Coisa de
alguns anos atrás, quando estudava em Campinas, uma amiga de Goiás, que fazia
Doutorado, e eu conversávamos sobre
A
Montanha Mágica, e ela me perguntava sobre a clássica passagem com que todo sujeito
que algum dia leia esse romance precisa topar, qual seja, o encontro entre o
jovem alemão Hans Castorp e a russa de “olhos quirguizes” Clawdia Chauchat. O
inconveniente para a maioria dos leitores é que nossas edições brasileiras não
trazem uma tradução, quer fosse pelo menos como nota de fim de livro, do diálogo
entre ambos, quase todo falado em Francês – com pequenos intervalos em Alemão. E é um diálogo longo que não justifica os editores ignorarem a
necessidade de uma tradução. Pois bem. Dizia a essa amiga, na ocasião, que tive
que pular quase a totalidade da conversa, aproveitando apenas aquilo que para a
trama seria relevante, a partida de
Mme.
Chauchat no dia seguinte ao encontro. Ela lamentou me dizendo que eu perdia
muita coisa, já que o diálogo era belíssimo. Era fácil pra ela, afinal, ela
falava Francês. Ano passado, quando relia
A
Montanha Mágica, foi a mesma coisa, pulei tudo. Pura preguiça de fazer uma
tradução ao menos bizarra pelo Google Translate. Como esse é um romance que você
jamais esquece, você sempre precisa voltar à montanha, aí essa semana deu um estalo
de procurar na internet se alguma alma nobre, que houvera se apiedado de
pessoas na mesma situação que eu, traduzira a passagem. E sim, uma
historiadora,
Mariana Silveira, foi generosa conosco. Só então eu percebi, como
de fato me disse outrora minha amiga, o quão fantástico é o diálogo. O livro se
tornou ainda mais belo do que sempre me pareceu. O trabalho da colega historiadora
foi providencial. Mas como eu me dou a certos arroubos de pachorra, e parece
que historiador é dado a ser pachorrento mesmo, eu decidi completar todo o fim
do capítulo desde o momento em que Hans e Clawdia sentam-se um diante do outro,
acrescentando os trechos que foram suprimidos por não estarem em Francês. E aí,
por meio desta tradução, reli todas as falas originais, o que me
permitiu enxergar alguns problemas.
Pouquíssimos
momentos ficaram confusos, outros simplesmente foram esquecidos – ou talvez
não estivessem presentes na edição de que Mariana Silveira se valeu, a do Círculo do Livro;
a minha é da Nova Fronteira, porém ambas com tradução de Herbert Caro. Eu não
corrigi ninguém, eu apenas acrescentei e dei uma revisada segundo o contexto da
história e do instante da conversa. Se alguém tiver também a paciência de pôr
lado a lado nossos textos, verá algumas diferenças sim. A mais significativa,
já posso adiantar, é com relação ao uso dos pronomes para tratamento, coisa que
eu persegui obstinadamente na minha versão. Como se vê, Clawdia e Hans estão se
falando pela primeira vez desde que Hans
reconheceu
Clawdia. Então seria regra se tratarem no Francês por
vous, que denota respeito, afastamento. O uso do
tu nessa língua, como está no original,
significa intimidade entre os falantes. No Espanhol, por exemplo, o mesmo
fenômeno ocorre, quando se usa
usted
respeitosamente e
tú intimamente. Aí
foi quando pensei sobre como resolver esse negócio no nosso Português
brasileiro. A princípio, bastou que eu trocasse o
vous pelos
o senhor/a senhora.
