terça-feira, 24 de setembro de 2013

12 depois do 11

Em postagem anterior, já dissemos que exatamente doze dias após a morte de Allende e da queda do Chile para o fascismo, morria o poeta senador. Morreu de tristeza. Ontem, 23 de setembro, portanto há quarenta anos, morria Pablo Neruda.

Aqui leremos o seu Testamento, inscrito em seu Canto general muitos anos antes de sua morte. Aquele deixado para os mineiros do salitre, do carvão e do cobre chilenos, mas que se estende aos mineiros bolivianos de Potosí, aos milhares de nativos e negros escravos que morreram nos socavones, que cavaram a terra e deixaram em carne viva as veias de toda a América Latina. O poeta senador jamais poderia esquecer do apelo, daquele encontro com os homens do nitrato, quando um deles emergiu com um rosto inumano de uma dessas feridas e lhe rogou


Passemos então à leitura da antevista última vontade do poeta...

Testamento 

I

Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
minha casa junto ao mar de Isla Negra.
Quero que ali repousem os maltratados
filhos de minha pátria, saqueada por machados e traidores,
desbaratada em seu sagrado sangue,
consumida em vulcânicos farrapos.

Quero ao límpido amor que recorra
ao meu domínio, descansem os cansados,
se sentem à minha mesa os escuros,
durmam sobre minha cama os feridos.

Irmão, esta é minha casa, entra no mundo
da flor marinha e pedra constelada
que levantei lutando em minha pobreza.
Aqui nasceu o som em minha janela
como em um crescente caracol
e logo estabeleceu suas latitudes
em minha desordenada geologia.

Tu vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te destino,
água e espaço em meu oceano.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Para que nunca mais no Chile!

Para mi amiga Cristina Poblete


Não foi num 11 de setembro de 1973, aquele em que Santiago do Chile acordou assustado com o terror dos tanques e soldados na rua, dos caças da força aérea dando rasantes e fazendo chover bombas sobre o palácio de La Moneda?

Não foi essa uma tática de Estado Bandido (rough state), os EUA, que desde o primeiro momento das eleições livres e democráticas do presidente socialista Salvador Allende, ordenou que a CIA sabotasse a qualquer custo seu governo?

Aquele foi o primeiro 11 de setembro. E é para ele que agora escrevo...

Para o 11 de setembro que durou 17 anos e arrastou consigo mais de 30 mil mortos e desaparecidos. Que fez um país amargar a experiência neoliberal dos chicago boys e de Lady Tatcher como se fosse um laboratório onde o povo eram os ratos.

Que torturou e assassinou covardemente.

Que usou o Estadio Nacional como campo de concentração. Que neste mesmo estádio foi mantido preso Víctor Jara, músico, poeta e diretor de teatro e sem sombra de dúvida um dos maiores ícones da cultura chilena. Víctor foi assassinado cinco dias depois do golpe.

Escrevo para aquele que disse que la guitarra tiene sentido y razón. Para o Víctor que aprendeu com Maiakóvski que a poesia pode ser um arsenal de guerra. Para o herdeiro direto, junto com Ángel e Isabel Parra, do legado de Violeta Parra. Um cantor que foi de importância decisiva na campanha que elegeu Allende, fazendo inúmeras apresentações musicais e teatrais. Que foi empossado embaixador cultural pelo presidente.

Pongo en tus manos abiertas, gravado junto com Quilapayún, 1969


Para os longínquos povoados que portavam a estrela da esperança

Para os camponeses que entoaram uma oração clamando a um Deus bélico e justiceiro para que lhes abençoe os fuzis ao combaterem quem os oprime.


Para Miguel Enríquez, para que ele possa caminhar novamente pelas ruas de Santiago.

Para a niñita com o peito florescido de cores de amor.

Também para os padres que foram jogados em valas-comuns.

Para o poeta senador que morreu de tristeza, ou envenenado, doze dias depois do 11 de setembro. Escrevo para os livros do poeta que foram saqueados de sua casa em Valparaíso e queimados.

