Mostrando postagens com marcador A Montanha Mágica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A Montanha Mágica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Noite de Walpurgis (tecla SAP)

Se precisar, leia a postagem logo acima...

Todos os textos em itálico estão originalmente em Francês.




(…) Colocou, para Mme. Chauchat, uma poltrona forrada de pelúcia, no lugar que antes assinalara pantomimicamente. Para si mesmo apossou-se de uma cadeira de vima, de braços redondos, e que gemeu e rangeu, quando nela se sentou. Inclinou-se para Mme. Chauchat, apoiando os cotovelos nos braços da poltrona, com a lapiseira na mão e com os pés para trás, embaixo da cadeira. Ela, por sua vez, afundou-se no estofamento coberto de pelúcia; seus joelhos achavam-se muito elevados, mas apesar disso, cruzou as pernas e balançou um dos pés, cujo tornozelo, acima da margem do sapato de verniz preto, desenhava-se sob a seda igualmente preta da meia. À sua frente estavam sentadas outras pessoas, que se levantavam para dançar e cediam o lugar a outras, cansadas. Era um constante vaivém.
- Estás com um vestido novo – disse Hans Castorp, para ter o direito de olhá-la, e ouviu como ela respondia:
- Novo? Então conheces meu vestuário?
- Tenho ou não tenho razão?
- Tens, sim. Mandei fazê-lo aqui, recentemente, no Lukacek, na aldeia. Ele trabalha muito para as senhoras daqui. O vestido te agrada?
- Muito – respondeu ele, envolvendo-a mais uma vez no seu olhar, antes de baixar os olhos. – Queres dançar? – acrescentou.
- E tu, gostarias? – perguntou ela, sorrindo, com as sobrancelhas alçadas, ao que ele replicou:
- Gostaria, sim, se tivesses vontade.
- És mais levadinho do que eu pensava – observou ela, e quando ele se riu desdenhosamente, acrescentou: ­– Teu primo já se foi?
- Pois é, é meu primo – confirmou Hans Castorp sem necessidade. – Eu também notei que ele não está mais aqui. Acho que já se recolheu.
- É um homem jovem muito fechado, muito honesto, muito alemão.
- Fechado? Honesto? – repetiu ele. – Entendo o francês muito melhor do que falo. Queres dizer que ele é um pedante. Achas que os alemães são pedantes, nós Alemães?
- Nós zombamos de seu primo. Mas é verdade, vocês são um pouco burgueses. Vocês amam a ordem melhor que a liberdade, toda a Europa o sabe.
- Amar... amar... o que é isso? Falta uma definição a essa palavra. Um ama, outro possui, como nós dizemos proverbialmente – afirmou Hans Castorp e prosseguiu: ­ Nos últimos tempos meditei às vezes sobre a liberdade. Isto é: ouvi esta palavra com tanta frequência, que me fez refletir. Eu te direi em Francês o que pensei a respeito. Isso que toda a Europa chama de liberdade pode ser uma coisa tão pedante e tão burguesa em comparação à nossa necessidade de ordem – é isso!
- É divertido. É a teu primo que tu pensas em dizer coisas estranhas como essa?
- Não, é realmente uma boa alma, uma natureza singela, cujo espírito não corre nenhum perigo, tu sabes. Mas ele não é burguês, ele é militar.
- Não corre perigo? Repetiu ela com alguma dificuldade… – Tu queres dizer: uma natureza firme, certa de si mesma? Mas ele está seriamente doente, teu pobre primo.
- Quem te disse isto?
- Aqui a gente anda bem informada sobre os outros.
- O dr. Behrens te disse isto?
- Pode ser, me fazendo ver esses quadros (chapas de radiografia).
- Quer dizer: fazendo teu retrato!
- Por que não? Achaste bom, meu retrato?
- Mas sim, extremamente. Behrens restituiu exatamente tua pele, oh realmente, muito fielmente. Eu adoraria ser retratista, também, para ter a oportunidade de estudar tua pele como ele.
- Fala em Alemão, por favor!
- Oh, eu falo Alemão também quando falo Francês. É uma forma de estudo artístico e médico – em uma palavra: trata-se de “literatura”, tu compreendes. E então, não queres dançar?
- Não. Acho isso pueril. Discrição de médicos. Assim que Behrens voltar, todos cairão sobre as cadeiras. Isso será fortemente ridículo.
- Tens tanto respeito a ele?
- A quem? – disse ela, pronunciando a interrogação com uma brevidade exótica.
- A Behrens.
- Mas vai então com teu Behrens! Além disso falta espaço para dançar. E depois sobre o tapete... Vamos ver como dançam os outros.
- Pois sim, vamos – concordou ele, e pôs-se a olhar, sentado junto dela, com o rosto pálido; os olhos azuis que tinham a expressão pensativa do avô observavam os saracoteios dos enfermos disfarçados, no salão e na biblioteca. A Irmã Muda saltitava com o Joãozinho Azul; a sra. Salomon, fantasiada de cavalheiro engalanado, de casaca e colete branco, com uma camisa engomada de peito saliente, com um bigode pintado e com um monóculo, girava nos saltinhos altos dos seus sapatos de verniz, que, inauturalmente, saíam por baixo das calças de homem; seu par era o pierrô, cujos lábios luziam num vermelho de sangue no rosto caiado, e cujos olhos se pareciam com os de um coelho albino. O grego de mantilha requebrava suas pernas harmoniosas, revistas de ceroulas violeta, em torno de Rasmussen, decotado e resplandecente de lantejoulas escuras. O promotor público, no seu quimono, a sra. Wurmbrand e o jovem Gänser dançavam juntos, a três, mantendo-se abraçados, ao passo que a sra. Stör bailava com a sua vassoura que apertava contra o coração, e cujas crinas acariciava como se fossem a cabeleira hirsuta de um homem.