Mas e quanto ao tratamento de proximidade? Acho que qualquer pessoa responderia
para que eu usasse o
você, já que
o senhor/a senhora é quase a nossa forma
de distanciamento. Mas aí eu resolvi interferir. Usei o nosso
tu. Sabemos que no Brasil é comum que esse
pronome, na comunicação do dia-a-dia, denote um afastamento nem tanto
respeitoso ou por
desconhecimento que se teria de um interlocutor, como de fato
causam
o senhor/a senhora, mas sim de
demarcação de posição frente ao acesso formal da instrução. Certo? Certo. Mas
quem tiver a paciência de ler o texto da situação aqui encontrada, verá que
o uso do
tu acentua o caráter
apaixonado e delirante de Hans Castorp. Quem nunca escreveu um bilhete, ou
carta de amor – como as outras, ridículas – sem se dirigir ao objeto de amor
por
tu? Nunca se saberá ao certo, mas
a sibilante sempre pareceu mais passional. Perguntar
você me ama? jamais será tão intenso como
tu me amas? Optei por seu uso tão somente por uma convicção
própria, o que seria um erro. Mas acho que foi uma escolha da mesma natureza da
de Hans, já que a ele lhe pareceu o Francês a língua mais adequada do que o Alemão
para delirar como em sonho.
Pensei em
contextualizar tudo para o leitor que não leu ainda o livro, para que se
situasse melhor apenas com esse diálogo. Mas aí já seria tagarelice demais e eu
não ouvi meu nome ser chamado pra compor a mesa-redonda. Vou só tentar instigar
alguém a ler esse texto enorme aí abaixo (isto é, se alguém já chegou até aqui). Até porque eu espero causar um efeito
justamente em quem não leu, o efeito do estranhamento das falas delirantes de
Hans Castorp. Tudo o que Clawdia escuta de Hans os leitores já sabemos de onde
vem, mas ela absolutamente não, por isso o que ele diz parece-lha loucura.
Havia sete meses que Hans Castorp estava no Sanatório Internacional Berghof e,
destes, mais ou menos há seis que estava completamente louco de amor por
Clawdia Chauchat, uma russa de nome afrancesado, que a princípio se lhe
apresentara bárbara e mal-educada. Eis o que se passa: era noite de terça-feira
de Carnaval, embora o título da seção do capítulo seja
Noite de Walpurgis (o
que adquire simbologia plena em todo o contexto) e todos os doentes que não
conheceram Alexander Fleming brincavam à beira do abismo. É quando, durante um joguinho,
Hans Castorp precisa de um lápis. Esse bendito lápis, e todo um
motivo de ordem psicanalítica, por assim dizer, conduzem Hans a
Clawdia. O texto abaixo começa no instante em que se sentam para conversar. Seu
êxtase se manifesta num desejo torrencial de dizer tudo de uma só vez àquela
gata quente, tudo que acumulou esse
tempo todo, desde que
a reconheceu.
Sobre esse lance de
reconhecer, que
resulta numa combinação muito bonita dentro do romance, e que quem o leu sabe
do que se trata, sobre isso não direi nada além – e na verdade já disse tudo – de
que a chave pra compreendê-lo na obra de Thomas Mann está no
motif que aparece noutra novela
sua,
Tonio Kröger; ou mesmo outros
motifs, como a insistente tentativa de
figuração/romanceamento da própria biografia através dos elementos
exóticos e
mestiços de
seu sangue, oriundos de sua mãe brasileira, Júlia da Silva Bruhns, enfim, que estão espalhados pelas suas obras. É… pagar uma
disciplina na pós-graduação sobre Thomas Mann tinha que servir ao menos pra
tagarelar. Gostaria de mandar um abraço fraterno ao Estado de São Paulo, na
figura do IEL-Unicamp, e ao MEC, na figura da CAPES.
Eu sei que ficou muito texto, tudo muito longo. Mas A Montanha Mágica é um tratado filosoficamente vívido da experiência do tempo. Então, eu aviso logo aos leitores que desistam de tentar ler tudo em menos de 7 minutos. Não sei se em menos de 7 horas seja possível… o ideal é que esqueçam de contar o tempo. Mas pelo amor de Deus, que não levem 7 dias…
Bom, e ontem, 06 de junho, foi aniversário de Paul Thomas Mann.