sexta-feira, 7 de junho de 2013

Noite de Walpurgis (tecla SAP)

Se precisar, leia a postagem logo acima...

Todos os textos em itálico estão originalmente em Francês.




(…) Colocou, para Mme. Chauchat, uma poltrona forrada de pelúcia, no lugar que antes assinalara pantomimicamente. Para si mesmo apossou-se de uma cadeira de vima, de braços redondos, e que gemeu e rangeu, quando nela se sentou. Inclinou-se para Mme. Chauchat, apoiando os cotovelos nos braços da poltrona, com a lapiseira na mão e com os pés para trás, embaixo da cadeira. Ela, por sua vez, afundou-se no estofamento coberto de pelúcia; seus joelhos achavam-se muito elevados, mas apesar disso, cruzou as pernas e balançou um dos pés, cujo tornozelo, acima da margem do sapato de verniz preto, desenhava-se sob a seda igualmente preta da meia. À sua frente estavam sentadas outras pessoas, que se levantavam para dançar e cediam o lugar a outras, cansadas. Era um constante vaivém.
- Estás com um vestido novo – disse Hans Castorp, para ter o direito de olhá-la, e ouviu como ela respondia:
- Novo? Então conheces meu vestuário?
- Tenho ou não tenho razão?
- Tens, sim. Mandei fazê-lo aqui, recentemente, no Lukacek, na aldeia. Ele trabalha muito para as senhoras daqui. O vestido te agrada?
- Muito – respondeu ele, envolvendo-a mais uma vez no seu olhar, antes de baixar os olhos. – Queres dançar? – acrescentou.
- E tu, gostarias? – perguntou ela, sorrindo, com as sobrancelhas alçadas, ao que ele replicou:
- Gostaria, sim, se tivesses vontade.
- És mais levadinho do que eu pensava – observou ela, e quando ele se riu desdenhosamente, acrescentou: ­– Teu primo já se foi?
- Pois é, é meu primo – confirmou Hans Castorp sem necessidade. – Eu também notei que ele não está mais aqui. Acho que já se recolheu.
- É um homem jovem muito fechado, muito honesto, muito alemão.
- Fechado? Honesto? – repetiu ele. – Entendo o francês muito melhor do que falo. Queres dizer que ele é um pedante. Achas que os alemães são pedantes, nós Alemães?
- Nós zombamos de seu primo. Mas é verdade, vocês são um pouco burgueses. Vocês amam a ordem melhor que a liberdade, toda a Europa o sabe.
- Amar... amar... o que é isso? Falta uma definição a essa palavra. Um ama, outro possui, como nós dizemos proverbialmente – afirmou Hans Castorp e prosseguiu: ­ Nos últimos tempos meditei às vezes sobre a liberdade. Isto é: ouvi esta palavra com tanta frequência, que me fez refletir. Eu te direi em Francês o que pensei a respeito. Isso que toda a Europa chama de liberdade pode ser uma coisa tão pedante e tão burguesa em comparação à nossa necessidade de ordem – é isso!
- É divertido. É a teu primo que tu pensas em dizer coisas estranhas como essa?
- Não, é realmente uma boa alma, uma natureza singela, cujo espírito não corre nenhum perigo, tu sabes. Mas ele não é burguês, ele é militar.
- Não corre perigo? Repetiu ela com alguma dificuldade… – Tu queres dizer: uma natureza firme, certa de si mesma? Mas ele está seriamente doente, teu pobre primo.
- Quem te disse isto?
- Aqui a gente anda bem informada sobre os outros.
- O dr. Behrens te disse isto?
- Pode ser, me fazendo ver esses quadros (chapas de radiografia).
- Quer dizer: fazendo teu retrato!
- Por que não? Achaste bom, meu retrato?
- Mas sim, extremamente. Behrens restituiu exatamente tua pele, oh realmente, muito fielmente. Eu adoraria ser retratista, também, para ter a oportunidade de estudar tua pele como ele.
- Fala em Alemão, por favor!
- Oh, eu falo Alemão também quando falo Francês. É uma forma de estudo artístico e médico – em uma palavra: trata-se de “literatura”, tu compreendes. E então, não queres dançar?
- Não. Acho isso pueril. Discrição de médicos. Assim que Behrens voltar, todos cairão sobre as cadeiras. Isso será fortemente ridículo.
- Tens tanto respeito a ele?
- A quem? – disse ela, pronunciando a interrogação com uma brevidade exótica.
- A Behrens.
- Mas vai então com teu Behrens! Além disso falta espaço para dançar. E depois sobre o tapete... Vamos ver como dançam os outros.
- Pois sim, vamos – concordou ele, e pôs-se a olhar, sentado junto dela, com o rosto pálido; os olhos azuis que tinham a expressão pensativa do avô observavam os saracoteios dos enfermos disfarçados, no salão e na biblioteca. A Irmã Muda saltitava com o Joãozinho Azul; a sra. Salomon, fantasiada de cavalheiro engalanado, de casaca e colete branco, com uma camisa engomada de peito saliente, com um bigode pintado e com um monóculo, girava nos saltinhos altos dos seus sapatos de verniz, que, inauturalmente, saíam por baixo das calças de homem; seu par era o pierrô, cujos lábios luziam num vermelho de sangue no rosto caiado, e cujos olhos se pareciam com os de um coelho albino. O grego de mantilha requebrava suas pernas harmoniosas, revistas de ceroulas violeta, em torno de Rasmussen, decotado e resplandecente de lantejoulas escuras. O promotor público, no seu quimono, a sra. Wurmbrand e o jovem Gänser dançavam juntos, a três, mantendo-se abraçados, ao passo que a sra. Stör bailava com a sua vassoura que apertava contra o coração, e cujas crinas acariciava como se fossem a cabeleira hirsuta de um homem.