- Vamos, sim – repetiu Hans Castorp mecanicamente. Falavam baixinho, no meio dos sons do piano. – Vamos sentar-nos aqui e olhar como num sonho. Para mim, isto é um sonho, sabes? estarmos sentados assim – como um sonho singularmente profundo, pois é necessário dormir muito profundamente para sonhar dessa forma... Eu quero dizer: é um sonho bem conhecido, sonho de todo tempo, longo, eterno, sim, estar sentado perto de ti como agora, olha, é a eternidade.
- Poeta! – disse ela. – Burguês, humanista e poeta – eis um alemão ao completo, como deve ser.
- Eu não acredito que nós sejamos de tudo e nada como devemos ser – replicou ele. – Sob nenhum aspecto. Talvez não passemos de filhos enfermiços da vida, simplesmente.
- Bonita palavra. Diz-me então... Não teria sido difícil sonhar esse sonho mais cedo. É um pouco tarde que o Senhor resolve endereçar a palavra a seu pobre servo.
- Por que essas palavras? – disse ele. – Por que falar? Falar, discorrer, é uma coisa bem republicana, eu o concedo. Mas eu duvido que isso seja poético ao mesmo grau. Um de nossos hóspedes, que se tornou um pouco meu amigo, Senhor Settembrini...
- Ele lança sobre ti algumas palavras.
- Bem, é um grande falador, sem dúvida, ele gosta muito mesmo é de recitar belos versos – mas esse homem é um poeta?
- Eu não me lembro sinceramente de ter tido o prazer de conhecer esse cavalheiro.
- Eu o conheço bem.
- Ah! Tu o conheces?
- Como? Era uma frase indiferente, a que eu disse aqui. Eu, tu o percebes bem, eu não falo habitualmente o Francês. No entanto, para contigo eu prefiro essa língua à minha, pois para mim falar Francês é falar sem falar, de alguma forma – sem responsabilidade, ou como nós falamos no sonho. Tu compreendes?
- Um pouco.
- É suficiente... falar – continuou Hans Castorp – pobre paixão! Na eternidade, a gente não fala nada. Na eternidade, tu sabes, a gente faz como se imitando um pequeno porco: a gente pende a cabeça para trás e fecha os olhos.
- Nada mal, isso! Tu estás na tua casa na eternidade, sem nenhuma dúvida, tu a conheces a fundo. É necessário admitir que tu és um pequeno sonhador um tanto curioso.
- E ainda – disse Hans Castorp –, se eu tivesse falado mais cedo, teria sido necessário que eu te tratasse por “a senhora”!
- Bem, tens a intenção de me tratar por “tu” para sempre?
- Mas claro. Eu sempre te tratei por “tu” e assim te tratarei eternamente.
- É um pouco forte, por exemplo. Em todo caso, tu não terás por muito tempo a oportunidade de me tratar por “tu”. Eu vou partir.
A palavra custou a lhe penetrar a consciência. Em seguida, ele sobressaltou-se, lançando em redor de si olhares confusos, como faz quem é despertado de repente. Sua conversa desenvolvera-se com certa lentidão, porque Hans Castorp falava o francês de modo lerdo, como que numa meditação vacilante. O piano, que se calara durante algum tempo, voltou a ressoar, agora sob as mãos do rapaz de Mannheim, que substituíra o jovem eslavo e colocara na estante um álbum de músicas. A srta. Engelhart estava sentada a seu lado e virava as folhas. A assistência do baila já se tornara menos numerosa. Grande parte dos pensionistas parecia ter adotado a posição horizontal [no contexto da história, significa que se recolheram ao repouso]. Ninguém mais se achava nas poltronas à sua frente. Na biblioteca, alguns jogavam cartas.
- Que vais fazer? – perguntou Hans Castorp, consternado…
- Eu vou partir – repetiu ela, aparentemente surpreendida pelo seu aspecto estarrecido.
- Não é possível – disse ele. – Estás apenas brincando.
- Nem um pouquinho. Estou falando com a mais absoluta seriedade. Partirei.
- Quando?
- Ora, amanhã. Depois do jantar.
Um cataclismo de vastas dimensões produziu-se nele. Depois, disse:
- Aonde vais?
- Muito longe daqui.
- A Daghestan?
- Tu não estás mal instruído. Pode ser, por enquanto…
- Estás, então, curada?
- Quanto a isso... não. Mas Behrens acha que no momento não se pode fazer grande coisa aqui. É porque eu vou arriscar uma pequena mudança de ar.
- De maneira que voltarás?
- Isto não se sabe. Sobretudo não sei quando. – Quanto a mim, tu sabes, eu amo a liberdade antes de tudo e notadamente a de escolher meu domicílio. Tu não compreendes apenas o que é isso: ser obcecada pela independência. É de minha raça, talvez.
- E teu marido em “Daghestan” está de acordo? Tua liberdade?
- É doença que me a restitui. Já é a terceira vez que venho a esse lugar. Eu passei um ano aqui, dessa vez. É possível que eu volte. Mas aí então tu estarás bem longe há muito tempo.
