sexta-feira, 7 de junho de 2013

Nota de rodateto

Coisa de alguns anos atrás, quando estudava em Campinas, uma amiga de Goiás, que fazia Doutorado, e eu conversávamos sobre A Montanha Mágica, e ela me perguntava sobre a clássica passagem com que todo sujeito que algum dia leia esse romance precisa topar, qual seja, o encontro entre o jovem alemão Hans Castorp e a russa de “olhos quirguizes” Clawdia Chauchat. O inconveniente para a maioria dos leitores é que nossas edições brasileiras não trazem uma tradução, quer fosse pelo menos como nota de fim de livro, do diálogo entre ambos, quase todo falado em Francês – com pequenos intervalos em Alemão. E é um diálogo longo que não justifica os editores ignorarem a necessidade de uma tradução. Pois bem. Dizia a essa amiga, na ocasião, que tive que pular quase a totalidade da conversa, aproveitando apenas aquilo que para a trama seria relevante, a partida de Mme. Chauchat no dia seguinte ao encontro. Ela lamentou me dizendo que eu perdia muita coisa, já que o diálogo era belíssimo. Era fácil pra ela, afinal, ela falava Francês. Ano passado, quando relia A Montanha Mágica, foi a mesma coisa, pulei tudo. Pura preguiça de fazer uma tradução ao menos bizarra pelo Google Translate. Como esse é um romance que você jamais esquece, você sempre precisa voltar à montanha, aí essa semana deu um estalo de procurar na internet se alguma alma nobre, que houvera se apiedado de pessoas na mesma situação que eu, traduzira a passagem. E sim, uma historiadora, Mariana Silveira, foi generosa conosco. Só então eu percebi, como de fato me disse outrora minha amiga, o quão fantástico é o diálogo. O livro se tornou ainda mais belo do que sempre me pareceu. O trabalho da colega historiadora foi providencial. Mas como eu me dou a certos arroubos de pachorra, e parece que historiador é dado a ser pachorrento mesmo, eu decidi completar todo o fim do capítulo desde o momento em que Hans e Clawdia sentam-se um diante do outro, acrescentando os trechos que foram suprimidos por não estarem em Francês. E aí, por meio desta tradução, reli todas as falas originais, o que me permitiu enxergar alguns problemas. Pouquíssimos momentos ficaram confusos, outros simplesmente foram esquecidos – ou talvez não estivessem presentes na edição de que Mariana Silveira se valeu, a do Círculo do Livro; a minha é da Nova Fronteira, porém ambas com tradução de Herbert Caro. Eu não corrigi ninguém, eu apenas acrescentei e dei uma revisada segundo o contexto da história e do instante da conversa. Se alguém tiver também a paciência de pôr lado a lado nossos textos, verá algumas diferenças sim. A mais significativa, já posso adiantar, é com relação ao uso dos pronomes para tratamento, coisa que eu persegui obstinadamente na minha versão. Como se vê, Clawdia e Hans estão se falando pela primeira vez desde que Hans reconheceu Clawdia. Então seria regra se tratarem no Francês por vous, que denota respeito, afastamento. O uso do tu nessa língua, como está no original, significa intimidade entre os falantes. No Espanhol, por exemplo, o mesmo fenômeno ocorre, quando se usa usted respeitosamente e intimamente. Aí foi quando pensei sobre como resolver esse negócio no nosso Português brasileiro. A princípio, bastou que eu trocasse o vous pelos o senhor/a senhora. Mas e quanto ao tratamento de proximidade? Acho que qualquer pessoa responderia para que eu usasse o você, já que o senhor/a senhora é quase a nossa forma de distanciamento. Mas aí eu resolvi interferir. Usei o nosso tu. Sabemos que no Brasil é comum que esse pronome, na comunicação do dia-a-dia, denote um afastamento nem tanto respeitoso ou por desconhecimento que se teria de um interlocutor, como