- Vamos, sim – repetiu Hans Castorp mecanicamente. Falavam baixinho, no meio dos sons do piano. – Vamos sentar-nos aqui e olhar como num sonho. Para mim, isto é um sonho, sabes? estarmos sentados assim – como um sonho singularmente profundo, pois é necessário dormir muito profundamente para sonhar dessa forma... Eu quero dizer: é um sonho bem conhecido, sonho de todo tempo, longo, eterno, sim, estar sentado perto de ti como agora, olha, é a eternidade.
- Poeta! – disse ela. – Burguês, humanista e poeta – eis um alemão ao completo, como deve ser.
- Eu não acredito que nós sejamos de tudo e nada como devemos ser – replicou ele. – Sob nenhum aspecto. Talvez não passemos de filhos enfermiços da vida, simplesmente.
- Bonita palavra. Diz-me então... Não teria sido difícil sonhar esse sonho mais cedo. É um pouco tarde que o Senhor resolve endereçar a palavra a seu pobre servo.
- Por que essas palavras? – disse ele. – Por que falar? Falar, discorrer, é uma coisa bem republicana, eu o concedo. Mas eu duvido que isso seja poético ao mesmo grau. Um de nossos hóspedes, que se tornou um pouco meu amigo, Senhor Settembrini...
- Ele lança sobre ti algumas palavras.
- Bem, é um grande falador, sem dúvida, ele gosta muito mesmo é de recitar belos versos – mas esse homem é um poeta?
- Eu não me lembro sinceramente de ter tido o prazer de conhecer esse cavalheiro.
- Eu o conheço bem.
- Ah! Tu o conheces?
- Como? Era uma frase indiferente, a que eu disse aqui. Eu, tu o percebes bem, eu não falo habitualmente o Francês. No entanto, para contigo eu prefiro essa língua à minha, pois para mim falar Francês é falar sem falar, de alguma forma – sem responsabilidade, ou como nós falamos no sonho. Tu compreendes?
- Um pouco.
- É suficiente... falar – continuou Hans Castorp – pobre paixão! Na eternidade, a gente não fala nada. Na eternidade, tu sabes, a gente faz como se imitando um pequeno porco: a gente pende a cabeça para trás e fecha os olhos.
- Nada mal, isso! Tu estás na tua casa na eternidade, sem nenhuma dúvida, tu a conheces a fundo. É necessário admitir que tu és um pequeno sonhador um tanto curioso.
- E ainda – disse Hans Castorp –, se eu tivesse falado mais cedo, teria sido necessário que eu te tratasse por “a senhora”!
- Bem, tens a intenção de me tratar por “tu” para sempre?
- Mas claro. Eu sempre te tratei por “tu” e assim te tratarei eternamente.
- É um pouco forte, por exemplo. Em todo caso, tu não terás por muito tempo a oportunidade de me tratar por “tu”. Eu vou partir.
A palavra custou a lhe penetrar a consciência. Em seguida, ele sobressaltou-se, lançando em redor de si olhares confusos, como faz quem é despertado de repente. Sua conversa desenvolvera-se com certa lentidão, porque Hans Castorp falava o francês de modo lerdo, como que numa meditação vacilante. O piano, que se calara durante algum tempo, voltou a ressoar, agora sob as mãos do rapaz de Mannheim, que substituíra o jovem eslavo e colocara na estante um álbum de músicas. A srta. Engelhart estava sentada a seu lado e virava as folhas. A assistência do baila já se tornara menos numerosa. Grande parte dos pensionistas parecia ter adotado a posição horizontal [no contexto da história, significa que se recolheram ao repouso]. Ninguém mais se achava nas poltronas à sua frente. Na biblioteca, alguns jogavam cartas.
- Que vais fazer? – perguntou Hans Castorp, consternado…
- Eu vou partir – repetiu ela, aparentemente surpreendida pelo seu aspecto estarrecido.
- Não é possível – disse ele. – Estás apenas brincando.
- Nem um pouquinho. Estou falando com a mais absoluta seriedade. Partirei.
- Quando?
- Ora, amanhã. Depois do jantar.
Um cataclismo de vastas dimensões produziu-se nele. Depois, disse:
- Aonde vais?
- Muito longe daqui.
- A Daghestan?
- Tu não estás mal instruído. Pode ser, por enquanto…
- Estás, então, curada?
- Quanto a isso... não. Mas Behrens acha que no momento não se pode fazer grande coisa aqui. É porque eu vou arriscar uma pequena mudança de ar.
- De maneira que voltarás?
- Isto não se sabe. Sobretudo não sei quando. – Quanto a mim, tu sabes, eu amo a liberdade antes de tudo e notadamente a de escolher meu domicílio. Tu não compreendes apenas o que é isso: ser obcecada pela independência. É de minha raça, talvez.
- E teu marido em “Daghestan” está de acordo? Tua liberdade?
- É doença que me a restitui. Já é a terceira vez que venho a esse lugar. Eu passei um ano aqui, dessa vez. É possível que eu volte. Mas aí então tu estarás bem longe há muito tempo.