- Achas, Clawdia?
- Meu primeiro nome também! Realmente tu levas bem a sério os costumes do Carnaval.
- Será que sabes até que grau estou doente?
- Sim... não... como a gente sabe estas coisas aqui. Tu tens uma pequena mancha úmida por dentro e um pouco de febre, não é?
- Trinta e sete e oito ou 9 à tarde – explicou Hans Castorp. – E tu?
- No meu caso, tu sabes, é um pouco mais complicado... não tão simples.
- Há alguma coisa nesse ramo das ciências humanas chamado medicina – Disse Hans Castorp – que a gente chama obstrução tuberculosa dos vasos linfáticos.
- Ah! Tu apontaste, meu bem, a gente logo vê.
- E tu?… Perdão. Deixa que agora te pergunte uma coisa, com insistência e em alemão: naquele dia, quando me levantei da mesa, para ir ao exame médico, faz seis meses… Tu te voltaste para me olhar… Ainda te lembras?
- Que pergunta! Já faz 6 meses.
- Tu sabias aonde eu ia?
- Certamente.
- Soubeste do Behrens?
- Sempre este Behrens!
- Oh, ele representou tua pele de maneira totalmente exata. É também um viúvo que possui um serviço de café bastante notável... Eu acredito que ele conhece teu corpo não somente como médico, mas também como adepto de uma outra disciplina das ciências humanas.
- Tu decididamente tens razão de dizer que falas como em sonho, meu amigo.
- Que seja... Deixa-me sonhar de novo após ter me despertado tão cruelmente por esse alarme da tua partida. Sete meses sob teus olhos...e ao presente, ou em realidade eu te conheci, tu me falas em partida.
- Repito que poderíamos ter conversado mais cedo.
- Terias gostado?
- Eu? Tu não me escaparás, meu pequeno. Trata-se de teus interesses. Tu estavas muito tímido para se aproximar de uma mulher a quem tu falas em sonho agora, ou será que havia alguém que te impediu?
- Eu te disse. Eu não te tratarei mais por “senhora”.
- Falsário! Responde então – este senhor, bom orador, este italiano que deixou a noite – o que ele te lançou?
- Eu não entendi absolutamente nada do que tu quiseste dizer. Incomodo-me muito pouco deste senhor, quando meus olhos te vêem. Mas tu esqueces... não teria sido tão fácil te conhecer nesse mundo. Havia ainda meu primo com quem estava ligado e que se inclina muito pouco a se divertir aqui: ele não pensa em nada a não ser voltar às planícies para tornar-se soldado.
- Pobre diabo. Ele está, de fato, mais doente do que ele pensa. Teu amigo italiano de resto não vai muito bem não.
- Ele mesmo o disse. Mas meu primo... Isso é verdade? Tu me apavoras.
- É bem possível que ele morra, se tentar ser soldado nas planícies.
- Que ele vá morrer. A morte. Palavra terrível, não é? Mas é estranho, esta palavra não me impressiona tanto hoje em dia. Era uma forma de falar bem convencional, quando dizia: “tu me apavoras”. A ideia da morte não me apavora. Ela me deixa tranquilo. Eu não tenho piedade – nem de meu bom Joachim nem de mim mesmo, entendendo que ele talvez vá morrer. Se for verdade, seu estado parece muito com o meu e eu não o acho particularmente imponente. Ele está moribundo, e eu estou apaixonado, bem...Tu falaste com meu primo no atelier de fotografia íntima [no caso, radiografia], antessala, lembras-te?
- Lembro-me um pouco.
- Então, nesse dia Behrens fez teu retrato transparente.
- Mas sim.
- Meu Deus! E tu o tens contigo?
- Não, eu o tenho no meu quarto.
- Ah, no teu quarto. Quanto ao meu, o tenho sempre dentro da carteira. Queres que eu mostre-o a ti?
- Muito obrigada. Minha curiosidade não é invencível. Este seria um aspecto muito inocente.
- Eu vi teu retrato exterior. Eu adoraria mais ainda ver teu retrato interior que está fechado dentro do teu quarto... Deixa-me pedir outra coisa! Talvez um senhor russo que mora na cidade venha te ver. Quem é? Com que objetivo este homem vem vê-la?
- Tu és belamente forte em espionagem, eu o confesso. E bem, eu respondo. Sim, é um compatriota sofrente, um amigo. Eu o conheci em uma outra estação balneária, já faz alguns anos. Nossa relação? Vamos lá: nós tomamos chá juntos, nós fumamos dois ou três “papiros”, e nós conversamos, nós filosofamos, nós falamos do homem, de Deus, da vida, da moral, de milhares de coisas. Aí está. Estás satisfeito?
- Da moral também! E o que é que pensaste, de fato, sobre a moral, por exemplo?
- A moral? Isso te interessa? Bem, parece que será necessário procurar a moral não na virtude, quer dizer, não na razão, na disciplina, nos bons modos, na honestidade – mas sobretudo no contrário, eu quero dizer: no pecado; se lançando ao perigo, ao que é nocivo, àquilo que nos consome. Parece-nos que é mais moral se perder e mesmo se deixar debilitar do que se conservar. Os grandes moralistas não são virtuosos, mas aventureiros no mal, nos vícios, nos grandes pecados que tentam nos inclinar cristianamente diante da miséria. Tudo isso deve te desagradar muito, não é?



