quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Bolsa-Lamborghini

A Veja está medindo o impacto da crise financeira no Brasil pelo decréscimo das vendas do Lamborghini no país(!), um veículo automotor que custa 1,5 milhão de contos.


Vou usar esse espaço em branco para exprimir minha sensação de "HEIN??!!"
























Apois, segundo a notícia, de tom irônico, é verdade, porém não menos bizarra, nos últimos três meses de 2009, 15 possantes desse saíram pra cá. Eu me pergunto se foram realmente 15 indivíduos que compraram cada um deles. Entre janeiro e março de 2010, só 4 foram vendidos. (Eu ainda estou naquela sensação de HEIN??!!). A Veja não teria aí, por acaso, outro indicador de crise, não? Sei lá, já não bastou toda a discussão de retração do crédito, o que afetou as pessoas de classes mais baixas que estavam consumindo mais - deixar claro que eu não defendo que Consumo seja indicador de que um povo vai bem ou mal consigo mesmo -, agora tiveram de mostrar que a crise financeira afetou os milionários que não terão seu Lamborghini do ano? Ruim para a fábrica dos carros, ruim para o Brasil?


Sinceramente, eu também não quero suscitar qualquer "ódio de classe" contra os ric... milionários ("ricos" não, porque não é suficiente: o carro custa um MILHÃO e meio), mas eu realmente não me compadeço do brasileiro que perdeu a chance de comprar seu Lamborghini. Mesmo porque, pelo sentido literal de compadecer, seria mesmo impossível para mim esse sentimento e para, deixa ver, 90% do Brasil; embora a Veja talvez sugira o quão transtornante é, ao trabalhador assalariado, que um milionário deixe de possuir esse carrão. A Veja talvez queira criar a compaixão do pobre pelo milionário assim como a novela Viver a Vida mostre, em horário nobre para o morador do Cangote do Urubu (uma favela daqui da cidade de Patos) o quão difícil é a vida do povo no Leblon.


Outrossim, convém dizer que a Veja realmente não é uma revista 'povo', mas também não é para milionários. A classe média, que a lê efetivamente, é que possui um místico pendor para sentir compaixão pelo sujeito que não terá sua Ferrari ou seu Lamborghini. Munida desse "dado", ela usará dele para dizer que o governo foi omisso diante da Crise, que a redução do IPI (que aqueceu as vendas de carros populares, que a classe média, diga-se de passagem, compra) não foi suficiente para que alguém (entidade abstrata - responda rápido: você conhece alguém que comprou um Lamborghini?) comprasse o seu... não vou repetir, vocês já entenderam. Exagero? É não, viu... leiam o comentário de Luciedy Mousinho no mesmo texto do linque:


"Além do preço em média de 1,5 milhão, o Lamborghini passa por dificuldades das ruas e estradas brasileiras p/circular aqui. Muito diferente da Europa".

(HEIN?!)

E ele ainda se preocupa com ruas e estradas? Se um Fiat 147 passa por dificuldades nas ruas e rodovias brasileiras, imaginem esse bichão? Talvez em São Paulo, na Bandeirantes, ele trafegue beleza. O único incômodo seria dos pedágios: não para pagar, porque quem dá 1,5 milhão não se importa com os R$ 6,10 deles; mas de
parar mesmo, ou reduzir a velocidade naquele sistema do Via Fácil. Multa por excesso de velocidade também nem arranha a pintura do carro.

Outro comentário, mais instrutivo para os leitores do saite da Veja e da revista em geral, é esse, de Cristian:

"Comprem [quem, eu?] pela WT Import de Curitiba, vai sair mais barato, 1.5 milhão de reais é um absurdo [ainda bem que ele não perdeu todo o bom senso].http://www.wtimport.com. As ditas oficiais pensam que são as únicas que podem importar. Uma importadora não oficial pode trazer um modelo novo dos Estados Unidos onde os carros custam os mesmos valores mas em dólares, e têm menos sobrecarga de impostos."

Isso quer dizer que, talvez, eu consiga comprar por essa importadora com um abatimento de 400 mil contos (ou como garantiu outro comentarista no saite, na Europa ou EUA, metade do preço de desconto). Isso me fez lembrar aquele episódio de Chapolin onde mandaram um grupo de astronautas para um planeta por uma rota que gastaria 50 milhões de anos-luz para chegar, mas Chapolin disse conhecer uma mais curta, onde eles chegariam duas horas mais cedo.

Isso tá me enchendo.