- Achas, Clawdia?
- Meu primeiro nome também! Realmente tu levas bem a sério os costumes do Carnaval.
- Será que sabes até que grau estou doente?
- Sim... não... como a gente sabe estas coisas aqui. Tu tens uma pequena mancha úmida por dentro e um pouco de febre, não é?
- Trinta e sete e oito ou 9 à tarde – explicou Hans Castorp. – E tu?
- No meu caso, tu sabes, é um pouco mais complicado... não tão simples.
- Há alguma coisa nesse ramo das ciências humanas chamado medicina – Disse Hans Castorp – que a gente chama obstrução tuberculosa dos vasos linfáticos.
- Ah! Tu apontaste, meu bem, a gente logo vê.
- E tu?… Perdão. Deixa que agora te pergunte uma coisa, com insistência e em alemão: naquele dia, quando me levantei da mesa, para ir ao exame médico, faz seis meses… Tu te voltaste para me olhar… Ainda te lembras?
- Que pergunta! Já faz 6 meses.
- Tu sabias aonde eu ia?
- Certamente.
- Soubeste do Behrens?
- Sempre este Behrens!
- Oh, ele representou tua pele de maneira totalmente exata. É também um viúvo que possui um serviço de café bastante notável... Eu acredito que ele conhece teu corpo não somente como médico, mas também como adepto de uma outra disciplina das ciências humanas.
- Tu decididamente tens razão de dizer que falas como em sonho, meu amigo.
- Que seja... Deixa-me sonhar de novo após ter me despertado tão cruelmente por esse alarme da tua partida. Sete meses sob teus olhos...e ao presente, ou em realidade eu te conheci, tu me falas em partida.
- Repito que poderíamos ter conversado mais cedo.
- Terias gostado?
- Eu? Tu não me escaparás, meu pequeno. Trata-se de teus interesses. Tu estavas muito tímido para se aproximar de uma mulher a quem tu falas em sonho agora, ou será que havia alguém que te impediu?
- Eu te disse. Eu não te tratarei mais por “senhora”.
- Falsário! Responde então – este senhor, bom orador, este italiano que deixou a noite – o que ele te lançou?
- Eu não entendi absolutamente nada do que tu quiseste dizer. Incomodo-me muito pouco deste senhor, quando meus olhos te vêem. Mas tu esqueces... não teria sido tão fácil te conhecer nesse mundo. Havia ainda meu primo com quem estava ligado e que se inclina muito pouco a se divertir aqui: ele não pensa em nada a não ser voltar às planícies para tornar-se soldado.
- Pobre diabo. Ele está, de fato, mais doente do que ele pensa. Teu amigo italiano de resto não vai muito bem não.
- Ele mesmo o disse. Mas meu primo... Isso é verdade? Tu me apavoras.
- É bem possível que ele morra, se tentar ser soldado nas planícies.
- Que ele vá morrer. A morte. Palavra terrível, não é? Mas é estranho, esta palavra não me impressiona tanto hoje em dia. Era uma forma de falar bem convencional, quando dizia: “tu me apavoras”. A ideia da morte não me apavora. Ela me deixa tranquilo. Eu não tenho piedade – nem de meu bom Joachim nem de mim mesmo, entendendo que ele talvez vá morrer. Se for verdade, seu estado parece muito com o meu e eu não o acho particularmente imponente. Ele está moribundo, e eu estou apaixonado, bem...Tu falaste com meu primo no atelier de fotografia íntima [no caso, radiografia], antessala, lembras-te?
- Lembro-me um pouco.
- Então, nesse dia Behrens fez teu retrato transparente.
- Mas sim.
- Meu Deus! E tu o tens contigo?
- Não, eu o tenho no meu quarto.
- Ah, no teu quarto. Quanto ao meu, o tenho sempre dentro da carteira. Queres que eu mostre-o a ti?
- Muito obrigada. Minha curiosidade não é invencível. Este seria um aspecto muito inocente.
- Eu vi teu retrato exterior. Eu adoraria mais ainda ver teu retrato interior que está fechado dentro do teu quarto... Deixa-me pedir outra coisa! Talvez um senhor russo que mora na cidade venha te ver. Quem é? Com que objetivo este homem vem vê-la?
- Tu és belamente forte em espionagem, eu o confesso. E bem, eu respondo. Sim, é um compatriota sofrente, um amigo. Eu o conheci em uma outra estação balneária, já faz alguns anos. Nossa relação? Vamos lá: nós tomamos chá juntos, nós fumamos dois ou três “papiros”, e nós conversamos, nós filosofamos, nós falamos do homem, de Deus, da vida, da moral, de milhares de coisas. Aí está. Estás satisfeito?
- Da moral também! E o que é que pensaste, de fato, sobre a moral, por exemplo?
- A moral? Isso te interessa? Bem, parece que será necessário procurar a moral não na virtude, quer dizer, não na razão, na disciplina, nos bons modos, na honestidade – mas sobretudo no contrário, eu quero dizer: no pecado; se lançando ao perigo, ao que é nocivo, àquilo que nos consome. Parece-nos que é mais moral se perder e mesmo se deixar debilitar do que se conservar. Os grandes moralistas não são virtuosos, mas aventureiros no mal, nos vícios, nos grandes pecados que tentam nos inclinar cristianamente diante da miséria. Tudo isso deve te desagradar muito, não é?