Escrevo para o presidente que tinha em suas mãos tão somente um AK-47 e um mandato quando se trancou no Palácio de La Moneda naquela manhã, há exatos 40 anos. Ali se entrincheirou com sua guarda pessoal decidido a resistir e enquanto os aviões e os tanques atiravam contra o prédio decidiu falar ao povo chileno pela última vez através de uma estação de rádio que funcionava ali mesmo. Não tinha ele mais, naquele instante, a mesma liberdade de dizer o que disse numa conferência na Universidade de Guadalajara, como se estivesse falando a uma classe de profissionais brasileiros de hoje:

"...há muitos médicos que não compreendem que a saúde se compra e que há milhares e milhares e milhares de homens e mulheres na América Latina que não podem comprar a saúde. (...) Para que termine esta realidade brutal, requer-se um profissional comprometido com a mudança social. Profissionais que não procurem engordar nos cargos públicos nas capitais de nossas pátrias. Que a obrigação de quem estudou aqui é não esquecer que esta é uma universidade do Estado paga pelos contribuintes! Que a imensa maioria deles são os trabalhadores e que por desgraça, nesta universidade e como nas universidades de minha pátria, a presença de filhos camponeses e de operários atinge um baixo nível mesmo assim. (...) E respeitamos o pensamento cristão quando esse pensamento cristão interpreta o verbo do Cristo que expulsou os mercadores do Templo..."

Foi preciso tanques e aviões e exércitos para abater o homem que era uma fortaleza. Suas últimas palavras, antes de cometer suicídio, foram apertadas pela pressão daqueles que ele sabia que mergulhariam o povo do Chile num labirinto de mortes e violações dos direitos humanos. Assim foi seu pronunciamento:


"Me dirijo, sobretudo, à modesta mulher de nossa terra, à camponesa que acreditou em nós; à operária que trabalhou mais, à mãe que soube de nossa preocupação pelas crianças. Me dirijo aos profissionais da pátria, aos profissionais patriotas, aos que há dias estiveram trabalhando contra a sedição auspiciada pelos Sindicatos profissionais, sindicatos de classe para defender também as vantagens que uma sociedade capitalista dá a uns poucos. Me dirijo à juventude, àqueles que cantaram, entregaram sua alegria e seu espírito de luta. Me dirijo ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos... porque em nosso país o fascismo já esteve há muitas horas presente nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando a linha férrea, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio dos que tinham a obrigação de cuidá-los: estavam comprometidos. A história os julgará."

Mas, acima de tudo, escrevo para os que eu não citei os nomes, para aqueles que não tiveram nome nem rosto, nem sepultura. Para os aglomerados, os concentrados, para aqueles cinco mil, para os mais de 30 mil, para todos em qualquer parte do mundo, de ontem, de hoje e, enquanto estes não possam ser redimidos, enquanto os opressores vençam e escrevam a história, escrevo também para os do futuro.

¡PARA QUE NUNCA MÁS EN CHILE!





Estádio do Chile


Somos cinco mil aqui
nesta pequena parte da cidade.
Somos cinco mil.
Quantos somos no total
nas cidades e em todo o país?
Só aqui,
dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.
Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura.

Seis dos nossos se perderam
no espaço das estrelas.
Um morto, um golpeado como jamais pensei
se poderia golpear a um ser humano.
Os outros quatro quiseram livrar-se
de todos os temores,
um saltando ao vazio,
outro golpeando a cabeça contra um muro
mas todos com o olhar fixo na morte.
Que espanto produz o rosto do fascismo!
Levam até o fim seus planos com precisão sagaz
sem nada lhes importar.
O sangue para eles são medalhas.
A matança é um ato de heroísmo.
É este o mundo que criaste, Deus meu?
Para isto teus sete dias de surpresa e de trabalho?
Nestas quatro muralhas só existe um número
que não progride.
Que lentamente desejará mais a morte.

Mas tão rápido me golpeia a consciência
e vejo esta maré sem pulso
e vejo o pulso das máquinas
e os militares mostrando seu rosto de matrona
cheia de doçura.
E México, Cuba e o mundo?
Que gritem esta ignomínia!
Somos dez mil mãos
a menos que não produzem.
Quantos somos em toda a pátria?
O sangue do companheiro Presidente
golpeia mais forte que bombas e metralhadoras.
Assim golpeará nosso punho novamente.