Ele permanecia calado. Estava ainda sentado da mesma forma de antes, com os pés cruzados muito para trás, sob o assento. Inclinava-se para frente em direção à mulher reclinada com o tricórnio de papel. Tinha entre os dedos a lapiseira que pertencia a ela. Com os olhos tão azuis como os de Hans Lorenz Castorp, o jovem fitava a sala que se esvaziara. Os pensionistas haviam-se dispersado. O piano, no canto diagonalmente oposto, não deixava ouvir senão alguns nos suaves e espaçados, produzidos com uma mão só pelo enfermo de Mannheim, a cujo lado se achava a professora, folheando um tomo de músicas que tinha sobre os joelhos. Quando se interrompeu a conversa entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat, o pianista cessou de tocar, deitando no colo também a mão que até então acariciava o teclado. A srta. Englehart prosseguiu estudando as notas. Os quatro únicos remanescentes da festa carnavalesca conservaram-se imóveis. Os silêncio prolongou-se por alguns minutos. Sob o seu peso baixaram-se lenta e cada vez mais profundamente as cabeças do par sentado junto do piano, a do jovem de Mannheim em direção ao piano, e a da srta. Engelhart para o álbum de músicas. Por fim, como se se tivessem posto secretamente de acordo, levantaram-se suavemente, nas pontas dos pés, e evitando lançar um olhar para o outro canto da sala, com a cabeça baixa e os braços rigidamente pendurados, sumiram-se o rapaz de Mannheim e a professora, pela sala de correspondência.
- Todo mundo se retira – disse Madame Chauchat. – Eram os últimos; já é tarde. Bem, a festa de Carnaval acabou. – E ergueu os braços a fim de tirar com as duas mãos o gorro de papel do cabelo arruivado, cuja trança cercava a cabeça qual uma coroa. – Sabe as consequências, senhor.
Mas Hans Castorp fez que não, com os olhos fechados, sem modificar, de resto, a sua posição.
- Jamais, Clawdia – respondeu. – Jamais eu te trataria por “senhora”, jamais na vida nem na morte, se é que se pode dizer assim; deveria ser possível. Essa forma de se dirigir a uma pessoa, que é aquela do Ocidente culto e da civilização humanitária, me parece fortemente burguêsa e pedante. Para quê, no fundo, a formalidade? A formalidade, é a pedantice ela mesma! Tudo o que tu disseste a respeito da moral, tu e teu compatriota sofrente – tu queres seriamente que isso me surpreenda? Por qual tipo de idiota tu me tomas? O que tu pensas de mim?
- É um sujeito que não dá muito a pensar. Tu és um bom homem conveniente, de boa família, de desejos tênues, discípulo dócil de seus preceptores e que voltará logo às planícies, para esquecer completamente que falou em sonho aqui e para ajudar seu grande país com seu trabalho honesto sobre os canteiros. Eis tua fotografia íntima, feita sem aparelho. Achas que estou certa, sim?
- Faltam-lhe alguns detalhes que Behrens teria encontrado.
- Ah, os médicos de hoje em dia, se eles soubessem….
- Tu falas como o Senhor Settembrini. E minha febre? De onde ela vem?
- Bem, é um incidente sem consequências graves e que passará rápido.
- Não, Clawdia, tu bem sabes que o que dizes aqui não é verdade, e tu o dizes sem convicção, eu estou certo disso. A febre do meu corpo e os batimentos do meu coração arrasam e fazem tremer os meus membros, é o contrário de um incidente, pois não é outra coisa – e seu rosto pálido, com os lábios trêmulos, inclinou-se ainda mais para o rosto da mulher – senão o meu amor por ti, sim, esse amor que me possuiu no instante em que meus olhos te viram, ou, sobretudo, em que eu reconheci, quando eu te reconheci – e foi ele, evidentemente, que me guiou a esse lugar...
- Que delírio!
- Oh! O amor não é nada se não for um delírio, uma coisa insensata, uma defesa e uma aventura pelo mal. Por outro lado, é uma banalidade agradável, perfeita para que façamos dos nossos planos pequenas canções possíveis. Mas quanto a isso de eu ter te reconhecido e reconhecido em ti meu amor – sim, é verdade, eu já te conhecia, antigamente, tu e teus olhos maravilhosamente oblíquos e tua boca e tua voz, com aquela tua fala – já uma vez, quando eu era estudante, eu te pedi teu lápis, para enfim te conhecer mundanamente, porque eu te amava irracionalmente, e é isso, sem dúvida são meu antigo amor por ti essas manchas que Behrens achou no meu corpo, e que indicam também que estava mal…
Seus dentes batiam. Enquanto ia divagando, retirou um pé de sob o assento rangente. Ao avançar esse pé, tocou o chão com o outro joelho, de maneira que se ajoelhava diante dela, com a cabeça baixa e o corpo todo trêmulo. – Eu te amo – balbuciou – eu te amei todo o tempo, pois tu és o sentido da minha vida, meu sonho, meu destino, meu eterno desejo...
- Vamos, vamos! – disse ela. – Se teus preceptores te vêem...
Mas Hans Castorp sacudiu a cabeça, desolado, com o rosto junto ao tapete, e respondeu:
- Eu não me importaria, eu não me importo com Carducci e a República eloquente e o progresso humano no tempo, pois eu te amo!
Ela acariciou-lhe suavemente com a mão os cabelos aparados da nuca.
- Pequeno burguês! – disse. – Belo burguês de pequena mancha úmida. É verdade que tu me amas tanto?
E arrebatado por esse contato, já sobre ambos os joelhos, com a cabeça deitada para trás e com os olhos fechados, continuou ele a falar:
- Oh, o amor, tu sabes... O corpo, o amor, a morte, esses três não se separam. Pois o corpo é a doença e a volúpia, e é ele que faz a morte, sim, eles são sensuais os dois, o amor e a morte, e seus terrores e sua grande magia! Mas a morte, tu compreendes, é, de um lado, uma coisa difamada, insolente, que nos faz corar e nos envergonha; e por outro lado é uma pulsação muito solene e muito majestosa – maior que a vida risonha de ganhar dinheiro e de encher a barriga – muito mais venerável que o progresso que tagarela pelo tempo – porque ela é a história e a nobreza e a piedade e o eterno e o sagrado que nos faz tirar o chapéu e andar com as pontas dos pés... Mesmo o corpo, ele também, e o amor do corpo, são uma relação indecente e prejudicial, e o corpo de superfície avermelhada e pálida por medo e humilhação de si mesmo. Mas também ele é uma grande glória adorável, imagem miraculosa da vida orgânica, santa maravilha da forma e da beleza, e o amor para ele, para o corpo humano, é mesmo um interesse extremamente humanitário e um poder mais educativo que toda a pedagogia do mundo!... Oh, encantadora beleza orgânica que não se compõe nem de tintura a óleo nem de pedra, mas de matéria viva e corruptível, cheia de segredo febril da vida e da podridão! Vê a simetria maravilhosa do edifício humano, os ombros e as ancas e os seios floridos de uma parte à outra sobre o peito, e as costelas arrumadas por pares, e o umbigo ao meio na moleza do ventre, e o sexo obscuro entre as coxas! Olha as omoplatas se movimentarem sobre a pele brilhante do dorso, e a coluna que desce na direção das nádegas frescas e luxuriantes, e os grandes galhos de vasos e nervos que passam do tronco aos ramos dos pulmões, e como a estrutura dos braços correspondem àquela das pernas. Oh, as doces regiões da junção interior do cotovelo e do joelho com sua abundância de delicadeza orgânica sobre suas almofadas de carne! Que festa imensa acariciar esses lugares deliciosos do corpo humano! Festa para morrer sem se queixar depois! Sim, meu deus, deixa-me sentir o cheiro da pele da articulação, sobre a qual a engenhosa cápsula articula secretamente seu óleo deslizante! Deixa-me tocar devotamente de minha boca a Artéria do fêmur que bate em frente à coxa e que divide mais abaixo as duas artérias da tíbia! Deixa-me sentir a exalação de teus poros e apalpar teus pelos, imagem humana de água e de albumina, destinada à anatomia do túmulo, e deixa-me perecer, os meus lábios nos teus!
Não abriu os olhos, depois de ter terminado de falar. Permaneceu sem se mover, com a cabeça deitada para trás, estendendo as mãos com a lapiseira de prata, estremecendo e vacilando sobre os joelhos. Ela disse:
- Tu és realmente um galã que sabe implorar de uma maneira profunda, no Alemão!
E lhe pôs na cabeça o gorro de papel.
- Adeus, meu príncipe de Carnaval! Tu terás uma crise de febre essa noite, eu ta predigo.
Com essas palavras, resvalou da cadeira, deslizou pelo tapete, rumo à porta, sob cujo umbral hesitou um instante, meio voltada, levantando um dos braços nus, com a mão a repousar no gonzo. Por cima do ombro disse baixinho:
- Não te esqueças de me devolver meu lápis.
E saiu.