Ele permanecia calado. Estava ainda sentado da mesma forma de antes, com os pés cruzados muito para trás, sob o assento. Inclinava-se para frente em direção à mulher reclinada com o tricórnio de papel. Tinha entre os dedos a lapiseira que pertencia a ela. Com os olhos tão azuis como os de Hans Lorenz Castorp, o jovem fitava a sala que se esvaziara. Os pensionistas haviam-se dispersado. O piano, no canto diagonalmente oposto, não deixava ouvir senão alguns nos suaves e espaçados, produzidos com uma mão só pelo enfermo de Mannheim, a cujo lado se achava a professora, folheando um tomo de músicas que tinha sobre os joelhos. Quando se interrompeu a conversa entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat, o pianista cessou de tocar, deitando no colo também a mão que até então acariciava o teclado. A srta. Englehart prosseguiu estudando as notas. Os quatro únicos remanescentes da festa carnavalesca conservaram-se imóveis. Os silêncio prolongou-se por alguns minutos. Sob o seu peso baixaram-se lenta e cada vez mais profundamente as cabeças do par sentado junto do piano, a do jovem de Mannheim em direção ao piano, e a da srta. Engelhart para o álbum de músicas. Por fim, como se se tivessem posto secretamente de acordo, levantaram-se suavemente, nas pontas dos pés, e evitando lançar um olhar para o outro canto da sala, com a cabeça baixa e os braços rigidamente pendurados, sumiram-se o rapaz de Mannheim e a professora, pela sala de correspondência.
- Todo mundo se retira – disse Madame Chauchat. – Eram os últimos; já é tarde. Bem, a festa de Carnaval acabou. – E ergueu os braços a fim de tirar com as duas mãos o gorro de papel do cabelo arruivado, cuja trança cercava a cabeça qual uma coroa. – Sabe as consequências, senhor.
Mas Hans Castorp fez que não, com os olhos fechados, sem modificar, de resto, a sua posição.
- Jamais, Clawdia – respondeu. – Jamais eu te trataria por “senhora”, jamais na vida nem na morte, se é que se pode dizer assim; deveria ser possível. Essa forma de se dirigir a uma pessoa, que é aquela do Ocidente culto e da civilização humanitária, me parece fortemente burguêsa e pedante. Para quê, no fundo, a formalidade? A formalidade, é a pedantice ela mesma! Tudo o que tu disseste a respeito da moral, tu e teu compatriota sofrente – tu queres seriamente que isso me surpreenda? Por qual tipo de idiota tu me tomas? O que tu pensas de mim?
- É um sujeito que não dá muito a pensar. Tu és um bom homem conveniente, de boa família, de desejos tênues, discípulo dócil de seus preceptores e que voltará logo às planícies, para esquecer completamente que falou em sonho aqui e para ajudar seu grande país com seu trabalho honesto sobre os canteiros. Eis tua fotografia íntima, feita sem aparelho. Achas que estou certa, sim?
- Faltam-lhe alguns detalhes que Behrens teria encontrado.
- Ah, os médicos de hoje em dia, se eles soubessem….
- Tu falas como o Senhor Settembrini. E minha febre? De onde ela vem?
- Bem, é um incidente sem consequências graves e que passará rápido.
- Não, Clawdia, tu bem sabes que o que dizes aqui não é verdade, e tu o dizes sem convicção, eu estou certo disso. A febre do meu corpo e os batimentos do meu coração arrasam e fazem tremer os meus membros, é o contrário de um incidente, pois não é outra coisa – e seu rosto pálido, com os lábios trêmulos, inclinou-se ainda mais para o rosto da mulher – senão o meu amor por ti, sim, esse amor que me possuiu no instante em que meus olhos te viram, ou, sobretudo, em que eu reconheci, quando eu te reconheci – e foi ele, evidentemente, que me guiou a esse lugar...
- Que delírio!
- Oh! O amor não é nada se não for um delírio, uma coisa insensata, uma defesa e uma aventura pelo mal. Por outro lado, é uma banalidade agradável, perfeita para que façamos dos nossos planos pequenas canções possíveis. Mas quanto a isso de eu ter te reconhecido e reconhecido em ti meu amor – sim, é verdade, eu já te conhecia, antigamente, tu e teus olhos maravilhosamente oblíquos e tua boca e tua voz, com aquela tua fala – já uma vez, quando eu era estudante, eu te pedi teu lápis, para enfim te conhecer mundanamente, porque eu te amava irracionalmente, e é isso, sem dúvida são meu antigo amor por ti essas manchas que Behrens achou no meu corpo, e que indicam também que estava mal…
Seus dentes batiam. Enquanto ia divagando, retirou um pé de sob o assento rangente. Ao avançar esse pé, tocou o chão com o outro joelho, de maneira que se ajoelhava diante dela, com a cabeça baixa e o corpo todo trêmulo. – Eu te amo – balbuciou – eu te amei todo o tempo, pois tu és o sentido da minha vida, meu sonho, meu destino, meu eterno desejo...
- Vamos, vamos! – disse ela. – Se teus preceptores te vêem...
Mas Hans Castorp sacudiu a cabeça, desolado, com o rosto junto ao tapete, e respondeu:
- Eu não me importaria, eu não me importo com Carducci e a República eloquente e o progresso humano no tempo, pois eu te amo!
Ela acariciou-lhe suavemente com a mão os cabelos aparados da nuca.
- Pequeno burguês! – disse. – Belo burguês de pequena mancha úmida. É verdade que tu me amas tanto?
E arrebatado por esse contato, já sobre ambos os joelhos, com a cabeça deitada para trás e com os olhos fechados, continuou ele a falar:
- Oh, o amor, tu sabes... O corpo, o amor, a morte, esses três não se separam. Pois o corpo é a doença e a volúpia, e é ele que faz a morte, sim, eles são sensuais os dois, o amor e a morte, e seus terrores e sua grande magia! Mas a morte, tu compreendes, é, de um lado, uma coisa difamada, insolente, que nos faz corar e nos envergonha; e por outro lado é uma pulsação muito solene e muito majestosa – maior que a vida risonha de ganhar dinheiro e de encher a barriga – muito mais venerável que o progresso que tagarela pelo tempo – porque ela é a história e a nobreza e a piedade e o eterno e o sagrado que nos faz tirar o chapéu e andar com as pontas dos pés... Mesmo o corpo, ele também, e o amor do corpo, são uma relação indecente e prejudicial, e o corpo de superfície avermelhada e pálida por medo e humilhação de si mesmo. Mas também ele é uma grande glória adorável, imagem miraculosa da vida orgânica, santa maravilha da forma e da beleza, e o amor para ele, para o corpo humano, é mesmo um interesse extremamente humanitário e um poder mais educativo que toda a pedagogia do mundo!... Oh, encantadora beleza orgânica que não se compõe nem de tintura a óleo nem de pedra, mas de matéria viva e corruptível, cheia de segredo febril da vida e da podridão! Vê a simetria maravilhosa do edifício humano, os ombros e as ancas e os seios floridos de uma parte à outra sobre o peito, e as costelas arrumadas por pares, e o umbigo ao meio na moleza do ventre, e o sexo obscuro entre as coxas! Olha as omoplatas se movimentarem sobre a pele brilhante do dorso, e a coluna que desce na direção das nádegas frescas e luxuriantes, e os grandes galhos de vasos e nervos que passam do tronco aos ramos dos pulmões, e como a estrutura dos braços correspondem àquela das pernas. Oh, as doces regiões da junção interior do cotovelo e do joelho com sua abundância de delicadeza orgânica sobre suas almofadas de carne! Que festa imensa acariciar esses lugares deliciosos do corpo humano! Festa para morrer sem se queixar depois! Sim, meu deus, deixa-me sentir o cheiro da pele da articulação, sobre a qual a engenhosa cápsula articula secretamente seu óleo deslizante! Deixa-me tocar devotamente de minha boca a Artéria do fêmur que bate em frente à coxa e que divide mais abaixo as duas artérias da tíbia! Deixa-me sentir a exalação de teus poros e apalpar teus pelos, imagem humana de água e de albumina, destinada à anatomia do túmulo, e deixa-me perecer, os meus lábios nos teus!
Não abriu os olhos, depois de ter terminado de falar. Permaneceu sem se mover, com a cabeça deitada para trás, estendendo as mãos com a lapiseira de prata, estremecendo e vacilando sobre os joelhos. Ela disse:
- Tu és realmente um galã que sabe implorar de uma maneira profunda, no Alemão!
E lhe pôs na cabeça o gorro de papel.
- Adeus, meu príncipe de Carnaval! Tu terás uma crise de febre essa noite, eu ta predigo.
Com essas palavras, resvalou da cadeira, deslizou pelo tapete, rumo à porta, sob cujo umbral hesitou um instante, meio voltada, levantando um dos braços nus, com a mão a repousar no gonzo. Por cima do ombro disse baixinho:
- Não te esqueças de me devolver meu lápis.
E saiu.