Canto, que mal me sais
quando tenho que cantar, espanto.
Espanto como o que vivo
como o que morro, espanto.
De ver-me entre tantos e tantos
momentos de infinito
em que o silêncio e o grito
são as metas deste canto.
O que vejo nunca vi.
O que senti e o que sinto
farão brotar o momento...

Víctor Jara (último poema escrito antes de ser assassinado)

sábado, 7 de setembro de 2013

Gilberto Freyre, o... psicanalista!


"Os juristas brasileiros precisam ser psicanalisados."


Pra não perder a viagem do dia e aproveitando o clima em que me meti para a próxima segunda e terça-feira, mando um achado de Gilberto Freyre, aos seus 85 anos, no 2º Congresso Brasileiro de Psicanálise d'A Causa Freudiana do Brasil. Não vou dizer mais nada, apenas que tirem suas conclusões.



Mas deixo uma pergunta: alguém consegue enxergar a Aura do velho?

domingo, 11 de agosto de 2013

Presente de dia dos pais - um livro



(...)

O oficial de justiça pegou o maço todo e o entregou ao presidente.

- De que maneira esse dinheiro foi parar em suas mãos... se de fato é o mesmo dinheiro? - proferiu surpreso o presidente.

- Eu o recebi de Fulano*, o assassino, ontem. Eu o visitei antes que ele se enforcasse. Foi ele quem matou meu pai, e não meu irmão. Ele matou, e eu o ensinei a matar... Quem não deseja a morte do pai?...

- O senhor estará em seu perfeito juízo? - deixou escapar involuntariamente o presidente.

- O problema é que estou em meu perfeito juízo... e em meu torpe juízo, assim como o senhor, assim como todas essas... carrancas! - voltou-se de chofre para o público. - Mataram meu pai, mas ficam aí fingindo que estão assustados - rangeu os dentes com um desdém furioso. Cheios de nove-horas. Loroteiros! Todos desejam a morte do pai. Um réptil devora outro réptil... Não houvesse o parricídio, e todos ficariam zangados e sairiam por aí furiosos... Um circo! "Pão e circo!" Aliás, eu também sou uma boa bisca! Será que existe água aqui? dêem-me um copo, por Cristo! - subitamente pôs as mãos na cabeça.

(...)

* Suprimi o nome em respeito a quem ainda não leu o romance.

Dostoiévski, Fiódor. Os irmãos Karamázov. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2008. (Vol. 2), p. 888.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Das tramas do sagrado



"As coisas assim a gente não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas."
João Guimarães Rosa

Depois de três anos desde que foi gravado, finalmente sai esse podcast (podiqueste?) sobre o músico, poeta e escritor baiano Elomar Figueira de Mello. Não se sabe precisamente que forças interferiram para que demorasse tanto a vir à tona. Parece mesmo que já nasceu póstumo, mas espera-se que não esteja caduco. Ei-los: Allyson Gabriel, Zé Márcio, Mário e Rondinelly. Quatro amigos diletantes, mas que se achavam no seu elemento - como diriam os Românticos -, conversaram sobre os espaços míticos ou reais, regionalidade, o ser-tanejo e uma ruma de outras coisas representadas no cancioneiro deste que é um dos maiores cavaleiros das caatingas. Na tentativa de encontrar a ponta do novelo de Ariadne eles se enredaram no labirinto trançado da ficção do Sertão Profundo.

PS: agradecimento especial ao nosso amigo Raiff Filho pela ajuda na edição.


Laço para baixar:

quarta-feira, 3 de julho de 2013

"Há esperança infinita...


"Recordo-me [Max Brod] de uma conversa com Kafka, cujo ponto de partida foi a Europa contemporânea e a decadência da humanidade. Somos, disse ele, pensamentos niilistas, pensamentos suicidas que surgem na cabeça de Deus. Essa frase evocou em mim a princípio a visão gnóstica de mundo: Deus como um demiurgo perverso, e o mundo como seu pecado original. Oh não, disse ele, nosso mundo é apenas um mau humor de Deus, um dos seus maus dias. Existiria então esperanças, fora desse mundo de aparências que conhecemos? Ele riu: há esperança suficiente, esperança infinita - mas não para nós."



