E ele ainda se preocupa com ruas e estradas? Se um Fiat 147 passa por dificuldades nas ruas e rodovias brasileiras, imaginem esse bichão? Talvez em São Paulo, na Bandeirantes, ele trafegue beleza. O único incômodo seria dos pedágios: não para pagar, porque quem dá 1,5 milhão não se importa com os R$ 6,10 deles; mas de parar mesmo, ou reduzir a velocidade naquele sistema do Via Fácil. Multa por excesso de velocidade também nem arranha a pintura do carro.
Outro comentário, mais instrutivo para os leitores do saite da Veja e da revista em geral, é esse, de Cristian:
"Comprem [quem, eu?] pela WT Import de Curitiba, vai sair mais barato, 1.5 milhão de reais é um absurdo [ainda bem que ele não perdeu todo o bom senso].http://www.wtimport.com. As ditas oficiais pensam que são as únicas que podem importar. Uma importadora não oficial pode trazer um modelo novo dos Estados Unidos onde os carros custam os mesmos valores mas em dólares, e têm menos sobrecarga de impostos."
Isso tá me enchendo.
Mas prestem atenção, meus amigos. Eu não estou aqui, como falei, despertando ódio de classe. O cidadão que possua dinheiro suficiente, que compre seu Lamborghini; ou, pro caso de uma Ferrari, que tenha a grana e o pedigree exigidos pelo "cavalinho". Eu juro que não tenho absolutamente algo contra. O que eu acho muito louco é o pessoal da Veja noticiar a queda na venda de um veículo daquele porte como indicador de afetação da crise global no Brasil. O país piorou porque de 15, caiu para 4 o número de Lambor... (esse nome já me chateou!). E isso é uma tragédia. Então, se tivesse aumentado a venda, o Brasil estaria ótimo. Né isso? O ideal da Veja, e de muitos seus leitores, é de que, por exemplo, o IDH inclua quantidade de Lamborghinis circulando num país como dado preponderante? Então perdemos muito tempo discutindo questões acessórias sobre os problemas da realidade brasileira quando o grande "muído" no Brasil, descobrimos graças à Veja, é que não temos Lamborghinis suficiente para todos. Então, o governo Lula está arbitrariamente errando, ora pois, em agenciar o Bolsa-Família... devemos parar com a distribuição de renda promovida pelo Estado. Bolsa-Lamborghini já! Para os que não puderam e para os que nunca, jamais, poderiam comprar! Quem sabe José Serra, paladino da Veja, abraça a causa e lança no plano de governo do PSDB? Serviria também como qualificador positivo da política externa, já que esse programa tiraria a fábrica da Lamborghini do aperto finaceiro. Serra poderia aproveitar e criar o "Minha Mansão, Minha Vida" para as pessoas que moram no Jardim Romano, nos morros cariocas ou nos mucambos do Recife.
E não me estranharia se assim o fosse. Esse pessoal vive num mundo tão à parte, nas suas Alphavilles que até pensam que os problemas de quem vive nas suas Alphavelas (em Campinas-SP) são idênticos. Porque eu lembro de Lu Alckmin, esposa do Homem-Chuchu (PSDB), quando foi investigada por receber 400 vestidos, cada um entre 3 a 5 mil contos, disse que doou todos para a caridade. Ela, como uma Maria Antonieta desconhecedora dos hábitos alimentares do povo francês (por causa da história dos brioches), achava que o problema dos pobres é que os molambos que vestem não tinham a assinatura de um designer podre de chique. Há que se lembrar que a ex-primeira-daminha também foi investigada por envolvimento no escândalo de sonegação fiscal da famosíssima Daslu. Estima-se que, somada toda sorte de sonegação da loja, 1 bilhão de Reais deixou de ser arrecadado aos cofres públicos (quantos Lamborghinis se compra com isso?). Passei em frente, só uma vez, à Daslu, na companhia de minha amiga Sueli. É construção suntuosa. Lembra o Senado romano. Bem de frente há uma rampa de acesso a um viaduto e embaixo eu vi uma família vivendo na Idade da Pedra.
Pois bem. Estou pouco me lixando para quantos carros de 1,5 milhão o brasileiro pôde ou não comprar ou que a fábrica da Lamborghini perdeu clientes no Brasil. Isso não indica porcaria alguma. Tornar isso notícia com status de importância é estúpido. Vou lhes dar mais um exemplo. Aqui na Paraíba, até onde se sabe, só existe uma Ferrari circulando. Seria a Paraíba um Estado pobre por esse motivo? Pertence ao filho do proprietário de famoso shopping de João Pessoa. O pessoal que pega horário do rush pesado na avenida Epitácio Pessoa até brinca dizendo que ultrapassou a Ferrari de Fulano e ele não pôde fazer nada. E aí? Vou lamentar que não haja mais dessas por aqui? Devo lamentar também que não haja aquelas folhas outonais dos bosques de Modena caindo na estrada, se espalhando ao vento com a passagem espetacular do bólido vermelho, como nas propagandas? É esse, de verdade, um dado significativo de como a atual crise mexe num país como o Brasil? A resposta, não deixem de ver no Manhattan Connection.
Excurso: há um modelo ainda mais barato do Lamborghini, made in China.