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Excurso: no dia seguinte, antes de partir, Clawdia deu a Hans sua radiografia.



Mann, Thomas. A Montanha Mágica. Trad. Herbert Caro. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000 (p. 457-469).
Com suporte da tradução dos trechos em Francês de Mariana Silveira em: http://agarrandooconceito.blogspot.com.br/2009/03/montanha-magica-thomas-mann-trechos-em.html
Com imagens do filme Der Zauberberg (1982), ao qual assiste quem quiser (Charles Aznavour pra interpretar Leo Naphta é inconcebível! Justamente Naphta!)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Depois daquela viagem

Hoje, exatamente sete dias após ter iniciado sua viagem na Quinta-feira Santa, Dante encerrava a visita aos mundos eternos. Pelas contas, é isso: dois dias no Inferno, quatro no Purgatório, em ambos guiado por Virgílio, e um no Paraíso, guiado por Beatriz (ou Beatrice para os puristas).

A "topografia" do Inferno descrita por Dante e ilustrada por Botticelli

domingo, 10 de março de 2013

Cat Stevens

Coisa rápida. Foi só algo que vi e ouvi. Passava aquele programinha chato de Serginho Groisman nessa madrugada de sábado para domingo (10/03/2013) para eu ver que o Senador Eduardo Suplicy, num de seus momentos de humor alterado (sim, já se sabe faz um bom tempo que Suplicy tem transtorno bipolar), cantou na tribuna do Senado uma música da qual gosto muito e que fazia algum pedaço que não escutava. É talvez a mais conhecida de Cat Stevens, que depois de convertido ao Islamismo tem o nome de Yusuf Islam, chamada Father and son. Depois, no palco do programa, Suplicy a cantou toda com os dois filhos que se apresentavam na ocasião.


Sempre adorei essa canção. Ela difere das demais assim como o romance Pais e filhos de Turguêniev (não citado por acaso, diga-se de passagem) se destaca dos outros escritos por ele. Diria até que, com algumas boas exceções, as músicas de Cat Stevens são verdadeiramente muito "bonitinhas", não passando muito disso. É que na época dele talvez não se havia inventado o termo auto-ajuda, senão era como as classificaria. Salvam-se, todavia, porque tem melodias legais e a voz do cara é muito bonita. Aquela música dele, por exemplo, Don't be shy, que abre o filme Harold and Maude (1971) - filme este que tem toda a trilha sonora composta pelo próprio Stevens - quase não passa de auto-ajuda mesmo. E não seria redundância pensar o mesmo de um filme com uma trilha sonora assim, apesar de que gosto dele, é divertido. Mas não é do tipo que me lembro nas conversações.


Há uma Father and daughter, só que é de Paul Simon e é recente. Foi composta como forma de homenagem à mais antiga.

Curioso ouvir Cat Stevens essa noite. Por causa disso me lembrei de gente, uma amiga e um amigo que não vejo há certo tempo. Por causa dos dois, muitos anos atrás, acabei gostando bastante de Cat Stevens. Descobri que ainda gosto. Talvez ele faça parte do meu Inventário.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Conflito geracional (às mulheres da outra geração)




AS MULHERES DE MINHA GERAÇÃO

As mulheres de minha geração abriram suas pétalas rebeldes
não de rosas, camélias, orquídeas ou outras flores.
De frivolidades tristes, de casinhas burguesas, de costumes anexos,
mas de pólens peregrinos entre ventos.

Porque as mulheres de minha geração floresceram nas ruas,
nas fábricas se fizeram fiandeiras de sonhos,
no sindicato organizavam o amor segundo seus sábios critérios.

Ou seja, disseram as mulheres de minha geração, cada uma segundo a sua necessidade
e capacidade de resposta,
como na luta golpe a golpe e no amor beijo a beijo.

Em escolas argentinas, chilenas ou uruguaias
aprenderam o que tinham que saber para o saber glorioso
das mulheres de minha geração.

Mini–saias em flor nos anos setenta,
as mulheres de minha geração não ocultaram nem as sombras
de coxas de fora como as de Tania. Erotizando com o maior dos calibres
os caminhos duros da hora marcada com a morte.

Porque as mulheres de minha geração
beberam com vontade o vinho dos vivos
acudiram a todos os chamados
e foram dignidade na derrota.

Nos quartéis lhes chamaram de putas e não as ofenderam
pois vinham de um bosque de sinônimos alegres: Minas, Brotos, Gatas, Moças, Pequenas, Gurias, Garotas,
velhas, Senhoras, Senhoritas, Panteras
até que elas mesmas escreveram a palavra Companheira
em suas costas e nas paredes de todas as celas
porque as mulheres de minha geração
nos marcaram com o fogo indelével de suas unhas
a verdade universal de seus direitos

Conheceram a prisão e os golpes.
Habitaram mil pátrias e nenhuma.
Choraram seus mortos e os meus como se fossem seus.
Deram calor ao frio e ao cansaço desejos,
à água sabor e ao fogo a direção correta.
As mulheres de minha geração pariram filhos eternos,
cantando Summertime os amamentaram,
fumaram marijuana nos poucos descansos da luta,
dançaram o melhor do vinho e beberam as melhores melodias.
Porque as mulheres de minha geração
nos ensinaram que a vida não se oferece em borbotões companheiros,
porém de golpe e até o fundo das conseqüências.

Foram estudantes, mineiras, sindicalistas, operárias,
artesãs, atrizes, guerrilheiras, até mães e parceiras
nos raros tempos livres da luta de Resistência
porque as mulheres de minha geração só respeitaram os limites que
superavam todas as fronteiras.

Internacionalistas de carinho, brigadistas do amor,
delegadas de dizer te amo, milicianas na carícia.

Entre uma batalha e outra as mulheres de minha geração se deram toda
e disseram que ainda era pouco.
Declararam-nas viúvas em Córdoba e Tlatelolco.
Vestiram-nas de negro em Porto Montt e São Paulo
e em Santiago, Buenos Aires ou Montevidéu
foram as únicas estrelas na longa noite clandestina.
Suas prisões não são prisões
porém uma forma de ser para o que fazer que lhe espera.

As rugas que aparecem em seus rostos
dizem tenho sorrido e chorado e voltaria a fazê-lo.

As mulheres de minha geração
ganharam alguns quilos de razões que se grudam em seus corpos
se movem um pouco mais lentas e cansadas de esperar-nos na meta final.

Escrevem cartas que incendeiam memórias.
Recordam aromas proscritos e os exaltam.
Inventam a cada dia as palavras e com elas nos empurram.
Nomeiam as coisas e nos preparam o mundo.
Escrevem verdades na areia e as entregam ao mar.
Convocam-nos e nos parem à mesa posta.

Elas dizem pão, justiça, liberdade
e a prudência se transforma em vergonha.