--------------------------------------------------

Excurso: no dia seguinte, antes de partir, Clawdia deu a Hans sua radiografia.



Mann, Thomas. A Montanha Mágica. Trad. Herbert Caro. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000 (p. 457-469).
Com suporte da tradução dos trechos em Francês de Mariana Silveira em: http://agarrandooconceito.blogspot.com.br/2009/03/montanha-magica-thomas-mann-trechos-em.html
Com imagens do filme Der Zauberberg (1982), ao qual assiste quem quiser (Charles Aznavour pra interpretar Leo Naphta é inconcebível! Justamente Naphta!)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O delírio de Hans

Um parque estendia-se a seus pés, sob a sacada onde ele se encontrava; um vasto parque de luxuriante verdor, formado de árvores frondosas – olmos, plátanos, faias, bordos, bétulas – levemente matizadas quanto ao colorido da folhagem abundante, fresca, lustrosa, com as copas agitando-se num suave sussurro. Um ar delicioso, úmido, embalsamado pelas árvores, envolvia a região. Um aguaceiro quente vinha se abatendo, mas a chuva parecia iluminada. Até as alturas do céu via-se a atmosfera resplandecer de gotinhas cintilantes. Que beleza! Ah, esse sopro do torrão natal, o aroma e a plenitude da planície, depois de tão prolongada privação! O ar ressoava com vozes de aves, pios, silvos, gorjeios, chilidos e soluços, cheios de fervor, de graça e de doçura, sem que se enxergasse um único passarinho. Hans Castorp sorriu, respirando gratamente. E o quadro tornava-se ainda mais belo. Um arco-íris curvava-se sobre um lado da paisagem, um arco-íris completo e nítido, puro na sua magnificência, com o brilho úmido de todas as suas cores, que, untuosas como óleo, inundavam o verde espesso e reluzente. Mas isso parecia música, era como o som intenso de harpas, mesclado de flautas e violinos! O azul e o violeta, sobretudo, espalhavam-se maravilhosamente. Tudo se confundia com eles, como por um feitiço, transformando-se, evoluindo de modo sempre novo e cada vez mais belo. Lembrava aquele dia, anos atrás, quando Hans Castorp tivera ensejo de ouvir um cantor de fama mundial, um tenor italiano, de cuja garganta partiam sons de uma arte benéfica e de uma força abençoada, inundando os corações dos homens. Sustentara esse homem uma nota aguda, linda desde o começo; aos poucos, porém, de momento a momento, a harmonia apaixonada descortinara-se, ampliara-se, tomando volume, iluminara-se com um esplendor mais e mais deslumbrante. Um a um, os véus que antes ninguém percebera se haviam desfeito; caíra mais um, o último, revelando, segundo o pensamento de todos, a luz suprema, a luz mais pura, mas seguira outro e ainda outro – incrível! –, o derradeiro, desencadeando tamanha exuberância e de perfeição banhada em lágrimas, que um rumor surdo de arrebatamento, soando quase como um protesto ou uma objeção, elevava-se do seio da multidão. Ele próprio, o jovem Hans Castorp, fora tomado de soluços. E o mesmo lhe acontecia agora, em face dessa paisagem que se metamorfoseava, se desdobrava em progressiva transfiguração. O azul a pairar em toda parte... Os véus luzentes da chuva iam caindo. Eis que surgiu o mar, um mar, o mar do Sul, de um azul profundo e saturado, refulgindo de luzes argentinas, com uma belíssima enseada a abrir-se vaporosa, para um lado, enquanto o outro estava engastado em montanhas de azul cada vez mais pálido. No meio da baía emergiam ilhas, onde cresciam palmeiras e resplandeciam casinhas brancas por entre bosques de ciprestes. Oh, oh! Era demais. Ele não merecia tudo isso. Que bem-aventurança de luz, de absoluta pureza do céu, de frescor de águas ensolaradas! Hans Castorp jamais vira aquilo, nem coisa semelhante. Nas suas viagens de férias mal passara pelas regiões do Sul. Conhecia o mar áspero, o mar cinzento, ao qual se apegava com sentimentos vagos e pueris. Mas nunca chegara a ver o Mediterrâneo, Nápoles, a Sicília ou a Grécia. E todavia recordava-se. Sim, por estranho que pareça, o que Hans Castorp fazia nesse momento era reconhecer. “Ah, sim! É isso!”, exclamou nele uma voz, como se tivesse levado no seu coração, desde tempos imemoriais, às escondidas e sem confessá-lo a si próprio, toda essa alegria azul, irradiada pelo sol. E esses “tempos imemoriais” eram vastos, infinitamente vastos, tal e qual o mar que se abria à sua esquerda, ali onde o céu, num tom delicado de violeta, descia até às águas.

O horizonte era alto; o espaço dava a idéia de elevar-se, o qual se devia ao fato de Hans Castorp ver o golfo de cima, de certa altura. Em forma de promontórios abraçavam-no as montanhas coroadas de selvas; entravam no mar, retrocediam em semicírculo, do centro do quadro, até o ponto onde se encontrava o jovem e mais longe ainda. Era uma costa rochosa, em cujos degraus de pedra aquecidos pelo sol se achava acocorado. À sua frente inclinava-se a ribeira pedregosa, escadeada, coberta de musgos e brenhas, até uma praia plena, onde o cascalho, por entre os juncos, formava angras azuladas, pequenos portos e lagoas avançadas. E essa região banhada pelo sol, essas ribas de fácil acesso, essas bacias risonhas no meio de rochedos, bem como o mar até as ilhas distantes entre as quais iam e vinham embarcações – tudo estava povoado. Homens, filhos do Sol e do mar, mexiam-se ou repousavam em toda parte, uma humanidade bela e jovem, sensata e jovial, tão agradável de se ver que o coração de Hans Castorp se dilatava todo num sentimento amplo, quase doloroso, de amor.