A Ponte     

     Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.
    Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegurança do seu passo, mas, se ele oscilar, faça-se conhecer e como um deus da montanha, atire-o à terra firme.
     Ele veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim, depois levantou com ela as abas do meu casaco e as pôs em ordem em cima de mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois - eu estava justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale - ele saltou com os dois pés sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz sem compreender nada. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um salteador de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para vê-lo. - Uma ponte que dá voltas! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo, desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida.

In: Narrativas do Espólio. Trad. de Modesto Carone, São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 64.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Nota de rodateto

Coisa de alguns anos atrás, quando estudava em Campinas, uma amiga de Goiás, que fazia Doutorado, e eu conversávamos sobre A Montanha Mágica, e ela me perguntava sobre a clássica passagem com que todo sujeito que algum dia leia esse romance precisa topar, qual seja, o encontro entre o jovem alemão Hans Castorp e a russa de “olhos quirguizes” Clawdia Chauchat. O inconveniente para a maioria dos leitores é que nossas edições brasileiras não trazem uma tradução, quer fosse pelo menos como nota de fim de livro, do diálogo entre ambos, quase todo falado em Francês – com pequenos intervalos em Alemão. E é um diálogo longo que não justifica os editores ignorarem a necessidade de uma tradução. Pois bem. Dizia a essa amiga, na ocasião, que tive que pular quase a totalidade da conversa, aproveitando apenas aquilo que para a trama seria relevante, a partida de Mme. Chauchat no dia seguinte ao encontro. Ela lamentou me dizendo que eu perdia muita coisa, já que o diálogo era belíssimo. Era fácil pra ela, afinal, ela falava Francês. Ano passado, quando relia A Montanha Mágica, foi a mesma coisa, pulei tudo. Pura preguiça de fazer uma tradução ao menos bizarra pelo Google Translate. Como esse é um romance que você jamais esquece, você sempre precisa voltar à montanha, aí essa semana deu um estalo de procurar na internet se alguma alma nobre, que houvera se apiedado de pessoas na mesma situação que eu, traduzira a passagem. E sim, uma historiadora, Mariana Silveira, foi generosa conosco. Só então eu percebi, como de fato me disse outrora minha amiga, o quão fantástico é o diálogo. O livro se tornou ainda mais belo do que sempre me pareceu. O trabalho da colega historiadora foi providencial. Mas como eu me dou a certos arroubos de pachorra, e parece que historiador é dado a ser pachorrento mesmo, eu decidi completar todo o fim do capítulo desde o momento em que Hans e Clawdia sentam-se um diante do outro, acrescentando os trechos que foram suprimidos por não estarem em Francês. E aí, por meio desta tradução, reli todas as falas originais, o que me permitiu enxergar alguns problemas. Pouquíssimos momentos ficaram confusos, outros simplesmente foram esquecidos – ou talvez não estivessem presentes na edição de que Mariana Silveira se valeu, a do Círculo do Livro; a minha é da Nova Fronteira, porém ambas com tradução de Herbert Caro. Eu não corrigi ninguém, eu apenas acrescentei e dei uma revisada segundo o contexto da história e do instante da conversa. Se alguém tiver também a paciência de pôr lado a lado nossos textos, verá algumas diferenças sim. A mais significativa, já posso adiantar, é com relação ao uso dos pronomes para tratamento, coisa que eu persegui obstinadamente na minha versão. Como se vê, Clawdia e Hans estão se falando pela primeira vez desde que Hans reconheceu Clawdia. Então seria regra se tratarem no Francês por vous, que denota respeito, afastamento. O uso do tu nessa língua, como está no original, significa intimidade entre os falantes. No Espanhol, por