As mulheres de minha geração são como barricadas:
protegem e animam, dão confiança e suavizam o gume da ira.
As mulheres de minha geração são como um punho cerrado
que resguarda com violência a ternura do mundo.

As mulheres de minha geração não gritam porque elas derrotaram o silêncio.

Se algo nos marca, são elas.

A identidade do século são elas.
Elas: a fé fortalecida, o valor oculto num panfleto,
o beijo clandestino, o retorno de todos os direitos.

Um tango na serena solidão de um aeroporto,
um poema de Gelman escrito num guardanapo,
Benedetti compartilhado no mundo de um guarda-chuva
os homens e os amigos protegidos com raminhos de arruda.

As cartas que fazem beijar o carteiro.
As mãos que sustentam os retratos de meus mortos.
Os elementos simples dos dias que aterrorizam o tirano.
A complexa arquitetura dos sonhos de teus netos.
Isso é tudo e tudo se sustenta.
Porque tudo vem com seus passos e nos chega e nos surpreende.
Não há solidão onde elas cuidam
nem esquecimento enquanto elas cantam.
Intelectuais do instinto, instinto da razão,
prova de força para o forte e amorosa vitamina do fraco.

Assim são elas, as únicas, imprescindíveis
sofridas, golpeadas, negadas porém invictas
mulheres de minha geração.

Luis Sepúlveda Calbucura,
Santiago do Chile, 1999.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Outro


O fato ocorreu no mês de fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi imediatamente, porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo para não perder a razão. Agora, em 1972, penso que, se o escrevo, os outros o lerão como um conto e, com os anos, o será talvez para mim.

Sei que foi quase atroz enquanto durou e mais ainda durante as noites desveladas que o seguiram. Isto não significa que seu relato possa comover a um terceiro.

Seriam dez da manhã. Eu estava recostado em um banco, defronte ao rio Charles. A uns quinhentos metros à minha direita havia um alto edifício cujo nome nunca soube. A água cinzenta carregava grandes pedaços de gelo. Inevitavelmente, o rio fez com que eu pensasse no tempo. A milenar imagem de Heráclito. Eu havia dormido bem; minha aula da tarde anterior havia conseguido, creio, interessar aos alunos. Não havia ninguém à vista.

Senti, de repente, a impressão (que, segundo os psicólogos, corresponde aos estados de fadiga) de já ter vivido aquele momento. Na outra ponta de meu banco, alguém se havia sentado.

Teria preferido estar só, mas não quis levantar em seguida, para não me mostrar descortês. O outro se havia posto a assobiar. Foi então que ocorreu a primeira das muitas inquietações dessa manhã. O que assobiava, o que tentava assobiar (nunca fui muito entoado), era o estilo crioulo de La Tapera de Elias Regules. O estilo me reconduziu a um pátio lá desaparecido e à memória de Álvaro Mellián Lafinur, morto há muitos anos. Logo vieram as palavras. Eram as da décima do princípio. A voz não era a de Álvaro, mas queria parecer-se com a de Álvaro. Reconheci-a com horror.

Aproximei-me e disse-lhe:

- O senhor é oriental ou argentino?

- Argentino, mas desde o ano de 1914 vivo em Genebra - foi a resposta.

Houve um silêncio longo. Perguntei-lhe:

- No número dezessete da Malagnou, em frente à igreja russa?

Respondeu-me que sim.

- Neste caso - disse-lhe resolutamente - o senhor se chama Jorge Luis Borges. Eu também sou Jorge Luis Borges. Estamos em 1969, na cidade de Cambridge.

- Não - respondeu-me com a minha própria voz um pouco distante.

Ao fim de um tempo insistiu:

- Eu estou aqui em Genebra, em um banco, a alguns passos do Ródano. O estranho é que nos parecemos, mas o senhor é muito mais velho, com a cabeça grisalha.

Respondi:

- Posso te provar que não minto. Vou te dizer coisas que um desconhecido não pode saber. Lá em casa há uma cuia de prata com um pé de serpentes, que nosso bisavô trouxe do Peru. Há também uma bacia de prata que pendia do arção. No armário do teu quarto, há duas filas de livros. Os três volumes das Mil e Uma Noites de Lane, com gravações em aço e notas em corpo menor entre os capítulos, o dicionário latino de Quicherat, a Germania de Tácito em latim e na versão de Gordon, um Dom Quixote da casa Garnier, as Tábuas de Sangue de Rivera Indarte, o Sartor Resartus de Carlyle, uma biografia de Amiel e, escondido atrás dos demais, um livro em brochura sobre os costumes sexuais dos povos balcânicos. Não esqueci tampouco um entardecer em um primeiro andar da praça Dubourg.

- Dufour - corrigiu.

- Está bem. Dufour. Te basta, tudo isto?

- Não - respondeu. - Essas provas não provam nada. Se eu estou sonhando, é natural que eu saiba o que sei. Seu catálogo prolixo é totalmente vão.

A objeção era justa. Respondi:

- Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um de nós dois tem que pensar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. Nossa evidente obrigação, enquanto isto, é aceitar o sonho, como aceitamos o universo e termos sido engendrados e olharmos com os olhos e respirarmos. - E se o sonho durasse? - disse com ansiedade.

Para tranqüilizá-lo e me tranqüilizar, fingi uma serenidade que certamente eu não sentia. Disse-lhe:

- Meu sonho já durou setenta anos. Afinal de contas, ao rememorar, não há pessoa que não se encontre consigo mesma. É o que nos está acontecendo agora, só que somos dois. Não queres saber alguma coisa de meu passado, que é o futuro que te espera?

Assentiu sem uma palavra. Prossegui, um pouco perdido:

  - A mãe está saudável e bem, em sua casa de Charcas y Maipú, em Buenos Aires, mas o pai morreu há uns trinta anos. Morreu do coração. Uma hemiplegia o liquidou; a mão esquerda posta sobre a mão direita era como a mão de uma criança posta sobre a mão de um gigante. Morreu com impaciência de morrer, mas sem uma queixa. Nossa avó havia morrido na mesma casa. Alguns dias antes do fim chamou-nos a todos e disse-nos: '"Sou uma mulher muito velha que está morrendo muito devagar. Que ninguém se perturbe por uma coisa tão comum e corrente". Norah, tua irmã, se casou e tem dois filhos. A propósito, em casa como estão?

