Não quero me queixar de orelha em orelha
Ficar parado se quem me agrada se afasta
Negar o reflexo que deixo em meu espelho
Nem guardar rancor entre as sobrancelhas
Não quero guardar tantos segredos
Nem estar representado num quadro grotesco
Como os Montéquio e os Capuleto
Não quero em tua idade ficar obsoleto
Nem perder o vigor, nem dizer sem rigor
Que todo tempo passado sempre foi melhor
Nem chegar em minha casa transtornado e abatido
Não quero estar cansado de carregar a mim mesmo
E mesmo que esta verdade possa doer
Tenho que dizê-la, sem compaixão
Mas se ofendo, peço perdão
Quando eu for grande, não quero ser como o senhor
Não quero cometer teus mesmos erros
Nem acreditar que todos são enganadores
Não quero manejar teus mesmos valores
Nem que cada dia seja igual aos anteriores
Não quero não poder controlar meus humores
Nem carregar essa tristeza nos olhos
Molhados e vermelhos, murchos e frouxos
Não quero resignar-me a ser os meus despojos
Nem lançar com veemência a culpa aos outros
Daquilo que é minha incumbência e responsabilidade
Nem que me permita fazer em alguma idiotice
O que não pude fazer quando tive 23
E mesmo que esta verdade possa doer
Tenho que dizê-la, sem compaixão
Mas se ofendo, peço perdão
Quando eu for grande, não quero ser como o senhor
Não quero que nada mais me provoque prazer
Nem quando a dor me toque me evoque o passado
Nem olhar fotos velhas e me pôr a chorar
Ou que digam o nome de alguém e eu comece a tremer
Não quero levar essa vida maltratada
Com suspeitas de culpa e ilusão desfeita
Nem lançar pestes como se fosse Apolo
Nem que me machuque em algumas datas estar só
E mesmo que isto seja mal interpretado
Não quero que creiam que é apenas por criticar
E espero que seja somente uma declaração
Porque nem eu sei se quero que queiras ser como eu
E mesmo que esta verdade possa doer
tengo que dizê-la, sem compaixão
Mas se ofendo, peço perdão
Quando eu for grande, não quero ser como o senhor
Roberto Musso
sábado, 12 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Y hay que quemar el cielo si es preciso por vivir...
Quando ele morreu, em 09 de outubro de 1967, nas florestas da Bolívia, Jean-Paul Sartre declarou: "Morreu o homem mais completo do século XX".
Seu nome e seu sobrenome são fuzil contra fuzil.
Hasta siempre...
Seu nome e seu sobrenome são fuzil contra fuzil.
Hasta siempre...
Norma Bengell
Esse blog vai terminar virando um necrológio. Mas enfim...
Hoje morreu aos 78 anos a atriz, diretora e teatróloga brasileira Norma Bengell. Abaixo, assistam a uma bela entrevista, dividida em duas partes, que ela concedeu a Antônio Abujamra no programa Provocações, da TV Cultura, e percebam alguns dos motivos de saudá-la nesse dia e sempre.
Entre tantos, ela atuou no filme O pagador de promessas (1962), com direção de Anselmo Duarte, baseado numa peça homônima de Dias Gomes. Entendam bem: poucos filmes brasileiros foram tão premiados como esse. A todos digo que é um dos melhores que já vi na vida. Todo brasileiro deveria ver, assim como digo o mesmo de Casa-Grande & Senzala na leitura. Aliás, um grupo de estudo que tentei montar tempos atrás sobre o livro de Gilberto Freyre começava por assistir a O pagador de promessas. Só rolou o filme, com a participação de um amigo. Normal. A esse tipo de coisa já estou acostumado. Pois bem. Filme e livro se aproximam e se afastam. Desde o sincretismo religioso popular aceito tacitamente pela Igreja "de porta para fora", mas que decide radicalizar ao impedir Zé do Burro (Leonardo Villar) de entrar no templo católico só porque ele fez a promessa pra Santa Bárbara, Iansã, de salvar seu burro, num terreiro de candomblé; até às disputas político-ideológicas travadas pelos outros em torno do simples desejo de cumprir a promessa do personagem naïf Zé, passando por um Brasil cuja tradição é carnavalizar tudo, para o bem ou para o mal (tomem isso no mais amplo espectro de bem e mal).