Mas prestem atenção, meus amigos. Eu não estou aqui, como falei, despertando ódio de classe. O cidadão que possua dinheiro suficiente, que compre seu Lamborghini; ou, pro caso de uma Ferrari, que tenha a grana e o pedigree exigidos pelo "cavalinho". Eu juro que não tenho absolutamente algo contra. O que eu acho muito louco é o pessoal da Veja noticiar a queda na venda de um veículo daquele porte como indicador de afetação da crise global no Brasil. O país piorou porque de 15, caiu para 4 o número de Lambor... (esse nome já me chateou!). E isso é uma tragédia. Então, se tivesse aumentado a venda, o Brasil estaria ótimo. Né isso? O ideal da Veja, e de muitos seus leitores, é de que, por exemplo, o IDH inclua quantidade de Lamborghinis circulando num país como dado preponderante? Então perdemos muito tempo discutindo questões acessórias sobre os problemas da realidade brasileira quando o grande "muído" no Brasil, descobrimos graças à Veja, é que não temos Lamborghinis suficiente para todos. Então, o governo Lula está arbitrariamente errando, ora pois, em agenciar o Bolsa-Família... devemos parar com a distribuição de renda promovida pelo Estado. Bolsa-Lamborghini já! Para os que não puderam e para os que nunca, jamais, poderiam comprar! Quem sabe José Serra, paladino da Veja, abraça a causa e lança no plano de governo do PSDB? Serviria também como qualificador positivo da política externa, já que esse programa tiraria a fábrica da Lamborghini do aperto finaceiro. Serra poderia aproveitar e criar o "Minha Mansão, Minha Vida" para as pessoas que moram no Jardim Romano, nos morros cariocas ou nos mucambos do Recife.

E não me estranharia se assim o fosse. Esse pessoal vive num mundo tão à parte, nas suas Alphavilles que até pensam que os problemas de quem vive nas suas Alphavelas (em Campinas-SP) são idênticos. Porque eu lembro de Lu Alckmin, esposa do Homem-Chuchu (PSDB), quando foi investigada por receber 400 vestidos, cada um entre 3 a 5 mil contos, disse que doou todos para a caridade. Ela, como uma Maria Antonieta desconhecedora dos hábitos alimentares do povo francês (por causa da história dos brioches), achava que o problema dos pobres é que os molambos que vestem não tinham a assinatura de um designer podre de chique. Há que se lembrar que a ex-primeira-daminha também foi investigada por envolvimento no escândalo de sonegação fiscal da famosíssima Daslu. Estima-se que, somada toda sorte de sonegação da loja, 1 bilhão de Reais deixou de ser arrecadado aos cofres públicos (quantos Lamborghinis se compra com isso?). Passei em frente, só uma vez, à Daslu, na companhia de minha amiga Sueli. É construção suntuosa. Lembra o Senado romano. Bem de frente há uma rampa de acesso a um viaduto e embaixo eu vi uma família vivendo na Idade da Pedra.

Pois bem. Estou pouco me lixando para quantos carros de 1,5 milhão o brasileiro pôde ou não comprar ou que a fábrica da Lamborghini perdeu clientes no Brasil. Isso não indica porcaria alguma. Tornar isso notícia com status de importância é estúpido. Vou lhes dar mais um exemplo. Aqui na Paraíba, até onde se sabe, só existe uma Ferrari circulando. Seria a Paraíba um Estado pobre por esse motivo? Pertence ao filho do proprietário de famoso shopping de João Pessoa. O pessoal que pega horário do rush pesado na avenida Epitácio Pessoa até brinca dizendo que ultrapassou a Ferrari de Fulano e ele não pôde fazer nada. E aí? Vou lamentar que não haja mais dessas por aqui? Devo lamentar também que não haja aquelas folhas outonais dos bosques de Modena caindo na estrada, se espalhando ao vento com a passagem espetacular do bólido vermelho, como nas propagandas? É esse, de verdade, um dado significativo de como a atual crise mexe num país como o Brasil? A resposta, não deixem de ver no Manhattan Connection.

Excurso: há um modelo ainda mais barato do Lamborghini, made in China.

4 comentários:

Raquel disse...

Ah bom! Agora já começo a entender
como funciona esse negócio de crise...15-4=11...mas o que é mesmo Lamborghini???Fala sério!!!!Se não é a Veja explicando, esse povo não entende,né mesmo????

Rubinho Osório disse...

Vejo que a Veja tem mais de um (eu) inimigo mortal. Essa revistinha é de uma ruindade infinita - quando a gente pensa que chegou ao máximo, arruma mais uma bobagem.
Cá pra nós, comprar uma Lambo de 1.5 milhão ou uma Ferrari de 1.6 (esperam vender, só aqui, 40 este ano) é o mesmo que xingar a mãe de todo o resto do país: uma ofensa.

Siga-me os bons disse...

A Veja se supera mesmo! Mas como crítico de artigos da Veja, devemos também corrigir os nossos companheiros: ano-luz (lá do chapolin) é medida de espaço e não de tempo como imagina-se na leitura;
Mas não se preocupe, pois erro maior fez a Veja tentando enganar o cidadão.

Lau Cariri disse...

Eu apenas quis dizer que levariam 50 milhões de anos, percorrendo à velocidade da luz, para chegar ao lugar. Se suscitou a idéia, peço perdão. Foi o uso do verbo "gastar".