- Bem. O pai sempre com seus gracejos contra a fé. Ontem à noite disse que Jesus era como os gaúchos que não querem se comprometer e que, por isto, pregava através de parábolas.
Vacilou e disse:

- E o senhor?

- Não sei o número de livros que escreverás, mas sei que são demasiados. Escreverás poesias que te darão uma satisfação não partilhada e contos de índole fantástica. Darás aulas como teu pai e como tantos outros de nosso sangue.

Agradou-me que nada perguntasse sobre o fracasso ou êxito dos livros. Mudei de tom e prossegui:

- No que se refere à História... Houve outra guerra, quase entre os mesmos antagonistas. A França não tardou a capitular; a Inglaterra e a América travaram contra um ditador alemão, que se chamava Hitler, a cíclica batalha de Waterloo. Buenos Aires, ao redor de mil novecentos e quarenta e seis, engendrou outro Rosas, bastante parecido com nosso parente. Em cinqüenta e cinco, a província de Córdoba nos salvou, como antes Entre Rios. Agora, as coisas andam mal. A Rússia está se apoderando do planeta; a América, travada pela superstição da democracia, não se resolve a ser um império. Cada dia que passa nosso país está mais provinciano, Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia se o ensino do latim fosse substituído pelo do guarani.

Notei que mal me prestava atenção. O medo elementar do impossível, e no entanto certo, o aterrorizava. Eu, que não fui pai, senti por esse pobre moço, mais íntimo que um filho da minha carne, uma onda de amor. Vi que apertava entre as mãos um livro. Perguntei-lhe o que era.

- Os possessos ou, segundo creio, Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski - me replicou não sem vaidade.

- Já o esqueci. Que tal é?

Nem bem o disse, senti que a pergunta era uma blasfêmia.

- O mestre russo - sentenciou - penetrou mais que ninguém nos labirintos da alma eslava.

Essa tentativa retórica me pareceu uma prova de que se havia acalmado.

Perguntei-lhe que outros volumes do mestre havia percorrido. Enumerou dois ou três, entre eles O Duplo.

Perguntei-lhe se, ao lê-los, distinguia bem as personagens, como no caso de Joseph Conrad, e se pensava prosseguir o exame da obra completa.

- A verdade é que não - respondeu-me com uma certa surpresa.

Perguntei-lhe o que estava escrevendo e disse que preparava um livro de versos que se chamaria Os hinos vermelhos. Também havia pensado em Os ritmos vermelhos.

- Por que não? - disse-lhe. - Podes alegar bons antecedentes. O verso azul de Rubén Darío e a canção gris de Verlaine.

Sem me fazer caso, esclareceu que seu livro contaria a fraternidade entre todos os homens. O poeta de nosso tempo não pode voltar as costas à sua época.

Fiquei pensando e perguntei-lhe se verdadeiramente se sentia irmão de todos. Por exemplo, de todos os empresários de pompas fúnebres, de todos os carteiros, de todos os escafandristas, de todos os que vivem nas casas de números pares, de todos os afônicos, etc. Disse-me que seu livro se referia à grande massa dos oprimidos e dos párias.

- Tua massa de oprimidos e párias - respondi - não é mais que uma abstração. Só os indivíduos existem, se é que existe alguém. O homem de ontem não é o homem de hoje, sentenciou algum grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou Cambridge, somos talvez a prova.

Salvo nas severas páginas da História, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis. Um homem a ponto de morrer quer se lembrar de uma gravura entrevista na infância; os soldados que estão por entrar na batalha falam do barro ou do sargento. Nossa situação era única e, francamente, não estávamos preparados. Falamos, fatalmente, de literatura; temo não haver dito outras coisas que as que costumo dizer aos jornalistas. Meu alter ego acreditava na invenção ou descobrimento de metáforas novas; eu, nas que correspondem a afinidades íntimas e notórias e que nossa imaginação já aceitou. A velhice dos homens e o acaso, os sonhos e a vida, o correr do tempo e da água. Expus-lhe esta opinião que haveria de expor em um livro anos depois.

Quase não me escutava. De repente, disse:

- Se o senhor foi eu, como explicar que tenha esquecido seu encontro com um senhor de idade que, em 1918, lhe disse que ele também era Borges?

Não havia pensado nessa dificuldade. Respondi, sem convicção:

- Talvez o fato tenha sido tão estranho que eu tenha tratado de esquecê-lo.

Aventurou uma tímida pergunta:

- Como anda sua memória?

Compreendi que, para um moço que não havia feito vinte anos, um homem de mais de setenta era quase um morto. Respondi:

- Costuma parecer-se com o esquecimento, mas ainda encontra o que lhe pedem. Estou estudando anglo-saxão e não sou o último da classe.

Nossa conversação já havia durado demais para ser a de um sonho. Uma súbita idéia me ocorreu.

- Eu posso te provar imediatamente - disse-lhe - que não estás sonhando comigo. Ouve bem este verso, que nunca leste, que eu me lembre.

Lentamente entoei o famoso verso:
  
L'hydre - univers tordant son corps ecaillé d'astres.

Senti seu quase temeroso estupor. Repetiu-o em voz baixa saboreando cada resplandescente palavra.

- É verdade - balbuciou - Eu não poderei nunca escrever um verso como este.

Antes, ele havia repetido com fervor, agora recordo, aquela breve peça em que Walt Whitman rememora uma noite compartilhada diante do mar em que foi realmente feliz.

- Se Whitman a cantou - observei - é porque a desejava e não aconteceu. O poema ganha se não adivinhamos que é a manifestação de um anelo. Não a história de um fato.

Ficou a me olhar.

- O senhor não o conhece - exclamou.- Whitman é incapaz de mentir.

Meio século não passa em vão. Sob nossa conversação de pessoas de leitura miscelânea e de gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos nos enganar, o que torna o diálogo difícil. Cada um de nós dois era o arremedo caricaturesco do outro. A situação era anormal demais para durar muito mais tempo. Aconselhar ou discutir era inútil, porque seu inevitável destino era ser o que sou.

De repente, lembrei uma fantasia de Coleridge. Alguém sonha que atravessa o paraíso e lhe dão como prova uma flor. Ao despertar, ali está a flor.

Ocorreu-me artifício semelhante

- Ouve - disse-lhe -, tens algum dinheiro?

- Sim me replicou. - Tenho uns vinte francos. Esta noite convidei Simón Jichlinski ao Crocodile.