Norma Bengell fez parte, na vida e na arte, dessas realizações.
Sem mais por acrescentar.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
12 depois do 11
Em postagem anterior, já dissemos que exatamente doze dias após a morte de Allende e da queda do Chile para o fascismo, morria o poeta senador. Morreu de tristeza. Ontem, 23 de setembro, portanto há quarenta anos, morria Pablo Neruda.
Aqui leremos o seu Testamento, inscrito em seu Canto general muitos anos antes de sua morte. Aquele deixado para os mineiros do salitre, do carvão e do cobre chilenos, mas que se estende aos mineiros bolivianos de Potosí, aos milhares de nativos e negros escravos que morreram nos socavones, que cavaram a terra e deixaram em carne viva as veias de toda a América Latina. O poeta senador jamais poderia esquecer do apelo, daquele encontro com os homens do nitrato, quando um deles emergiu com um rosto inumano de uma dessas feridas e lhe rogou
Passemos então à leitura da antevista última vontade do poeta...
Testamento
I
Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
minha casa junto ao mar de Isla Negra.
Quero que ali repousem os maltratados
filhos de minha pátria, saqueada por machados e traidores,
desbaratada em seu sagrado sangue,
consumida em vulcânicos farrapos.
Quero ao límpido amor que recorra
ao meu domínio, descansem os cansados,
se sentem à minha mesa os escuros,
durmam sobre minha cama os feridos.
Irmão, esta é minha casa, entra no mundo
da flor marinha e pedra constelada
que levantei lutando em minha pobreza.
Aqui nasceu o som em minha janela
como em um crescente caracol
e logo estabeleceu suas latitudes
em minha desordenada geologia.
Tu vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te destino,
água e espaço em meu oceano.
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quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Para que nunca mais no Chile!
Para mi amiga Cristina Poblete
Não foi num 11 de setembro de 1973, aquele em que Santiago do Chile acordou assustado com o terror dos tanques e soldados na rua, dos caças da força aérea dando rasantes e fazendo chover bombas sobre o palácio de La Moneda?
Não foi essa uma tática de Estado Bandido (rough state), os EUA, que desde o primeiro momento das eleições livres e democráticas do presidente socialista Salvador Allende, ordenou que a CIA sabotasse a qualquer custo seu governo?
Aquele foi o primeiro 11 de setembro. E é para ele que agora escrevo...
Para o 11 de setembro que durou 17 anos e arrastou consigo mais de 30 mil mortos e desaparecidos. Que fez um país amargar a experiência neoliberal dos chicago boys e de Lady Tatcher como se fosse um laboratório onde o povo eram os ratos.
Que torturou e assassinou covardemente.
Que usou o Estadio Nacional como campo de concentração. Que neste mesmo estádio foi mantido preso Víctor Jara, músico, poeta e diretor de teatro e sem sombra de dúvida um dos maiores ícones da cultura chilena. Víctor foi assassinado cinco dias depois do golpe.
Escrevo para aquele que disse que la guitarra tiene sentido y razón. Para o Víctor que aprendeu com Maiakóvski que a poesia pode ser um arsenal de guerra. Para o herdeiro direto, junto com Ángel e Isabel Parra, do legado de Violeta Parra. Um cantor que foi de importância decisiva na campanha que elegeu Allende, fazendo inúmeras apresentações musicais e teatrais. Que foi empossado embaixador cultural pelo presidente.
![]() |
| Pongo en tus manos abiertas, gravado junto com Quilapayún, 1969 |
Escrevo para uma Amanda que caminhava pelas ruas molhadas para encontrar um Manuel.
Para os longínquos povoados que portavam a estrela da esperança.
Para os camponeses que entoaram uma oração clamando a um Deus bélico e justiceiro para que lhes abençoe os fuzis ao combaterem quem os oprime.