exemplo, o mesmo fenômeno ocorre, quando se usa usted respeitosamente e intimamente. Aí foi quando pensei sobre como resolver esse negócio no nosso Português brasileiro. A princípio, bastou que eu trocasse o vous pelos o senhor/a senhora. Mas e quanto ao tratamento de proximidade? Acho que qualquer pessoa responderia para que eu usasse o você, já que o senhor/a senhora é quase a nossa forma de distanciamento. Mas aí eu resolvi interferir. Usei o nosso tu. Sabemos que no Brasil é comum que esse pronome, na comunicação do dia-a-dia, denote um afastamento nem tanto respeitoso ou por desconhecimento que se teria de um interlocutor, como de fato causam o senhor/a senhora, mas sim de demarcação de posição frente ao acesso formal da instrução. Certo? Certo. Mas quem tiver a paciência de ler o texto da situação aqui encontrada, verá que o uso do tu acentua o caráter apaixonado e delirante de Hans Castorp. Quem nunca escreveu um bilhete, ou carta de amor – como as outras, ridículas – sem se dirigir ao objeto de amor por tu? Nunca se saberá ao certo, mas a sibilante sempre pareceu mais passional. Perguntar você me ama? jamais será tão intenso como tu me amas? Optei por seu uso tão somente por uma convicção própria, o que seria um erro. Mas acho que foi uma escolha da mesma natureza da de Hans, já que a ele lhe pareceu o Francês a língua mais adequada do que o Alemão para delirar como em sonho.
Pensei em contextualizar tudo para o leitor que não leu ainda o livro, para que se situasse melhor apenas com esse diálogo. Mas aí já seria tagarelice demais e eu não ouvi meu nome ser chamado pra compor a mesa-redonda. Vou só tentar instigar alguém a ler esse texto enorme aí abaixo (isto é, se alguém já chegou até aqui). Até porque eu espero causar um efeito justamente em quem não leu, o efeito do estranhamento das falas delirantes de Hans Castorp. Tudo o que Clawdia escuta de Hans os leitores já sabemos de onde vem, mas ela absolutamente não, por isso o que ele diz parece-lha loucura. Havia sete meses que Hans Castorp estava no Sanatório Internacional Berghof e, destes, mais ou menos há seis que estava completamente louco de amor por Clawdia Chauchat, uma russa de nome afrancesado, que a princípio se lhe apresentara bárbara e mal-educada. Eis o que se passa: era noite de terça-feira de Carnaval, embora o título da seção do capítulo seja Noite de Walpurgis (o que adquire simbologia plena em todo o contexto) e todos os doentes que não conheceram Alexander Fleming brincavam à beira do abismo. É quando, durante um joguinho, Hans Castorp precisa de um lápis. Esse bendito lápis, e todo um motivo de ordem psicanalítica, por assim dizer, conduzem Hans a Clawdia. O texto abaixo começa no instante em que se sentam para conversar. Seu êxtase se manifesta num desejo torrencial de dizer tudo de uma só vez àquela gata quente, tudo que acumulou esse tempo todo, desde que a reconheceu. Sobre esse lance de reconhecer, que resulta numa combinação muito bonita dentro do romance, e que quem o leu sabe do que se trata, sobre isso não direi nada além – e na verdade já disse tudo – de que a chave pra compreendê-lo na obra de Thomas Mann está no motif que aparece noutra novela sua, Tonio Kröger; ou mesmo outros motifs, como a insistente tentativa de figuração/romanceamento da própria biografia através dos elementos exóticos e mestiços de seu sangue, oriundos de sua mãe brasileira, Júlia da Silva Bruhns, enfim, que estão espalhados pelas suas obras. É… pagar uma disciplina na pós-graduação sobre Thomas Mann tinha que servir ao menos pra tagarelar. Gostaria de mandar um abraço fraterno ao Estado de São Paulo, na figura do IEL-Unicamp, e ao MEC, na figura da CAPES.
Eu sei que ficou muito texto, tudo muito longo. Mas A Montanha Mágica é um tratado filosoficamente vívido da experiência do tempo. Então, eu aviso logo aos leitores que desistam de tentar ler tudo em menos de 7 minutos. Não sei se em menos de 7 horas seja possível… o ideal é que esqueçam de contar o tempo. Mas pelo amor de Deus, que não levem 7 dias…
Bom, e ontem, 06 de junho, foi aniversário de Paul Thomas Mann.