- Diz a Simón que exercerá a medicina em Carouge e que fará muito bem... agora, me dá uma de tua moedas.

Tirou três escudos de poeta e umas peças menores. Sem compreender, me ofereceu um dos primeiros.

Eu lhe estendi uma dessas imprudentes notas americanas que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho. Examinou-a com avidez.

- Não pode ser - gritou. - Leva a data de mil novecentos e sessenta e quatro.

(Meses depois, alguém me disse que as notas de banco não levam data.)

- Tudo isto é um milagre - conseguiu dizer - e o milagroso dá medo. Os que foram testemunhas da ressurreição de Lázaro terão ficado horrorizados.

Não mudamos nada, pensei.

Sempre as referências livrescas.

Fez a nota em pedaços e guardou a moeda. Eu resolvi lançá-la ao rio. O arco do escudo de praia perdendo-se no rio de prata teria conferido à minha história uma imagem vívida, mas a sorte não quis assim.

Respondi que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador. Propus a ele que nos víssemos no dia seguinte, nesse mesmo banco que está em dois tempos e dois lugares.

Assentiu logo e me disse, sem olhar o relógio, que já era tarde. Os dois mentíamos e cada qual sabia que seu interlocutor estava mentindo. Disse-lhe que viriam me buscar.

- Buscá-lo? - interrogou.

- Sim. Quando alcançares a minha idade, terás perdido a visão quase por completo. Verás a cor amarela, sombras e luzes. Não te preocupes. A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.

Despedimo-nos sem nos termos tocado. No dia seguinte, não fui. O outro tampouco terá ido. Meditei muito sobe esse encontro, que não contei a ninguém. Creio ter descoberto a chave. O encontro foi real, mas o outro conversou comigo em um sonho e foi assim que pude me esquecer. Eu conversei com ele na vigília e a lembrança ainda me atormenta.

O outro me sonhou, mas não me sonhou rigorosamente. Sonhou, agora o entendo, a impossível data no dólar.


Jorge Luis Borges (tradução Lígia Morrone Averbuck)


sábado, 16 de fevereiro de 2013

O sonho de Gustav

(...)
Nesta noite teve um sonho terrível - se podem ser chamadas de sonhos experiências físico-espirituais, apesar de lhe terem acontecido no mais profundo sono e em completa independência e presença física, sem que se visse andando e presente no lugar dos acontecimentos, porque a cena era sua própria alma; estes romperam de fora para dentro sua resistência - uma resistência profunda e espiritual -, derrubando-a violentamente, transpassando-a, deixando sua existência, deixando a cultura de sua vida devastada, exterminada.

O medo foi o princípio, medo, desejo e uma curiosidade horrorizada pelo que devia vir. Imperava a noite e os seus sentidos escutavam; pois de longe se aproximavam tumulto e bulha, uma mistura de barulhos: um punhado de júbilos estridentes e de um certo uivar com o som prolongado de "u" - tudo isso impregnado por um toque de flauta soando mais alto e medonhamente doce, profundamente arrulhante, perversamente pertinaz que, de maneira importunamente vergonhosa, lhe enfeitiçava as entranhas. Ele sabia uma palava obscura, mas dando um nome ao que vinha: o deus estranho. Acendeu-se uma chama cheia de fumaça: então reconheceu terra montanhosa, parecida àquela em redor de sua residência de verão. E numa luz rompida, vindo de alturas revestidas de florestas, entre troncos de árvores e rochas cobertas de musgo, rolavam-se e precipitavam-se, girando para baixo: homens, animais, um enxame, um bando furioso - e inundaram a colina de corpos, chamas, tumulto e dança vertiginosa. Mulheres, gemendo, sacudiam tamborins sobre suas cabeças jogadas para trás, tropeçando sobre longos hábitos de pele que lhes pendiam da cintura; vibravam punhais nus e archotes cujas chamas se dispersavam; seguravam serpentes sibilantes pelo meio dos corpos ou erguiam, gritando, seus seios com ambas as mãos. Homens de chifre sobre a testa, abrigados em peles, hirsutos, curvavam o pescoço e erguiam braços e coxas, e faziam vibrar pratos de bronze e batiam raivosos sobre timbales, enquanto, com bastões envolvidos em folhas, rapazes nus espicaçavam bodes cujos chifres agarravam, deixando-se arrastar, jubilantes, pelos seus saltos. E os extasiados urravam o grito de consoantes suaves de prolongado "u" no fim, doce e selvagem ao mesmo tempo, como jamais fora ouvido um outro: aqui ressoava bramando para os ares como por veados e ali era reproduzido, multíssono, em louco triunfo; atiçavam-se com este grito para a dança e, arremessando os membros, nunca o deixaram silenciar. Mas tudo era penetrado e dominado pelo profundo e atraente da flauta. Não seduzia também a ele, o presenciador resistente, com persistência impudica, para a festa e a imoderação do sacrifício extremo? Grande era a sua repugnância, grande seu medo, honesto seu desejo de salvaguardar o seu eu até o fim contra o estranho, o inimigo do sereno e digno espírito. Mas o barulho e a gritaria, multiplicados pela rocha ecoante, cresciam, sobrepujavam, aumentavam, até a loucura arrebatante. Vapores comprimiam o cérebro, o cheiro penetrante dos bodes, a atmosfera de corpos arquejantes e um corpo de águas pútridas, e além destes ainda um outro, familiar: de feridas e de doença propagada. Com as batidas dos timbales seu coração retumbava, seu cérebro girava, acometido de raiva, de desvario, de atordoante voluptuosidade, e sua alma desejou unir-se à dança de roda do deus. O enorme símbolo obsceno, de madeira, foi descoberto e elevado: aí gritaram mais desenfreados a senha. Com espumas nos lábios, vociferavam, excitavam-se com gestos lascivos e mãos buliçosas, rindo e gemendo, empurravam os bastões espinhosos um na carne do outro e lambiam o sangue dos membros. Mas com eles, entre eles, estava agora o sonhador, submisso ao deus estranho. Eles eram ele mesmo, quando se atiravam sobre os animais, dilacerando e assassinando, e devoravam pedaços fumegantes; então, sobre o terreno de musgo revolvido, começou um ilimitado cruzamento, em sacrifício ao deus. E sua alma experimentou a luxúria e a loucura da decadência.
(...)

MANN, Thomas. A morte em Veneza. Trad. Maria Deling. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (pp. 160-162)