Para Miguel Enríquez, para que ele possa caminhar novamente pelas ruas de Santiago.
Para a niñita com o peito florescido de cores de amor.
Também para os padres que foram jogados em valas-comuns.
Para o poeta senador que morreu de tristeza, ou envenenado, doze dias depois do 11 de setembro. Escrevo para os livros do poeta que foram saqueados de sua casa em Valparaíso e queimados.
Escrevo para o presidente que tinha em suas mãos tão somente um AK-47 e um mandato quando se trancou no Palácio de La Moneda naquela manhã, há exatos 40 anos. Ali se entrincheirou com sua guarda pessoal decidido a resistir e enquanto os aviões e os tanques atiravam contra o prédio decidiu falar ao povo chileno pela última vez através de uma estação de rádio que funcionava ali mesmo. Não tinha ele mais, naquele instante, a mesma liberdade de dizer o que disse numa conferência na Universidade de Guadalajara, como se estivesse falando a uma classe de profissionais brasileiros de hoje:
"...há muitos médicos que não compreendem que a saúde se compra e que há milhares e milhares e milhares de homens e mulheres na América Latina que não podem comprar a saúde. (...) Para que termine esta realidade brutal, requer-se um profissional comprometido com a mudança social. Profissionais que não procurem engordar nos cargos públicos nas capitais de nossas pátrias. Que a obrigação de quem estudou aqui é não esquecer que esta é uma universidade do Estado paga pelos contribuintes! Que a imensa maioria deles são os trabalhadores e que por desgraça, nesta universidade e como nas universidades de minha pátria, a presença de filhos camponeses e de operários atinge um baixo nível mesmo assim. (...) E respeitamos o pensamento cristão quando esse pensamento cristão interpreta o verbo do Cristo que expulsou os mercadores do Templo..."
Foi preciso tanques e aviões e exércitos para abater o homem que era uma fortaleza. Suas últimas palavras, antes de cometer suicídio, foram apertadas pela pressão daqueles que ele sabia que mergulhariam o povo do Chile num labirinto de mortes e violações dos direitos humanos. Assim foi seu pronunciamento:
"Me dirijo, sobretudo, à modesta mulher de nossa terra, à camponesa que acreditou em nós; à operária que trabalhou mais, à mãe que soube de nossa preocupação pelas crianças. Me dirijo aos profissionais da pátria, aos profissionais patriotas, aos que há dias estiveram trabalhando contra a sedição auspiciada pelos Sindicatos profissionais, sindicatos de classe para defender também as vantagens que uma sociedade capitalista dá a uns poucos. Me dirijo à juventude, àqueles que cantaram, entregaram sua alegria e seu espírito de luta. Me dirijo ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos... porque em nosso país o fascismo já esteve há muitas horas presente nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando a linha férrea, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio dos que tinham a obrigação de cuidá-los: estavam comprometidos. A história os julgará."
Mas, acima de tudo, escrevo para os que eu não citei os nomes, para aqueles que não tiveram nome nem rosto, nem sepultura. Para os aglomerados, os concentrados, para aqueles cinco mil, para os mais de 30 mil, para todos em qualquer parte do mundo, de ontem, de hoje e, enquanto estes não possam ser redimidos, enquanto os opressores vençam e escrevam a história, escrevo também para os do futuro.
¡PARA QUE NUNCA MÁS EN CHILE!
Estádio
do Chile
Somos
cinco mil aqui
nesta pequena parte da cidade.
Somos cinco mil.
Quantos somos no total
nas cidades e em todo o país?
Só aqui,
dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.
Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura.
nesta pequena parte da cidade.
Somos cinco mil.
Quantos somos no total
nas cidades e em todo o país?
Só aqui,
dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.
Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura.
Seis
dos nossos se perderam
no espaço das estrelas.
Um morto, um golpeado como jamais pensei
se poderia golpear a um ser humano.
Os outros quatro quiseram livrar-se
de todos os temores,
um saltando ao vazio,
outro golpeando a cabeça contra um muro
mas todos com o olhar fixo na morte.