Mancebos adestravam cavalos; corriam, com a mão no cabresto, ao lado dos animais que trotavam relinchando e sacudindo a cabeça; montavam-nos sem sela e forçavam-nos a entrar na água, batendo com os calcanhares desnudos os flancos da cavalgadura, enquanto os músculos das espáduas, sob a pele trigueira, jogavam ao sol. Os gritos que trocavam entre si ou dirigiam às montanhas tinham qualquer coisa de mágico. À margem de uma enseada que penetrava profundamente na terra firme, e cujas ribanceiras se espelhavam como num lago alpino, havia raparigas dançando. Uma delas, cujos cabelos atados na nuca tinham um encanto singular, estava sentada, com os pés enterrados numa concavidade do solo, e tocava uma flauta pastoril. Por cima dos dedos ágeis, seus olhos vagavam em direção às companheiras, que, nos seus largos e flutuantes vestidos, executavam os passos da dança, ora isoladas, sorridentes, com os braços abertos, ora aos pares, com as frontes graciosamente coladas uma na outra. Atrás das costas da flautista, costas alvas, longas, delgadas, que a posição dos braços tornava redondas, viam-se outras irmãs, sentadas ou em pé, de mãos dadas, conversando calmamente e contemplando a cena. À maior distância, alguns jovens exercitavam-se no tiro de arco. Que aprazível e ameno quadro! Os mais velhos ensinavam a uns adolescentes de cabelos encaracolados como retesar o arco e apontá-lo ao alvo; rindo, amparavam os novatos cambaleantes sob o rechaço da corda, quando a seta se desprendia dela como um sussurro. Outros pescavam com anzol. Achavam-se de bruços nas lajes dos penedos da costa, com uma das pernas balouçando no ar, enquanto mergulhavam a linha na água. Palestrando calmamente voltavam a cabeça para o vizinho, que reclinava o corpo para lançar muito longe a isca. Ainda outros estavam ocupados em transportar ao mar, arrastando, empurrando, levantando, um barco de alto bordo, provido de mastro e vergas. Crianças brincavam e exultavam no meio da rebentação. Uma jovem mulher, estendida no solo, de costas, olhava para trás, enquanto com uma das mãos apertava contra os seios o vestido floreado, e com a outra, avidamente, procurava alcançar um fruto ornado de folhas, que um moço de ancas estreitas, de pé atrás dela, brincando lhe oferecia e retirava. Havia vultos recostados nos nichos dos rochedos. Outros hesitavam à beira d'água, experimentando-lhe o frescor com a ponta do pé e segurando os ombros com os braços cruzados. Alguns casais passeavam ao longo da praia, e perto da orelha da rapariga encontrava-se a boca de quem a guiava carinhosamente. Cabras felpudas saltavam de rocha em rocha, guardadas por um jovem pastor que se quedava sobre uma elevação, com uma mão na cintura, apoiando a outra num comprido cajado; um chapeuzinho de abas dobradas para trás cobria-lhe os crespos cabelos castanhos.

“Mas isso é um encanto!”, pensou Hans Castorp com toda a sinceridade. “É realmente delicioso e cativante! Como eles são formosos, sadios, sensatos e felizes! Sim, não somente têm beleza, mas também seriedade e graça íntima. É isso o que tanto me comove e faz com que me apaixone por eles: o espírito e a mentalidade que formam a base do seu ser e lhes determinam a união e a convivência!” Referia-se àquela grande amabilidade e as considerações iguais para todos, que os filhos do Sol usavam nas suas relações recíprocas. Estava ali um respeito natural, escondido sob o sorriso que uns demonstravam aos outros, a cada passo, um respeito manifestado quase imperceptivelmente, e que todavia tinha a sua raiz numa formação comum a todos, numa idéia arraigada neles. Havia até um quê de dignidade e de rigor, mas todo diluído na alegria, e que se tornava sensível nos seus atos somente em forma de certa inefável influência espiritual, fundada numa seriedade nada sombria e numa piedade razoável, embora não faltasse a tudo isso o lado cerimonioso. Pois ali, numa pedra redonda coberta de musgo, estava sentada uma jovem mãe, que retirara de um dos ombros o vestido pardo e saciava a sede do filhinho. E todos que andavam perto dela saudavam-na de um modo especial que resumia tudo quanto ficava tão expressamente inexprimido na atitude geral dessas criaturas. Os jovens, voltando-se para a mãe, cruzavam ligeiramente os braços sobre o peito, num gesto rápido e formal, e inclinavam a cabeça com um sorriso. As moças apenas esboçavam uma genuflexão, semelhante àquela com que os devotos na igreja passam pelo altar-mor; mas, ao mesmo tempo, faziam-lhe cordiais, alegres e vivos sinais com a cabeça, e essa mistura de reverência comedida e de amizade jovial, assim como a vagarosa brandura com que a mãe, que apertava o seio com o indicador, para ajudar o pequerrucho, tirava dele os olhos e retribuía os cumprimentos com outro sorriso – tudo isso arrebatava a alma de Hans Castorp. Não se cansava de olhar e, contudo, se perguntava, angustiado, se lhe era permitido olhar, se esse ato de encarar aquela felicidade civilizada, cheia de sol, não era um crime para ele, o intruso, que se sentia lerdo com seus sapatos, e falto de nobreza e garbo.

