sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O Restaurante

Pode-se dizer que ela era apenas leviana. Uma moça arredia mas um tanto cândida. Mesmo à claridade do dia, tudo o mais lhe parecia perdido na penumbra de sua lucidez. Diante da cerca que rodeava a fazenda em que se localizava o asilo, estática, degustava seus mais íntimos sentimentos, estes que também pareciam cerceá-la vez ou outra. Por qualquer razão, sussurrou:

- Eu volto em junho...

Mas sua memória frágil não a deixava lembrar bem, afinal, onde era este lugar? Por que em junho? Lá onde ela não conhecia, era agora um lugar distante demais para lembrar, num tempo também longínquo. Fácil era crer que enlouquecia, mesmo assim ela insistia em não esquecer que podia recordar. Vasculhava sua mente quando ouviu um grito tão repentino quanto os golpes de sua memória traiçoeira.

- Ah, te achei!

Virou-se em direção ao som. Conhecia bem aquela voz, aquele timbre. Ao longe pôde reconhecer o semblante, era... mas quem era mesmo? Era uma senhora de feições robustas, bronze já empalidecido não se sabe se pelos recentes dias de frio ou por todos os invernos que viveu. Decidiu fitar aquela figura estranhamente conhecida, que logo lhe falou:

- Ei, mocinha! Já chegou o meio do dia, é hora da refeição e você ainda aqui, por que vem sempre a esse lugar? - indagou a senhora franzindo a testa tanto pela dúvida quanto pela incidência dos raios solares que, embora fracos, irritavam suas pupilas. Ao tomá-la de pronto pelos braços, fazendo menção de guiá-la, deixou claro que não parecia preocupar-se de fato com o esclarecimento do que questionara, o que fez a delirante mocinha sentir-se débil. Mesmo assim respondeu:

- Talvez aqui haja lucidez... veja, é um lugar tão pacífico... – e, percebendo que ganhara a atenção inédita daquela senhora, continuou:

- Diga-me, de que valem os sentidos se não estão ligados a uma memória, à cognição?

A senhora franziu ainda mais o cenho e permaneceu em silêncio. No ar pairou a idéia de que talvez a sanidade fosse fato inversamente proporcional à inteligência, ou algo um tanto variável a partir dela e seus pontos referenciais de intelecção.

Numa fração de segundos a jovem presenciou um turbilhão de lembranças e associações de modo que podia sentir a mente tão dolorida quanto ficariam os olhos diante de um clarão em pleno breu. Lembrou-se da senhora, era a enfermeira do asilo. Gostaria de reter aquelas informações tão preciosas, mas já pareciam partir outra vez mesmo diante de seu ímpeto mais sincero a clamar para que permanecessem. Respirou profundamente, sentia esvair-se juntamente com elas, entre os braços fortes da enfermeira deixou-se levar.

- Querida, soube que em breve virão buscá-la. Não fique assim tão distante dos outros. Eles sentem sua falta, sabia?

- E eu de mim.

Melancólico existir, tão ávida por sua identidade que teimava em escapar, desfazer-se entre frestas desconhecidas. Ansiava constantemente em recordar quem é e o que representa. E, quando se deixava tomar pela ausência total de lembranças, inundava-se em desvarios. Pôde perceber o cheiro de jasmim que exalava o jardim, antecipando a entrada nos cômodos da fazenda. Pediu que a servisse ali, numa rede próxima onde logo se sentou. Intrigava-lhe as saúvas das árvores em que se sustentava a rede. Elas viviam tão ávidas, mesmo sem uma aparente memória. Viviam instintivamente e o instinto as ordenava viver peremptoriamente. sem mais nem porém. Decidiu de repente então viver peremptoriamente. Sorriu ao imaginar que isso podia satisfazê-la, mas somente naquele instante. Deitou-se.

A enfermeira se dirigiu à cozinha e deparou-se com o médico assistente dos asilados.

- Por quanto tempo mais ela ainda ficará assim, doutor? – disse ao notar que ele observava a moça com afeto.

- Infelizmente ainda é difícil de estimar. - Ele não gostava de falar sobre isso, queria ter mais esperanças e pensar sobre fatores técnicos parecia não ajudar. E também, tais fatores podiam não ser compreendidos, como havia acabado de cear, batia-lhe um desídia usual, motivo suficiente para economizar palavras.

- Ela é tão jovem... – disse a enfermeira entristecida.

- Sim, e tem uma mente promissora, mas nenhum de seus melhores adjetivos parece ter valia diante de sua memória frágil, o que é uma verdadeira lástima.

Enquanto a observavam com pesar da janela da cozinha, surge naquele horizonte bucólico um rapaz de olhos singularmente janeiros aproximando-se da moça. Com o seu semblante característico, tão plácido quanto aquele lugar, ele caminhava. Em passos certos, se aproximava daquela que repousava docemente encantada com a comicidade que havia captado em meio a tantas amarguras: a comicidade de viver como uma saúva.

- Sinto informá-lo, senhor, o dia ainda completa a metade e ela se prepara para cear! – gritou o médico pensando numa forma de prolongar os minutos dela por perto de sua presença. Não sabia explicar mas sentiu desespero naquele instante. Nem soube discernir se era bom ou ruim estender a presença dela, talvez fosse uma vontade egoísta. E, como se não ouvisse tanto quanto ela não podia lembrar, continuou e chegou até ela. Um silêncio estranho pairou entre eles como se já estivessem se comunicando. Ele a fitava. Sentia que todas as palavras que dissesse não seriam ditas porque estava inevitavelmente mudo, além de aparentemente surdo. E, depois de alguns instantes, antes que dissesse algo, ela adiantou, ainda com os olhos fechados:

- Eu sinto os raios do sol mas o dia ainda está nublado e frio... Ainda bem que trouxe o casaco... – disse sorrindo à medida em que abria os olhos.

- Não vamos mais precisar de agasalho. – Ele a olhava embevecido. Ela só precisa existir para ser querida – pensou.

- Aonde vamos?

- Ao restaurante.

Num curto lapso lhe ocorreu que sua memória estava sã, afinal, o reconhecera até mesmo antes de abrir os olhos. E um sorriso largo preencheu seu semblante de alegria. Afinal, agora era bem mais do que uma saúva, teria uma satisfeição maior.

- Não sabia que estava passando fome aqui. – brincou.

E os dois riram abertamente como bons e velhos cúmplices daquele e de tantos outros instantes memoráveis.

Um comentário:

Turuna Tântalo disse...

Que tal prepararmos um projeto editorial com as nossas produções do blog? Tenho até a sugestão do título do volume: "Ensaios sobre a vida cáustica"... Este conto é muito bom.