Que espanto produz o rosto do fascismo!
Levam até o fim seus planos com precisão sagaz
sem nada lhes importar.
O sangue para eles são medalhas.
A matança é um ato de heroísmo.
É este o mundo que criaste, Deus meu?
Para isto teus sete dias de surpresa e de trabalho?
Nestas quatro muralhas só existe um número
que não progride.
Que lentamente desejará mais a morte.
no espaço das estrelas.
Um morto, um golpeado como jamais pensei
se poderia golpear a um ser humano.
Os outros quatro quiseram livrar-se
de todos os temores,
um saltando ao vazio,
outro golpeando a cabeça contra um muro
mas todos com o olhar fixo na morte.
Que espanto produz o rosto do fascismo!
Levam até o fim seus planos com precisão sagaz
sem nada lhes importar.
O sangue para eles são medalhas.
A matança é um ato de heroísmo.
É este o mundo que criaste, Deus meu?
Para isto teus sete dias de surpresa e de trabalho?
Nestas quatro muralhas só existe um número
que não progride.
Que lentamente desejará mais a morte.
Mas tão rápido me golpeia a consciência
e vejo esta maré sem pulso
e vejo o pulso das máquinas
e os militares mostrando seu rosto de matrona
cheia de doçura.
E México, Cuba e o mundo?
Que gritem esta ignomínia!
Somos dez mil mãos
a menos que não produzem.
Quantos somos em toda a pátria?
O sangue do companheiro Presidente
golpeia mais forte que bombas e metralhadoras.
Assim golpeará nosso punho novamente.
Canto, que mal me sais
quando tenho que cantar, espanto.
Espanto como o que vivo
como o que morro, espanto.
De ver-me entre tantos e tantos
momentos de infinito
em que o silêncio e o grito
são as metas deste canto.
O que vejo nunca vi.
O que senti e o que sinto
farão brotar o momento...
Víctor Jara (último poema escrito antes de ser assassinado)
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sábado, 7 de setembro de 2013
Gilberto Freyre, o... psicanalista!
"Os juristas brasileiros precisam ser psicanalisados."
Pra não perder a viagem do dia e aproveitando o clima em que me meti para a próxima segunda e terça-feira, mando um achado de Gilberto Freyre, aos seus 85 anos, no 2º Congresso Brasileiro de Psicanálise d'A Causa Freudiana do Brasil. Não vou dizer mais nada, apenas que tirem suas conclusões.
Mas deixo uma pergunta: alguém consegue enxergar a Aura do velho?
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domingo, 11 de agosto de 2013
Presente de dia dos pais - um livro
O oficial de justiça pegou o maço todo e o entregou ao presidente.
- De que maneira esse dinheiro foi parar em suas mãos... se de fato é o mesmo dinheiro? - proferiu surpreso o presidente.
- Eu o recebi de Fulano*, o assassino, ontem. Eu o visitei antes que ele se enforcasse. Foi ele quem matou meu pai, e não meu irmão. Ele matou, e eu o ensinei a matar... Quem não deseja a morte do pai?...
- O senhor estará em seu perfeito juízo? - deixou escapar involuntariamente o presidente.
- O problema é que estou em meu perfeito juízo... e em meu torpe juízo, assim como o senhor, assim como todas essas... carrancas! - voltou-se de chofre para o público. - Mataram meu pai, mas ficam aí fingindo que estão assustados - rangeu os dentes com um desdém furioso. Cheios de nove-horas. Loroteiros! Todos desejam a morte do pai. Um réptil devora outro réptil... Não houvesse o parricídio, e todos ficariam zangados e sairiam por aí furiosos... Um circo! "Pão e circo!" Aliás, eu também sou uma boa bisca! Será que existe água aqui? dêem-me um copo, por Cristo! - subitamente pôs as mãos na cabeça.
(...)
* Suprimi o nome em respeito a quem ainda não leu o romance.
Dostoiévski, Fiódor. Os irmãos Karamázov. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2008. (Vol. 2), p. 888.
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