Parecia não haver inconveniente. Um belo menino, cuja espessa cabeleira penteada para um lado avançava da testa sobre a fronte, achava-se embaixo do lugar onde Hans Castorp estava sentado. Com os braços cruzados sobre o peito, mantinha-se distante dos companheiros, sem dar mostras de tristeza ou de rancor, senão apenas de perfeita calma. E o rapaz divisou Hans Castorp; fixou nele o olhar, e seus olhos passaram entre o homem que estava à espreita e as imagens da praia, espiando o espia. De repente, porém, levantou a vista, enxergando ao longe, por cima do estranho, e de um instante para outro desapareceu do lindo rosto de linhas clássicas, ainda meio pueris, o sorriso comum a toda essa gente que tinha a sua origem numa consideração cortês e fraternal. Sem que o cenho se tivesse anuviado, assomou-lhe no semblante uma gravidade como que pétrea, inexpressiva, insondável um retraimento frio como a morte, que encheu o mal sossegado Hans Castorp de pálido terror, mesclado de um vago pressentimento da significação dessa atitude.

Também ele virou a cabeça... Poderosas colunas sem base, compostas de blocos cilíndricos e de cujas junturas brotava musgo, erguiam-se atrás dele; as colunas de um pórtico de templo, até o qual conduziam duas escadarias, com um vão entre si. Hans Castorp encontrava-se sentado num dos degraus. Com o coração opresso, levantou-se, desceu a escada, dirigindo-se para o lado, e entrou numa extensa galeria. Atravessou-a e seguiu um caminho lajeado que o conduziu até outros propileus. Passou também por estes e defronte de si viu o templo maciço, cinzento-esverdeado, corroído pela inclemência do tempo. Escadas íngremes guarneciam o fundamento. O largo frontão repousava sobre os capitéis de vigorosas e quase atarracadas colunas, que se adegalçavam para cima, e em cuja estrutura um ou outro dos tambores canelados, que se deslocara, formava uma saliência lateral. Laboriosamente, às vezes recorrendo ao apoio das mãos, por entre suspiros que lhe arrancava a crescente angústia do coração, Hans Castorp galgou os altos degraus e alcançou a floresta das colunas do peristilo. Esta era muito profunda, e o jovem passeou por ela como por entre os troncos de um bosque de faias à beira do mar descorado. Evitou penetrar-lhe no âmago e esquivou-se do centro. Mas terminou voltando-se para ele e chegou ao lugar onde se separavam as fileiras de colunas. Ali deparou com um grupo de estátuas, duas figuras de mulheres talhadas em pedra, sobre um pedestal, mãe e filha, segundo parecia; uma, sentada, mais idosa, mais digna, muito branda e divina, mas com sobrancelhas lamentosas acima dos olhos vazios, sem pupilas, trajava uma túnica flutuante, um manto pregueado e um véu que lhe cobria os cabelos ondulados de matrona; a outra, de pé, abraçada maternalmente pela primeira, com um rosto redondo de donzela, ocultava os braços e as mãos juntas na dobras do vestido.

Enquanto Hans Castorp contemplava o grupo, o seu coração, por motivos obscuros, fazia-se ainda mais pesado mais temeroso e mais opresso de presságios. Mal se animava e, contudo, se via forçado a contornar as figuras para franquear, atrás delas, a segunda colunata dupla. Aí encontrou aberta a porta brônzea do santuário, e os joelhos do pobre jovem quase que cederam diante do espetáculo que se lhe oferecia aos olhos estarrecidos. Duas mulheres grisalhas, seminuas, de cabelos desgrenhados, com seios pendentes de bruxa e mamelões do comprimento de um dedo, entregavam-se, lá dentro, no meio de chamejantes braseiros, a manipulações horrorosas. Por cima de uma bacia esquartejavam uma criancinha. Dilaceravam-na com as mãos, num furioso silêncio – Hans Castorp divisou os finos cabelos louros poluídos de sangue –, e devoravam os pedaços. Os frágeis ossinhos estalavam entre as suas presas, e o sangue pingava dos lábios selvagens. Um pavor gélido paralisou Hans Castorp. Fez menção de tapar os olhos com as mãos e não conseguiu. Quis fugir e não pôde. E elas acabavam de descobri-lo, no meio da sua atividade abominável. Agitaram os punhos ensanguentados, ralhando sem voz, mas com extrema vulgaridade, em termos obscenos, na gíria da terra de Hans Castorp. Este se sentiu mal, pior do que nunca. Desesperadamente esforçou-se para sair do lugar – e na mesma posição em que, durante essa tentativa, caíra de lado junto a uma coluna, encontrou-se na neve, ao pé do galpão, deitado sobre um braço, com a cabeça encostada e as pernas providas de esquis estendidas à sua frente. Ainda lhe ecoavam nos ouvidos aquelas vozes surdas, proferindo invectivas medonhas, e o terror glacial que se apoderara dele continuava a possuí-lo.

No entanto, não chegou a acordar, no sentido próprio da palavra. Apenas piscou os olhos, aliviado por se ver livre dessas megeras atrozes. Mas não tinha certeza e também pouco lhe importava saber se se achava estatelado junto a uma coluna de templo ou a um galpão. Em certo sentido prosseguia sonhando, se não em imagens, ao menos em pensamentos, porém de forma não menos atrevida e curiosa.