de fato causam o senhor/a senhora, mas sim de demarcação de posição frente ao acesso formal da instrução. Certo? Certo. Mas quem tiver a paciência de ler o texto da situação aqui encontrada, verá que o uso do tu acentua o caráter apaixonado e delirante de Hans Castorp. Quem nunca escreveu um bilhete, ou carta de amor – como as outras, ridículas – sem se dirigir ao objeto de amor por tu? Nunca se saberá ao certo, mas a sibilante sempre pareceu mais passional. Perguntar você me ama? jamais será tão intenso como tu me amas? Optei por seu uso tão somente por uma convicção própria, o que seria um erro. Mas acho que foi uma escolha da mesma natureza da de Hans, já que a ele lhe pareceu o Francês a língua mais adequada do que o Alemão para delirar como em sonho.
Pensei em contextualizar tudo para o leitor que não leu ainda o livro, para que se situasse melhor apenas com esse diálogo. Mas aí já seria tagarelice demais e eu não ouvi meu nome ser chamado pra compor a mesa-redonda. Vou só tentar instigar alguém a ler esse texto enorme aí abaixo (isto é, se alguém já chegou até aqui). Até porque eu espero causar um efeito justamente em quem não leu, o efeito do estranhamento das falas delirantes de Hans Castorp. Tudo o que Clawdia escuta de Hans os leitores já sabemos de onde vem, mas ela absolutamente não, por isso o que ele diz parece-lha loucura. Havia sete meses que Hans Castorp estava no Sanatório Internacional Berghof e, destes, mais ou menos há seis que estava completamente louco de amor por Clawdia Chauchat, uma russa de nome afrancesado, que a princípio se lhe apresentara bárbara e mal-educada. Eis o que se passa: era noite de terça-feira de Carnaval, embora o título da seção do capítulo seja Noite de Walpurgis (o que adquire simbologia plena em todo o contexto) e todos os doentes que não conheceram Alexander Fleming brincavam à beira do abismo. É quando, durante um joguinho, Hans Castorp precisa de um lápis. Esse bendito lápis, e todo um motivo de ordem psicanalítica, por assim dizer, conduzem Hans a Clawdia. O texto abaixo começa no instante em que se sentam para conversar. Seu êxtase se manifesta num desejo torrencial de dizer tudo de uma só vez àquela gata quente, tudo que acumulou esse tempo todo, desde que a reconheceu. Sobre esse lance de reconhecer, que resulta numa combinação muito bonita dentro do romance, e que quem o leu sabe do que se trata, sobre isso não direi nada além – e na verdade já disse tudo – de que a chave pra compreendê-lo na obra de Thomas Mann está no motif que aparece noutra novela sua, Tonio Kröger; ou mesmo outros motifs, como a insistente tentativa de figuração/romanceamento da própria biografia através dos elementos exóticos e mestiços de seu sangue, oriundos de sua mãe brasileira, Júlia da Silva Bruhns, enfim, que estão espalhados pelas suas obras. É… pagar uma disciplina na pós-graduação sobre Thomas Mann tinha que servir ao menos pra tagarelar. Gostaria de mandar um abraço fraterno ao Estado de São Paulo, na figura do IEL-Unicamp, e ao MEC, na figura da CAPES.
Eu sei que ficou muito texto, tudo muito longo. Mas A Montanha Mágica é um tratado filosoficamente vívido da experiência do tempo. Então, eu aviso logo aos leitores que desistam de tentar ler tudo em menos de 7 minutos. Não sei se em menos de 7 horas seja possível… o ideal é que esqueçam de contar o tempo. Mas pelo amor de Deus, que não levem 7 dias…
Bom, e ontem, 06 de junho, foi aniversário de Paul Thomas Mann.



Um comentário:

barrow22 disse...

aqui no tablet nao apareceu sua traducao. li com meu frances pífio e estou sofrendo para entender tudo que foi dito. estou no capitulo seguinte do livro e deseperado pela partida de chauchat...