte não quis assim.
Respondi que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador. Propus a ele que nos víssemos no dia seguinte, nesse mesmo banco que está em dois tempos e dois lugares.
Assentiu logo e me disse, sem olhar o relógio, que já era tarde. Os dois mentíamos e cada qual sabia que seu interlocutor estava mentindo. Disse-lhe que viriam me buscar.
- Buscá-lo? - interrogou.
- Sim. Quando alcançares a minha idade, terás perdido a visão quase por completo. Verás a cor amarela, sombras e luzes. Não te preocupes. A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.
Despedimo-nos sem nos termos tocado. No dia seguinte, não fui. O outro tampouco terá ido. Meditei muito sobe esse encontro, que não contei a ninguém. Creio ter descoberto a chave. O encontro foi real, mas o outro conversou comigo em um sonho e foi assim que pude me esquecer. Eu conversei com ele na vigília e a lembrança ainda me atormenta.
O outro me sonhou, mas não me sonhou rigorosamente. Sonhou, agora o entendo, a impossível data no dólar.
Jorge Luis Borges (tradução Lígia Morrone Averbuck)
Nesta noite teve um sonho terrível - se podem ser chamadas de sonhos experiências físico-espirituais, apesar de lhe terem acontecido no mais profundo sono e em completa independência e presença física, sem que se visse andando e presente no lugar dos acontecimentos, porque a cena era sua própria alma; estes romperam de fora para dentro sua resistência - uma resistência profunda e espiritual -, derrubando-a violentamente, transpassando-a, deixando sua existência, deixando a cultura de sua vida devastada, exterminada.
O medo foi o princípio, medo, desejo e uma curiosidade horrorizada pelo que devia vir. Imperava a noite e os seus sentidos escutavam; pois de longe se aproximavam tumulto e bulha, uma mistura de barulhos: um punhado de júbilos estridentes e de um certo uivar com o som prolongado de "u" - tudo isso impregnado por um toque de flauta soando mais alto e medonhamente doce, profundamente arrulhante, perversamente pertinaz que, de maneira importunamente vergonhosa, lhe enfeitiçava as entranhas. Ele sabia uma palava obscura, mas dando um nome ao que vinha: o deus estranho. Acendeu-se uma chama cheia de fumaça: então reconheceu terra montanhosa, parecida àquela em redor de sua residência de verão. E numa luz rompida, vindo de alturas revestidas de florestas, entre troncos de árvores e rochas cobertas de musgo, rolavam-se e precipitavam-se, girando para baixo: homens, animais, um enxame, um bando furioso - e inundaram a colina de corpos, chamas, tumulto e dança vertiginosa. Mulheres, gemendo, sacudiam tamborins sobre suas cabeças jogadas para trás, tropeçando sobre longos hábitos de pele que lhes pendiam da cintura; vibravam punhais nus e archotes cujas chamas se dispersavam; seguravam serpentes sibilantes pelo meio dos corpos ou erguiam, gritando, seus seios com ambas as mãos. Homens de chifre sobre a testa, abrigados em peles, hirsutos, curvavam o pescoço e erguiam braços e coxas, e faziam vibrar pratos de bronze e batiam raivosos sobre timbales, enquanto, com bastões envolvidos em folhas, rapazes nus espicaçavam bodes cujos chifres agarravam, deixando-se arrastar, jubilantes, pelos seus saltos. E os extasiados urravam o grito de consoantes suaves de prolongado "u" no fim, doce e selvagem ao mesmo tempo, como jamais fora ouvido um outro: aqui ressoava bramando para os ares como por veados e ali era reproduzido, multíssono, em louco triunfo; atiçavam-se com este grito para a dança e, arremessando os membros, nunca o deixaram silenciar. Mas tudo era penetrado e dominado pelo profundo e atraente da flauta. Não seduzia também a ele, o presenciador resistente, com persistência impudica, para a festa e a imoderação do sacrifício extremo? Grande era a sua repugnância, grande seu medo, honesto seu desejo de salvaguardar o seu eu até o fim contra o estranho, o inimigo do sereno e digno espírito. Mas o barulho e a gritaria, multiplicados pela rocha ecoante, cresciam, sobrepujavam, aumentavam, até a loucura arrebatante. Vapores comprimiam o cérebro, o cheiro penetrante dos bodes, a atmosfera de corpos arquejantes e um corpo de águas pútridas, e além destes ainda um outro, familiar: de feridas e de doença propagada. Com as batidas dos timbales seu coração retumbava, seu cérebro girava, acometido de raiva, de desvario, de atordoante voluptuosidade, e sua alma desejou unir-se à dança de roda do deus. O enorme símbolo obsceno, de madeira, foi descoberto e elevado: aí gritaram mais desenfreados a senha. Com espumas nos lábios, vociferavam, excitavam-se com gestos lascivos e mãos buliçosas, rindo e gemendo, empurravam os bastões espinhosos um na carne do outro e lambiam o sangue dos membros. Mas com eles, entre eles, estava agora o sonhador, submisso ao deus estranho. Eles eram ele mesmo, quando se atiravam sobre os animais, dilacerando e assassinando, e devoravam pedaços fumegantes; então, sobre o terreno de musgo revolvido, começou um ilimitado cruzamento, em sacrifício ao deus. E sua alma experimentou a luxúria e a loucura da decadência.
(...)
MANN, Thomas. A morte em Veneza. Trad. Maria Deling. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (pp. 160-162)