“Logo vi que isso era um sonho!” devaneou de si para si. “Um sonho encantador e pavoroso. No fundo o percebia desde o começo. Tudo foi concepção minha, o parque de árvores frondosas e a chuva deliciosa e todo o resto, as imagens lindas e monstruosas. Quase que o sabia de antemão. Mas como é possível saber uma coisa dessas e concebê-la para si mesmo, tornando-se a um tempo feliz e perplexo? Donde tirei aquele belo golfo semeado de ilhas e depois o recinto do templo, ao qual me seguiram os olhares do simpático rapaz que se mantinha isolado? Sou tentado a dizer que não extraímos os sonhos unicamente da nossa própria alma. Sonhamos anônima e coletivamente, embora de forma individual. A grande alma, da qual tu não és mais do que uma partícula, talvez sonhe às vezes através de ti, à tua maneira. Sonha com coisas que sempre lhe enchem os sonhos secretos: sua juventude, sua esperança, sua felicidade e sua paz, e também a sua ceia sangrenta. Aqui me acho ao pé da minha coluna e ainda sinto em mim os vestígios reais do meu sonho, o horror frio que experimentei ante a ceia sangrenta, e também a alegria íntima originada pelas cenas anteriores, quando vi a felicidade e os costumes piedosos da humanidade branca. Cabe-me – afirmo eu –, tenho o genuíno direito de me deitar aqui e de me entregar a esse tipo de sonhos. Fiquei sabendo muita coisa no convívio com a gente daqui, sobre a deserção e a razão. Perdi-me com Naphta e Settembrini numa montanha perigosíssima. Sei tudo a respeito do homem; conheci a sua carne; devolvi o lápis de Pribislav Hippe à enferma Clawdia. Mas quem conhece o corpo e a vida, conhece a morte. Isso, entretanto, não é tudo, mas apenas o começo, pedagogicamente falando. É preciso acrescentar a outra metade, o oposto. Pois todo o interesse pela morte e pela doença não passa de uma forma de se exprimir aquele que se tem pela vida, como demonstra a humanística Faculdade de Medicina, que sempre se dirige à vida e à sua enfermidade num latim muito cortês e não é senão um matiz desse grande e urgentíssimo assunto cujo nome pronuncio com a maior simpatia: é o filho enfermiço da vida, é o homem, com seu estado e sua posição. Não o desconheço; aprendi muito aqui em cima; desde a planície, deixei-me arrastar a tamanhas alturas que quase perdi o fôlego. Mas agora, do pé da minha coluna, abre-se-me uma vista nada má... Sonhei com a posição do homem e sua comunidade polida, sisuda e respeitosa, a cujas costas se passava, no interior do templo, a medonha ceia sangrenta. Será que os filhos do Sol se tratavam uns aos outros com tanta cortesia e amabilidade, precisamente na recordação silenciosa daquela atrocidade? Nesse caso tirariam um conclusão muito sutil e elegante. Quero, com toda a minha alma, aderir a eles e não a Naphta, nem tampouco a Settembrini. Ambos são charlatões. Um é devasso e malicioso, ao passo que o outro não deixa de tocar a corneta da razão e imagina ser capaz de desenlouquecer os próprios doidos, o que me parece absurdo. É o espírito filisteu, é mera ética, é irreligiosidade, disso tenho certeza. Mas também não desejo tomar o partido do pequeno Naphta, com sua religião que é apenas um guazzabuglio de Deus e do diabo, do bem e do mal, que só serve para fazer o indivíduo atirar-se de cabeça, a fim de mergulhar misticamente no todo. Esses dois pedagogos! Suas próprias divergências e oposições não passam de um guazzabuglio e de um confuso fragor de batalha, que não pode aturdir a quem tiver o cérebro mais ou menos livre e o coração piedoso. A questão da aristocracia! A distinção! Vida ou morte, enfermidade ou saúde, alma e natureza – há oposição entre elas? Eu pergunto se constituem problemas. Não! Não são problemas, e tampouco o é o tal problema da sua distinção. A deserção da morte está encerrada na vida; sem ela não haveria vida, e a posição do Homo Dei acha-se no meio, entre a deserção e a razão, entre a coletividade mística e o individualismo inconsistente. É o que percebo da minha coluna. Nessa sua posição cumpre-lhe viver de um modo fino e galante, e manter relações de amistoso respeito consigo próprio; pois só ele é distinto, e não as oposições. O homem é o dono das oposições, que existem por seu intermédio, e por conseguinte ele é mais nobre do que elas. Mais nobre do que elas, mais nobre do que a morte, demasiado nobre para ela, e isto constitui a liberdade do seu cérebro. Mais nobre do que a vida, demasiado nobre para ela, e isto constitui a piedade do seu coração. Eis que acabo de fazer um poema, um devaneio poético sobre o homem. Quero lembrar-me dele. Quero ser bom. Não quero conceder à morte nenhum poder sobre os meus pensamentos! Nisso é que consiste a bondade e a filantropia, e em nada mais. A morte é uma grande potência. As pessoas tiram o chapéu e avançam a passo cadenciado, nas pontas dos pés, quando ela está perto. Usa a cerimoniosa golilha do passado, e todos se vestem gravemente de preto em sua honra. Diante dela, a razão parece tola, porque é apenas virtude, ao passo que a morte é liberdade, deserção, amorfia e volúpia. A volúpia – clama o meu sonho – não o amor! A morte e o amor, não, isto não rima; eles dão um poema insípido e falso! O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte do que ela. Só ele, e não a razão, inspira pensamentos bondosos. Também a forma não consta senão de amor e de bondade, a forma e a civilização de uma coletividade sensata e amável e de um belo Estado humano, na recordação silenciosa da ceia sangrenta. Ah, sim, isto se chama sonhar com clareza e “reger” bem! Quero lembra-me disso! Quero conservar o meu coração fiel à morte e, contudo, recordar-me claramente de que a fidelidade à morte e ao passado é apenas malvadez, tenebrosa volúpia e hostilidade aos homens, quando determina os nossos pensamentos e atos de governo. Em consideração à bondade e ao amor, o homem não deve conceder à morte nenhum poder sobre os seus pensamentos. E com isso vou acordar... Pois eu segui meu sonho até o fim. Alcancei o meu objetivo. Há muito que eu procurava esta idéia, no lugar em que me apareceu Hippe, no meu compartimento de sacada, e em toda parte. A minha busca me levou às montanhas cobertas de neve. Agora a possuo. Meu sonho ma revelou com tanta nitidez, que sempre a guardarei na memória. Sim, ela me encanta e me dá calor. Meu coração bate com força e sabe por quê. Não pulsa somente por razões físicas, assim como as unhas de um cadáver continuam crescendo; pulsa de um modo humano e certo, devido ao espírito feliz. É como uma poção, esta idéia do meu sonho, melhor do que vinho do Porto ou cerveja inglesa. Circula pelas minhas veias como o amor e a vida, e me induz a arrancar-me do sono e dos devaneios, que, como não ignoro, põem em gravíssimo perigo a minha jovem vida... Levanta-te, levanta-te! Abre os olhos! Essas pernas aí na neve são os teus próprios membros! Domina-te e coloca-te de pé! Olha só, faz bom tempo!”

MANN, Thomas. A Montanha Mágica. Tradução Herbert Caro. – 2 ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. (p. 668-678).